a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Imaginação Fértil

Share
artigo para revista Webdesign

– Calma. Vamos rabiscar no papel, antes.

Ele me olhou com estranheza. O software já estava ali, engatilhado, pronto para receber de braços abertos nosso furor criativo, nosso í­mpeto realizador, nossa… precipitação desastrada.

Quando o assunto é criar, somos como maus amantes: partimos para as vias de fato sem cerimônia alguma, sem preliminares, sem nada.

Dá para se conceber assim? Claro que dá, mas prepare-se para um gestação tumultuada e um parto sofrido. O mal dos softwares autorais é esse: eles te enganam.

Nenhum photoshop, dreamweaver, powerpoint te pergunta: “O que você quer de mim?”. Que nada: em todos eles começamos com a cabeça tão vazia quanto a tela nova.

Para alguns processos “autorais” isso pode ser um bom começo. Se você for um poeta beat, se você for um James Joyce reencarnado registrando seu stream of conciousness, se você for um Pollock e quiser jogar coisas a esmo para ver no que dá…

Nesses casos o processo “vamuquivamu” pode ser esplêndido, mas se for essa a sua praia eu te sugiro procurar outra revista (ou um articulista menos crica).

Essa liberdade infinita que um software nos dá mascara uma limitação básica: aquele software é capaz de cuspir alguns tipos de coisas, mas quem garante que são as coisas de que precisamos? A solução para o seu problema pode não ser um JPG, pode ser um email bem estruturado. A chave para resolver uma questão pode ser um mero telefonema, e não uma campanha elaborada de email marketing. Ou pode ser… não fazer nada a respeito.

Por isso é bom parar por um momento, levantar da sua baia e ir buscar lápis e papel para rabiscar um esquema realmente inovador.

Inovação nasce assim, nasce fora dos caminhos batidos. Grandes idéias são grandes já no rascunho, em rabiscos feitos no guardanapo do restaurante. Se depois disso você vai usar o software X ou Y, macs ou PC’s, tanto faz. Ou você acha que “Garota de Ipanema” foi escrita usando a última versão do Office num Tablet PC wireless na mesa do bar?

Softwares viciam a gente. Nunca vou me esquecer de uma frase colada no monitor de uma colega, anos atrás: “De tanto carregar um martelo, você acaba achando que tudo é prego”. Well, acho que a frase era mais bem construí­da, mas você pegou a idéia: nem tudo se traduz em planilhas, em classes Java, nem sempre a solução é um repeteco do que você sempre fez.

Anos atrás, o que eu mais ouvia era: “Preciso aprender internet… Que curso de Flash você me recomenda?”. Era de arrepiar. E dá-lhe gente disparando SWF pra todo lado, como se a panacéia universal fosse interatividades misteriosas e sons em loop.

Por sorte a paisagem hoje é outra, e não faltam boas opções para quem quer “aprender internet”. Mas o problema persiste: e se a solução não for só internet? Se pensarmos só em termos de internet, como vamos criar aquilo que virá depois da internet?
Há alguns anos todo projeto mirabolante pressupunha que nosso futuro era a atrofia completa, uma humanidade sentada, com nariz colado em monitores e sorrindo por emoticons. Felizmente alguém teve a saudável percepção de que somos bí­pedes, gregários, afetivos, e que celulares com câmera poderiam ser mais libertadores e revolucionários do que um hipercomputador no meio do living.

Alguns softwares, porém, te ajudam a pensar, a organizar melhor as idéias. Eu sou um dependente terminal do MindManager (http://www.mindmanager.com), que me permite primeiro organizar pensamentos soltos e depois agrupá-los, conectá-los e enfim exportá-los em vários formatos diferentes.

Há também o The Brain (http://www.thebrain.com) ou o Inspiration (http://www.inspiration.com), ou mesmo os outliners do Word ou Powerpoint. O mais importante, seja qual for a ferramenta, é que você conceba algo abrangente, consistente, bem costurado, e que só então você decida qual a melhor maneira de realizar a o que você imaginou.

Namore muito sua idéia, muito. Só assim vamos fazer nascer projetos que fecundem pessoas, que nos tornem mais férteis.

Super Size Web

Share
artigo pra revista Webdesign

Uma pergunta de quinze quilos: por que será que escolheram o @ e não outro sí­mbolo qualquer? Arroba pesa.

Quem sabe se tivessem escolhido outro sí­mbolo esse nosso digimundo não pesaria tanto, quem sabe assim não terí­amos que avançar léguas… polegada por polegada.

Sí­mbolos por sí­mbolos, poderiam ter usado o &. Quando clientes briefam um projeto, normalmente querem isso & aquilo & aquilo também & um fórum & chat & o maior portal do setor, tudo isso @ um preço e prazo ***, enquanto você pensa consigo mesmo: #!%&!!!

Nesse buffet por quilo do digimundo deverí­amos alertar os clientes gulosos: escolha com moderação; excessos são prejudiciais a saúde. Pensando melhor, acho que o aviso vai passar batido: quem arca com ônus dessa gula é o usuário, aquela figura mí­tica e invisí­vel que paga os pecados do digimundo, amém. É o usuário que vai engolir o vinho azedo e o pão dormido de um site abandonado, é ele que vai passar pelo vale das sombras para encontrar o que quer, é ele quem vai esperar o juí­zo final para receber uma resposta por email, é ele que vai ter que rezar pra a intro em flash acabar logo.

Essa gula clientélica não é privilégio da internet: 99% das pessoas ignora 99% das funções do celular que escolheu, do software que instalou, do home theater que comprou… Mas até aí­ é livre-arbí­trio, são pecadilhos de foro í­ntimo que não fazem da vida alheia um inferno. Já com inFernet… a tentação de um é a perdição de muitos.

De que tamanho tem que ser o seu site? A resposta é simples: do tamanho do seu tempo. Sites são ainda mais gulosos que você, e em pouco tempo vão devorar seus recursos, suas horas extras, seu orçamento… a menos que você crie um site domesticável, que você dê conta. Se você ainda continua pensando grande, lá vão pequenas perguntas:

* Quem vai responder os emails?
* Quem vai ver se o site está com o tráfego normal?
* Quem vai perceber que o site foi hackeado sábado à s três da manhã?
* E quem vai “consertar” o site hackeado a tempo?
* Quem vai back-upear o site regularmente?
* Quem vai atualizar as notí­cias?
* Quem vai criar e disparar as newsletters?
* Quem vai cuidar de banners e mí­dia online?
* Quem vai extrair alguma inteligência dos dados de tráfego e transações?
* Quem vai checar se nao publicaram alguma atrocidade no forum?
* Quem vai trazer de volta os usuários que sumiram?
* Quem vai…? E por aí­ vai.

Cada feature no seu site tem dois lados: é um serviço a mais para o usuário mas é uma responsabilidade a mais para você, uma responsabilidade 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem feriado nem descanso.

Para dar conta dessa demanda você tem três caminhos: investir recursos (que nunca ninguém tem), não dar conta (e o usuário incomodado que se mude) ou simplesmente… cortar o mal pela raiz, descartando aquilo que é definitivamente um tiro no pé.

Ok, ok, a tentação é grande sempre, a vontade é abraçar o digimundo com as pernas e ter olhos maiores que o mouse (ou o bolso). Mas pense como usuário: é melhor um site cheio dos truques mas mosca-morta, ou um site enxuto, focado, que cumpre o que promete?

Eu fico com o segundo: é sempre preferí­vel surpreender com o over-delivering do que frustrar com overpromising. (Talvez um bom tí­tulo pra história do digimundo fosse “A Insustentável Leveza da Web”).

Tempos atrás um conhecido me recomendou os serviços de um fornecedor de marketing direto digital. O cara é um gênio, disse ele. Anotei a dica, e mais tarde fui consultar a URL. O site tinha uma página. Um logo, o nome da marca, uma frase, e um endereço de email. Só.

Realmente o cara era um gênio. Esse vai pro céu.

O gênio da página

Share
artigo escrito para a revista Webdesign

Memórias brasileiras têm um gosto indefiní­vel, misto de doçura e de absurdo, de picante e suculento, gostos de dar água na boca e que te trazem palavras fortes na ponta da lí­ngua, mas antes que você as enquadre as palavras te driblam o verbo e lá se foi o discurso, a história, a prosa.

Não somos um paí­s sem memória. Memória não falta, o que falta é colocá-las na linha, em linhas, em blocos comportados longe do carnaval das entrelinhas e da folia do não-dito. Haja jogo-de-cintura para se fazer um balanço nesta terra sem perder o rebolado.

A repórter perguntou: General, o senhor poderia fazer um balanço do seu governo?.

Figueiredo não hesitou. Diante das câmeras e dos olhos da nação balançou pra cá, pra lá e disse: Está bom assim?

(Creio que foi assim mesmo, creio ainda que absurdo, creio com fé vacilante na minha memória idem).

Há balanços mais tentadores do que o de um general irreverente -Vinicius que o diga – mas a tentação de se fazer balanços numa hora como essa é quase irresistí­vel, ainda mais quando um ano se encerra e pede um epitáfio, um rótulo, uma elegia.

Balanços têm sempre um eixo, e girando em torno do tí­tulo desta revista eu proclamo: esse foi um excelente ano para o webdesign, sobretudo porque foi um péssimo ano para o webdesign ou, ao menos, para o que se costumava encarar como webdesign.

(Well, quem sou eu para falar em webdesign se nem designer eu sou… mas é que esse ano me fez perguntar: o que eu sou mesmo? O que eu deveria ter feito e pelo visto ainda não sei fazer? O que eu vou ser no ano que vem?)

Acabei esse ano deliciosamente desnorteado, abençoado por experiências que jogaram pro alto toda minha experiência, e que me forçaram a perceber que esse nosso ofí­cio tem que se reinventar de cabo a rabo.

Reveja 2004 e veja o Google. Veja os filhotes do Google: Google Desktop, Google Adsense, Google Gmail, Google Picasa. Google via SMS, via WAP. Que webdesign é esse, que fez um logo, uma caixa de texto e um botão de submit virarem a chave para o inumerável?

Veja o Yahoo. Veja as facetas do Yahoo: messenger, chat por voz, webmail, grupos, mobile, porta-arquivos, agenda online, bookmarks online. Veja o Skype.

Veja o Orkut. Veja os blogs. Veja o SMS. Veja a integração do iPod com o iTunes e com a loja online da Apple.

Há algo maior tomando corpo, se infiltrando nas nossas vidas, redefinindo a maneira como trabalhamos, vivemos e vemos o mundo. Algo que não se restringe a interfaces instigantes, criatividade gratuita ou interatividade de araque. Algo que não espera pela benção da academia, nem pelo champagne de publicitários. Algo que não é privilégio de descolados ou de gente com cabelo esquisito. Coisas com siglas anônimas que nos tornam mais humanos, mais dignos, naturais, letras mudas que nos dão mais voz. Um mundo inteiro de integração, de transparência, de agilidade, um universo inédito que parece com tudo o que eu sempre sonhei mas com nada que eu soubesse fazer ou criar.

Reveja tudo isso que te é tão caro no digimundo e me responda: que webdesign é esse, que nos faz mais completos, mais humanos, mais criativos? Usaram Flash, applets, DHTML? Usaram a cabeça, e pensaram… com a cabeça dos usuários. Pensaram naquilo que os usuários pensam, e pensaram em como fazer coisas fáceis de usar, páginas que fossem como o gênio da lâmpada: você pede, ela faz.

Gênios de historinha concedem três desejos sempre, e se vocês me concederem essa honra, coloco aqui meus 3 desejos para o nosso ofí­cio:

* Desejo que aprendamos a satisfazer desejos reais, e não a inventar desejos vazios
* Desejo que desejos possam ser atendidos a qualquer momento e em qualquer lugar, não só na frente de um desktop de 30 quilos.
* Desejo que milhões desejem milhões de desejos, e que não precisem de gênios para realizá-los

Nós, brasileiros, já demos os primeiros passos.Veja o case mundial de e-governo que é o Brasil. Veja os telecentros da prefeitura de SP.

Estamos num momento mágico, e que pede novos gênios que não cruzem os braços como a Jeannie e fechem os olhinhos, mas que saiam dos oásis e arregacem as mangas.

Mãos à obra.

Palavrão com P maiúsculo

Share
artigo para revista webdesign

Eu percebo que estou ficando jurássico quando vejo que meus palavrões mais caros, justo aqueles que viraram advérbios (para ****, do **) ou viraram minhas ví­rgulas (****), hoje caem mal como um pum.

O mais interessante dos palavrões é que muitos deles homenageiam o que todo mundo tem, ou o que todo mundo faz. Por que *** será que são feios?

Estamos em pleno verão, carnaval, e vou me despir dos meus pudores rotineiros. Tape os seus ouvidos e olhos, porque vou soltar um palavrão aqui: Polí­tica.

Repetindo de boca cheia y con mucho gusto: Po-lí­-ti-ca. Eu faço, você faz, todos fazemos. Freud que me perdoe, mas ainda acho que polí­tica nos move mais que tesão. Ditadores velhotes podem precisar de viagras pra sexo, mas pra polí­tica estão sempre a postos.

Você não faz polí­tica? Siiiiim, você faz. Se você decidiu não fazer polí­tica… essa é uma polí­tica também. A maneira como você se veste é polí­tica. As gí­rias que você usa. As tuas comunidades no orkut. Comprar um iPod. Não comprar um iPod. Fechar os olhos, abrir os olhos, dar o braço, apertar o passo, largar a mão. Tudo é polí­tica.

Sei que não costumamos pensar assim e que esse parece ser um território da estética, da ética, da moral ou gosto. Mas se isso impacta outras pessoas agora ou no futuro, então é polí­tica. Ponto.

Pode ficar tranqí¼ilo: não vou questionar teu corte de cabelo, nem tua vida noturna. Por uma decisão polí­tica antiga e teimosa, eu vou bater na mesma tecla de sempre: seu trabalho no digimundo.

Eu trabalhava em TV, antes. Quando você percebe que teu trabalho entra sem pedir licença na sala de uma nação, dá um frio na barriga. Você está fazendo parte da vida, das referências, das memórias de milhões de pessoas.

Ok, não estou mais em mí­dia de massa. Ou estou/estamos?

Eu, por postura… polí­tica, prefiro pensar que sim, com um agravante: mí­dia INTERATIVA para massas. Estou conferindo a milhões um poder que elas nunca tiveram. Estou dando para meus contemporâneos e descendentes mais controle sobre seu próprio destino. Estamos no mesmo barco de Gutemberg e… Pronto: falei que polí­tica dá tesão? Já me empolguei.

Voltando ao que nos une, o nosso ofí­cio: qual tua postura polí­tica? Aqui vai um check-up:

* você faz coisas só para privilegiados ou todos podem usar?
* Você compartilha o que você aprende?
* Outros podem usar teu trabalho?
* Teu trabalho está aberto a comentários e participação ou é fechado?
* Teu trabalho tem escalabilidade? O que acontece se milhões o utilizarem?
* Teu trabalho gera riqueza social ou é parasitário?
* Teu trabalho dá crédito para quem colaborou?
* Quem paga as contas do teu trabalho?
* Teu trabalho pode servir como base para um futuro melhor?
* Teu trabalho pode evoluir e se adaptar ou vai virar relí­quia?
* O fruto do teu trabalho germina e dá frutos ou estraga depois de um tempo?
* Teu trabalho conversa com todas as plataformas ou é uma ilha sem pontes?
* Dá pra encaixar teu trabalho em trabalhos maiores ou ele é stand-alone?
* Teu trabalho reflete a tua visão de mundo ou a dos teus usuários?
* Quem você escuta antes de criar? Gurus, inspirações ou… gente de verdade?

E por aí­ vai. Decisões altamente polí­ticas em cada interface que você cria, em cada solução que você propõe, em cada gif, flash, javascript, mapa, tudo.

Claro que você pode achar isso chato, e querer ser parâmetro de tudo, ou querer ser genial, engraçadinho, irreverente, enfant-terrible, etc.. Para isso tem outro palavrão da década de 60: inocente útil.

Eu tenho uma bandeira: power to the people. Se quiser fazer parte, o prazer é nosso, pra ***.