a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Minha Teia 2.0

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O Tarzan deve morrer de inveja do Homem-Aranha: o cara clica num botão e zás, sai um cipó automático limpinho para se baloiçar sobre abismos. Assim é fácil.

Para piorar a raiva, a selva de pedra tem mocinhas muuuito mais
interessantes do que a Jane e a Chita. Sem platéia feminina de que adianta desfilar saradão e seminu pela floresta, afinal? Uma banana pra esse mascarado, deve grunhir o homem-macaco.

É curioso que um dos super-heróis mais queridos seja… uma aranha. Imagine você convencendo um cliente ou chefe de que um homem-inseto que sobe pelas paredes e lança teias vai ser um estrondo comercial. Faça isso hoje e o cara ou te demite ou pede antes um focus-group, que vai optar fragorosamente pelo Iridiscente Homem-Borboleta. Só o Stan Lee mesmo para emplacar uma idéia improvável dessas.

Mudemos da Cartoon Network pro Discovery Channel: o forte das aranhas não é o bungie-jumping. Aranhas vivem por um fio, mas um fio que tece teias. O bichinho escolhe um canto e vai pacientemente esticando, prendendo, enredando, até que uma teia complicada e invisí­vel fique estendida no ar. Como um certo senhor barbudo, ao final da criação ela descansa.

Descansar é modo de dizer: na ponta de suas patas os fios tensos vão dando notí­cia se o almoço chegou ou não. Um tremelique nervoso no setor XYZ é a sineta do lanche: ela corre para o ponto exato antes que o almoço escape.

Biologices à parte, vou confessar uma coisa: pela primeira vez em anos eu vejo sentido nessa história de falar em web. Que web é teia em inglês não é novidade, mas antes o que me vinha a cabeça era uma teia mundial de computadores interligados e zunindo, e a metáfora não me comovia muito.

Tudo mudou, ou melhor, tudo está mudando muito rápido. A teia agora é outra. Eu posso escolher quais são as fontes de notí­cia e informação mais relevantes para mim e concentrá-las todas numa página só, ou em um único software. Eu bato o olho ali e vejo o que tem de novo em N fontes diferentes.

Como a aranhazinha, sem sair do lugar eu fico ligado em mil fios que me anunciam as novidades. E tudo o que eu produzo, de podcasts a blogs passando por minhas fotos, tudo pode ser importado nas teias alheias.

Como isso é possí­vel? RSS.

Não, RSS não quer dizer “risos”. RSS é tão fácil que é até divertido, mas é algo bem sério. RSS (real simple syndication) foi um recurso criado anos atrás para facilitar a distribuição de informações.

Eu atualizo meu podcast “roda e avisa” =(https://www.usina.com/rodaeavisa) e automaticamente um arquivinho é gerado com o resumo das mudanças. Esse arquivinho de nada é que permite que pessoas do mundo todo “acompanhem” as coisas que eu publico sem ter que visitar minha página.

(Confira http://pt.wikipedia.org/wiki/RSS para ver mais detalhes, é bem bacana)

Preste atenção em grandes sites de notí­cias, em bons blogs e portais: você vai ver que em algum lugar vai ter um botãozinho escrito RSS, ou XML, ou FEED. Esse botão tem um link, e esse link você pode adicionar à tua teia pessoal de interesses e fontes de notí­cia.

Quer ver um bom exemplo? A CNN oferece inúmeros feeds:
http://www.cnn.com/services/rss/

Outro exemplo: ontem me indicaram um blog bárbaro de um americano
super-antenado: http://jeremy.zawodny.com/blog/. Como o blog dele
tinha RSS, adicionei-o imediatamente à  minha página agregadora e
pronto: agora ele faz parte da minha teia, ou melhor, da minha web.

OK, agora todos nós temos “sentidos de aranha”, todos nós lançamos teias num duplo-clique. Isso o Peter Parker já tinha. Mas temos uma vantagem sobre o CDF solitário: somos milhões de aranhas, milhões, cada uma construindo sua própria web, cada uma produzindo e pendurando na teia para todas as outras aranhas, cada uma aliando forças com outras aranhas e montando sua própria rede de comunidades e trabalho.

Para nós que trabalhamos com essa selva de teias, qual o impacto? O que muda? Vamos ter que repensar nossa maneira de fazer sites, de criar serviços, de pensar em ações de comunicação?

Sim, e rápido. A menos que queiramos ficar de tanga escutando gorilas

Design em revista

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artigo para revista Webdesign

Revista é bom.

Meu pai me conta que na sua infância no interior de São Paulo a
Seleções do Reader’s Digest era esperada com ansiedade. Tenho pilhas
de Wired que me recuso a jogar fora. E as Fast Company então? E a
Business 2.0? Pilhas.

Jornal ninguém guarda nem aguarda. Jornal simplesmente vem. Revista
não: ela surge, enfim, radiante e perfumada.

Não me pergunte por quê. Colorido o jornal é. Fotos jornal tem. O papel bom, será? O formato?

Pense nas revistas que você gosta. Esta aqui, por exemplo. Há algo nela que te agradou uma vez e você encontra de novo edição após edição: a profundidade dos artigos, o tone and manner, o mix de articulistas, os temas, e por aí­ vai. Se algum desses aspectos mudar, você vai estranhar: “o que aconteceu com esta revista? Ela não é mais a mesma”.

Revistas têm uma “cara” e isso não é por acaso. Em algum momento definiram seu perfil editorial, seu formato, seu público, e a cada edição um time profissional junta os elementos todos, cada um vindo de um lado, e costura o quebra-cabeças tão bem que a revista parece um bebê nascido de uma romântica noite de amor. E o parto, sofridí­ssimo? E a gestação tumultuada? Nem se adivinha.

Uma boa revista, assim como um bom site ou um bom produto qualquer, é uma boa experiência, uma experiência intelectual, tátil, visual, olfativa, afetiva, etc. A embalagem da vitamina é um horror, coisa que só o Wolverine abre? Ops, experiência ruim. Você teve dúvidas com o DVD mas o call-center te orientou direitinho? Experiência boa. Você clicou no link e o servidor deu pau? Experiência ruim.

Experiência é algo que vai além da guerra perpétua “é-lindo” x “funciona”: experiência vai desde o site até a embalagem, do preço camarada até aquele telefonema simpaticí­ssimo perguntando se você está feliz com a compra. Experiência engloba cada vez mais coisas.

OK, você é um especialista, e só te cabe fazer uma dessas coisas. O que vão fazer depois disso não te compete, certo? Nesta revista, por exemplo, meu papel é mandar um artigo decente no tamanho adequado no prazo correto, e ponto. Há outros colaboradores cuja função é ilustrar os artigos, enquanto um outro zela pela diagramação.

Se você é um especialista, por que se preocupar com a tal da experiência do usuário?

Simples: num projeto complexo ou você é parte da solução ou é parte do problema. Ponto.

A tal da experiência final só vai ser consistente e redonda se cada um dos colaboradores… colaborar. Não cumpriu o prazo? Não leu o briefing? Mandou fora da especificação? Sorry, mas mesmo que você seja o rei da cocada preta, que você tenha diplomas e prêmios, que você seja lin-do… você é parte do problema, e se não se corrigir a solução pode incluir… excluir você.

Fui direto demais? Fui pouco romântico? Então tá. Falemos de arte, então. Van Gogh, que tal?

Todos nós gostamos de Van Gogh. Atormentado, inspirado, impulsivo. Well, era o que eu pensava até ontem: numa matéria da Lúcia Guimarães descobri que o Van Gogh era, antes de mais nada, um desenhista extraordinário. Lindos, os desenhos. Ele desenhava em detalhe, inclusive, os quadros que planejava pintar. Planejava meticulosamente.

Por essa você não esperava, não? Você não imaginava que esse artista genial planejasse e concebesse de antemão, rascunhasse, refizesse.

Pois é, fomos enganados. Alguém nos convenceu que genialidade é improviso, é inspiração, nasce por arroubos criativos, que rigor e método é coisa pra quem não tem talento. Balela: Picasso dominava as técnicas clássicas, Beethoven rabiscava as partituras, os acrobatas do Cirque de Soleil se esfalfam o dia inteiro para poder dar uma pirueta graciosa.

Anos atrás me pediram para não cobrar de criativos que cumprissem prazos, que respeitassem cronogramas, que lessem todos os emails. Criação é jardim-de-infância?, eu retruquei. Se eu fosse um de seus criativos, ia me sentir tratado como um bocó.

(Jardim-de-infância, aliás, é um dos primeiros casos notórios de experience design: dê uma olhada no sempre excelente Boxes and Arrows (http://www.boxesandarrows.com )).

Voltando aos acrobatas: circo só é mágico porque não há mágica, há suor e compromisso.

E não me venha com truques. 😉

Dicas de dança por um peso-pesado

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Você vai ficando mais velho e o que era elogio passa a te deixar com
um pé atrás. Por exemplo: ser um profissional “sênior” indica uma
trajetória profissional longa e rica ou quer dizer que… por decurso
de prazo você já virou um “ex-jovem”?

E ser um “peso-pesado”? Significa que você precisa retomar a dieta
a-go-ra ou que a sua atuação é poderosa e faz diferença no jogo de
forças?

Pelo sim, pelo não, essa semana eu me inscrevo numa academia. 🙂

Se você não for tão sênior assim talvez nunca tenha ouvido falar de um
peso-pesado magní­fico, o Cassius Clay. Já? Não? Mohammed Ali, então?
Também não? Céus… quem mandou eu ter 40 anos, enfim?

Vamos lá: Mohammed Ali e Cassius Clay são o mesmo pugilista, e o nome árabe foi adotado quando ele se converteu ao islamismo como o Cat Stevens (o que, na pré-história da minha juventude, era um gesto anti-guerra e pacifista, pasmem).

Eu ia sugerir que você pesquisasse a respeito por conta própria, mas me esqueci que a tua referência de peso-pesado deve ser algo furioso e bestial como Mike Tyson, cuja colaboração artí­stica para a humanidade foi arrancar com os dentes uma orelha alheia, e isso não deve te animar muito.

Esqueça o Tyson. Cassius Clay era elegantí­ssimo no ringue, um dançarino. Mais: fora dos ringues era um ativista polí­tico, um negro consciente, um í­dolo pop e, pasme, um belo frasista.

É dele a frase que me inspirou esse artigo: “fly like a butterfly, but sting like a bee”, voe como uma borboleta, mas ferroe como uma abelha. Lindo, não? Exceto, claro, para quem, confuso de ver aquele gigante dançando em torno de si, recebia o murro certeiro e beijava a lona.

E o que tem a ver o conselho de um boxeur com nosso ofí­cio de zeros e uns? Simples: muitos dos grandes tapas-na-cara digitais hoje, muitas das porradas nocauteadoras no digimundo são… simples. Não? Pense nas páginas de busca. Pense nos messengers. Pense nos blogs. Voam como borboletas, não? Você os acessa de todo lugar, em qualquer máquina, em palms, em celulares… Não importa onde, eles pousam com graça e leveza sempre. A hora que você os aciona, porém, são rápidos e certeiros. Como uma abelha.

Viram só? Ou vocês pensavam que abelhinhas e flores só servem pra (não) falar de sexo? Agora pense naqueles sites super instigante-original-multimí­dia que você viu uma vez só, achou lin-do, mas nunca mais usou porque ele não te agregava em nada. Well, de cara me lembro de uns 3.

Eu creio, porém, que o Cassius Clay não tenha jamais sido picado por uma abelha. Você já foi? OK, dói, mas como se não bastasse a picada, a abelha continua se batendo contra você insanamente, batendo, batendo, até morrer. Muito estranho (e contra as regras do pugilismo, imagino).

Sabe por que ela faz isso? Antes de morrer, ela vai te marcando com um odor que avisa às outras abelhas que você é um inimigo. As outras abelhas sentem o cheiro que ela deixou em você e te picam também. Aí­ que mora o perigo: uma picada leva a muuuuuitas outras.

Tem outra grande lição aí­: abelhas não só ferroam forte, mas também colaboram entre si, trocam informações, e assim derrotam qualquer inimigo. E as coisas mais bacanas que temos hoje no digimundo funcionam da mesma maneira: as “borboletas” digitais não só voam com elegância mas também se comunicam entre si. Teu messenger te avisa do email que chegou e das últimas notí­cias, teu webmail te avisa por SMS de uma mensagem urgente, você escolhe quais fontes de notí­cia tua home vai “escutar” por RSS, você compartilha teus favoritos usando metatags, você compra produtos baseado nos reviews de outros consumidores…

É assim que os pesos-pesados do digimundo estão lutando hoje, num estilo que mistura leveza, rapidez e integração. Preste atenção, compare os campeões, estude seus movimentos.

E torça fervorosamente, como eu, pelos milhões de usuários que estão ganhando asas.