a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Precisa-se: deVigners

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Quanto tempo faz isso? Uns dez anos, será?

Well, tanto faz, lembro como se fosse… dez anos atrás: o PJ (então na DM9, eu ainda na Almap) se apresentando num evento com sua palestra originalíssima chamada “Internet Sem Chatice”. Ou era “Internet não tem que ser chata”. Ou era… well, faz dez anos afinal. Mas tinha chatice no meio, isso tinha.

O que tinha de chato na internet naquela época, afinal? Nem lembro. Mas me lembro sim de, naqueles primórdios, chamar amigos e colegas e familiares pra mostrar a tal da internet e todos dizerem: isso é muito chato, demora muito!

Eu demorei dez anos pra entender de que demora eles estavam falando. Não era só culpa dos modems de 14.4k (argh), era outra história. E essa história ainda continua.

A história é a seguinte: naquela época as pessoas, como hoje, estavam mal (ou bem) acostumadas em termos de experiência com interfaces. Televisão era só ligar e pronto, dezenas de canais na ponta do controle remoto. Zero demora, zero dificuldade (ok, programar VHS não conta). O próprio computador já rodava jogos em CD-ROM com uma qualidade bem bacana. O tempo foi passando e hoje qualquer badulaque, dos games portáteis aos celulares mais genéricos passando por caixas eletrônicos são experiências ricas, rápidas e visualmente atraentes.

Naquela época em que tudo já ligava e saía falando, internet era um choque. Se o computador podia fazer tanta coisa, por que raios ele sofria tanto pra mostrar uma pagineta miserável? E aí começava o estranhamento e muita gente se desencantava.

Eu trabalhava em agência, e lembro que todo publicitário queria poder colocar um filme de 30s com qualidade bacana… na internet. Até eu explicar que compressão isso, usabilidade aquilo, o cara já tinha ido embora com seu filme debaixo do braço. Muitos criativos desencavam.

Dez anos se passaram e a gente já aprendeu que internet é outra história, que é um canal diferente, que podemos explorar N outros recursos, que é viral, etc etc etc. Mas… quem disse que tem queainda tem que ser chato?

Ok, você não acha chato. Nem eu. Você deve usar agregadores de RSS sem charme algum e um webmail praticamente text-based e eu adoro oferece um internet banking poderoso cheio de recursos avançados. Somos meio-franciscanos, meio-espartanos. Mas você e eu não somos parâmetro pra nada, somos 5% do mercado interativo e olha lá. E os outros 95%, será que eles não estão achando algumas coisas… chatas?

Internet banking é um exemplo interessante: não sei os números ao certo, mas acho que só uns 10-20% de todos os correntistas usam internet banking. Muita gente prefere os caixas automáticos ou mesmo ir ao banco. Por que será?

Na próxima vez que você for a um caixa automático preste atenção nos outros usuários (não muito, senão vão chamar a polícia). Como é a interface? Tem dezenas de links em texto miúdo empilhadinhos e drop-down menus compridos? Nãããão: tem uma interface gráfica com botões grandes, opções claras e todo um cuidado em orientar cada passo. Resultado: mesmo que, pela lei de Murphy, o cara na tua frente seja uma tartaruga, ele ainda consegue usar a interface. Agora imagine o tal tartaruga na frente… do internet banking de verdade. Ele sairia correndo… até achar um bom caixa automático.

Onde estou querendo chegar? Well, já cheguei, já chegamos todos: chegamos num ponto onde designers têm de novo mais espaço e ferramentas e recursos para criar interfaces mais legais. A tecnologia avançou, qualquer máquina à venda em 12 vezes no supermercado já é um maquinão e a conectividade melhorou muito. A classe C está comprando laptops sem parar. Está mais do que na hora dos designers darem as mãos aos developers e cumprirem sua missão: tornar o mundo menos chato. Está na hora de developers aprenderem a pensar em design e designers pensarem no que a tecnologia permite. Está na hora de developers e designers aprenderem a ser… deVigners.

Aqui e ali a gente já percebe a diferença brutal que deVigners fazem: qual mp3 player você pediria de natal? Qual console de game? Qual celular? Qual laptop? Aposto que você pensou imediatamente em produtos bem desenhados, com tecnologia impecável e com experiências legais e envolventes. Isso só acontece quando developers e designers trabalham juntos, quando há uma mentalidade deVigner em jogo.

Folks, lembremos do imortal Joãozinho Trinta: quem gosta de miséria é intelectual. Lembremos do Renezinho Quarenta-e-Três: a gente gosta mesmo é de luxo.

E se você for um deVigner, me procure ;^)

What the #FFFFFF???

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Seja você pardo, negro, amarelo, albino, uma coisa é igual a todo mundo: o seu branco é maior que o dos outros. Beeeem maior. É o que você acha, pelo menos. Todos achamos.
O meu branco, nesse exato momento, são uns 4000 caracteres numa página em branco do Word. O seu pode medir 468 pixels por 60. O do artilheiro pode ser uma esfera na grama diante do olhar de duas nações no final da copa do mundo. O do Heródoto Barbeiro (estou ouvindo agora), âncora da CBN, é um minuto livre sozinho diante de um microfone pequenino.
Cada um tem o branco que merece. E cada um sabe onde lhe dói o branco.
Tive a felicidade de assistir outro dia a uma palestra da turma do Colletivo (www.colletivo.com.br). Genial o trabalho dos caras, genial. São tão geniais que a cada hora encaram um branco diferente: uma lata de Pepsi, uma vinheta da ESPN americana, uma fachada de loja, uma parede gigante dentro de uma agência bacana. Um branco maior que o outro.
Mais genial do que tudo isso não é o que colocaram nos brancos, mas como. E de onde. Por isso foi bom ouvi-los, porque se eu visse os trabalhos em si eu não poderia adivinhar como foram feitos nem de onde veio a inspiração. Eu os ouvi e gostei do que ouvi: “como” fazer aquilo não é questão de ferramenta, mas sim de conceito, de discussão, de criação, de idéia. Ferramenta vem depois. O “de onde” vem de todo lugar: ouvir coisas novas, ver coisas antigas, descobrir o insuspeitado, explorar e experimentar e aumentar de maneira sistemática o repertório visual, sensorial, afetivo, intelectual.
Ou vocês achavam que gênios tiram coisas do nada? Tiram, mas o nada deles é bem maior que o nosso.
Procure pelos primeiríssimos desenhos escolares do Picasso. São estudos clássicos, altamente técnicos, realistas no último, coisa de Michelangelo. Ele precisou aprender o clássico para um dia poder desenhar uma pombinha num rabisco só. O nada do cara era toda a arte do Ocidente, África e Japão.
Anos atrás (doze?) um amigo entregou os pontos: não conseguia criar um layout decente praquele cliente X (digamos Brasetal, palavra que espero não existir). O cara pediu arrego, já era a enésima refação e o cliente rejeitava tudo.
– Não consigo, desisto.
– Você é um designer… você não consegue criar coisas do nada?
– Meu nada não inclui a Brasetal.
Isso aconteceu, juro. Eu estava lá. Quase morri de rir, e até hoje me lembro da cena.
Qual o tamanho do seu nada?
Quantos livros você já leu? Quantas exposições você vai ver esse mês? Qual foi a última vez que você foi para um lugar pela primeira vez? Quantos amores você teve? Quantos bairros da cidade você conhece? Quantos canais diferentes você assiste?
Durante anos eu pratiquei brancos diariamente. Toda manhã um branco novo. Escolhia uma foto minha e reservava dez minutos para escrever algo do nada. Todo santo dia, por anos e anos, eu explorei meu próprio nada, jogando pedrinhas no meu vazio para ver quão fundo ele era, jogando pedrinhas pra registrar o eco em algumas palavras.
Outro dia resolvi juntar esses anos e anos de exercício disciplinado numa única página. Se quiser passear pelos meus nadas fique à vontade, estão todos num branco só de 640×480 em www.usina.com/solo. Sim, coube tudo lá. Usei uma tecnologia de branco infinito e profundo (e não, não é alvejante nem sabão não)
Ok, você vai provavelmente achar que já é aberto e atento e aventureiro o suficiente, que sua vida também é uma zona, mas eu te garanto: quando a gente pensa assim é porque está numa outra zona, numa zona… de conforto.
Zona de conforto inclui usar sempre a mesma ferramenta, falar sempre com as mesmas pessoas, acompanhar sempre os mesmos twitters, ir sempre aos mesmos lugares, só sair com gente igual a você. Zona de conforto é viver dentro de um útero gostoso de certezas, é resistir diante de mudanças como se fossem um parto.
Depois você não consegue parir nada e não sabe por quê.
Saudade do Chico de Assis. Por onde anda o velho mestre? Ele dizia sempre: caminhos conhecidos levam aos mesmos lugares. Grande Chico, mestre supremo em tirar qualquer um da sua zona de conforto. A ele minha perpétua e crescente gratidão.
E lá se foram meus 4000 caracteres. De nada 😉

Paixão, Amor e Seus Frutos

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Palavras são palavras e a gente nem percebe o que disse sem querer – como bem disse Roberto Carlos – e palavra que o título aí em cima saiu sem eu perceber, me saltou dos lábios (ops, dedos) e pousou assim com o maior descaramento em cima da folha branca (ok, tela branca) e ficou me olhando maroto, pagando pra ver como eu ia sair dessa.
Pois é. Comecei pelo título, erro fatal. E olha que no artigo anterior eu mesmo tinha dito: comecem pelo fim, pelo fim! O título… deixem pro fim.
Pois é. Não segui meu próprio conselho, mas acho que essas coisas do coração são sempre assim, a gente mete os pés pelas mãos e dane-se o bom-senso. Let’s get lost, como bem disse Chet Baker. Let them sound all alarms.
Bom, melhor eu mesmo soar o alarme, segurar um pouco a onda e voltar ao que interessa, afinal não pega bem hoje em dia falar de amor sem ser cantor nem poeta. Não tenho o alvará. Houve tempo em que falar de amor era lindo e sacanagem era tabu; hoje sacanagem é assunto de salão e amar virou perversão estranha. Sign of the times, como bem disse Prince.
Estava ouvindo agorinha mesmo um podcast que eu curto, o TWIT (This Week In Tech, procura aí), e os caras falaram uma coisa interessante: ser nerd não é questão de ser tecnólogo ou CDF. Ser nerd é ser apaixonado pelo que faz sem medo do ridículo. Isso inclui usar orelhas do Spock, se fantasiar de mangá, usar camisetas esquisitas e pintar o cabelo de verde. Ser nerd é ser apaixonado por algo e não estar nem aí pra opinião da galera. Você pode ser um fashion nerd, um art nerd, um design nerd, um nerd fissurado em palavras cruzadas. É tudo uma questão de paixão.
É meio nova essa história de poder viver sua paixão. Pergunte pra tua avó se dava para mergulhar de cabeça em alguma paixão na juventude dela. Aposto que não. Mas hoje dá, pelo menos nas cidades mais legais dos países menos malas. E acho que justamente essa paixão pela paixão que move muito do que fazemos hoje: blogar, publicar, fazer vídeos, criar comunidades, fazer amigos, acampar no campus party… é uma embriaguez sem riscos, uma êxtase que nem precisa de ecstasy.
Outro dia almocei com uma amiga e colega apaixonadíssima pelo que faz. Ela é uma pesquisadora brasileira de User Experience na Microsoft e morou anos e anos lá em Seattle, participando de uma série de projetos… apaixonantes. Foi uma delícia ouvir suas histórias, e a cada peripécia que ela contava ia ficando mais claro que… paixão só não basta. Para que as coisas dêem frutos, para que a paixão “vingue” e fecunde e dê frutos é preciso algo mais. É preciso amor.
Ok, eu disse a palavra com quatro letras. Não se assuste. Amor, por mais contagiante que seja, não é doença nem vírus. Amor, nessa minha historinha aqui, significa aquilo que constrói relações e faz com que elas vicejem.

Eu explico: se ela fosse apaixonada pelo que faz ela cumpriria sua tarefa com o maior prazer. Tentaria entender o que os usuários querem, como eles pensam e funcionam, faria hipóteses, testes, prepararia um relatório com mil sugestões e… partiria pra próxima. Seria o máximo, mas esse não é nem o mínimo do que ela faz no trabalho.
Para garantir que tudo o que ela descobriu e sugeriu vire realidade, seja incorporado no produto, inove a experiência do usuário e mude o mundo, ela tem que fazer muito mais do que pensar no seu próprio prazer. Ela tem que descobrir como funciona o processo todo, quem são os envolvidos, como cada um dos envolvidos pensa, que tipo de argumento ela tem que apresentar para um departamento e outro, e em cima desse mapa todo de interesses e desejos e interesses e políticas ela vai construir relações, compromissos, vai negociar, encantar, convencer e gerenciar mil agendas e egos para que eles convirjam na direção correta, a direção que vai garantir que a paixão que ela teve lá no começo chegue intacta ao final do processo e o usuário tenha enfim uma experiência apaixonante.
Não basta paixão pra isso. É preciso amor pelo resultado, pela experiência do usuário, amor por ver gente dando o melhor de si num processo fecundo e rico. Paixão tem pernas curtas, amor abraça o mundo.
É fácil ser apaixonado hoje. É tão fácil que dá pra sonhar com viver disso, da própria paixão. Amor, por sua vez, continua tão complexo quanto sempre. Dá um trabalho danado. Mas, como bem disse Renato Russo, ainda que eu falasse a língua dos homens, ainda que eu falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

Cativar e Cativeiros

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Se me apresentarem uma top model nesse exato momento eu vou ficar sem palavras. Calma, calma, não é que eu não saiba o que dizer diante de uma mulher bonita, até sei (venho praticando faz décadas). O problema é que eu sou de outra época, do tempo das misses, e todas as misses tinham algo em comum: liam O Pequeno Príncipe, do Saint Exupéry.
Palavra! Era uma unanimidade!
“Qual seu livro predileto?”
“O Pequeno Príncipe”, dizia a Pequena Princesa com um Grande Sorriso, Pequeno Biquini e Grandes… Atributos.
De duas uma: ou ler aquele livrinho transformava garotinhas em mulheres monumentais ou… aqueles monumentos ainda eram mentalmente garotinhas (o que não parecia incomodar quase ninguém).
Uma coisa, porém, havia de incomodar rapazes galantes mais cedo ou mais tarde: a letal e inelutável frase “tu te tornas eternamente responsável por quem cativas”. Argh. Argh argh. Maldito príncipe.
O principezinho loiro, entretanto, tinha lá sua razão. Crie um projeto “web 2.0”pra você ver.
Eu conto a historinha: o site do seu cliente era um planeta isolado e frio perdido nos confins da internet brasileira. Aí você, lindo e loiro e com uma casaca azul-cobalto, propõe a ele: plante no seu planetinha uma semente do baobá da web 2.0. A semente vai vingar rápido e crescer crescer crescer…
Well, melhor que pé-de-feijão mágico, esse baobá. E, para sua alegria, o baobá 2.0 cresce que é uma beleza. Cresce tanto que… well, você lembra no que dá, confesse!!! O baobá fica descomunal e quase engole o planetinha.
Opa, me empolguei, não era essa a historinha não, era a de cativar e tal. Mas tudo bem, a do baobá também ajuda.
Falemos de cativar: antenadíssimo com todo o papo de web 2.0 você cria um espaço social colaborativo etc etc etc. Como você é um cara talentoso e tal, o espaço social “bomba”: um monte de gente se envolve, participa, publica, convida amigos e tal. Vamos bem! Mas… vamos para onde?
Pois é: você cativou pessoas. Agora, quer você queira (o que eu duvido) quer não (o que eu aposto), você é responsável por elas. Melhor dizendo: elas acham que você é responsável e isso basta. Basta para um desastre iminente.
Exagerado, eu? Deixe rolar, então, e espere para ver que gracinhas de feedbacks você vai ter no dia em que o baobá 2.0 ficar maior do que teu tempo, tua grana ou tua capacidade de lidar com, literalmente, tantos galhos. Eu posso dizer por experiência própria: a hora que teu espaço social começar a derrapar e você não conseguir desacelerar nem segurar o volante, você vai perceber (tarde demais) que valeria a pena ter investido em air bags, suspensão, bons pneus e, sobretudo, seguro. Mas agora é tarde. Você vai ter que gastar com gerenciamento de crises, PR e, provavelmente, terapia.
Analogias e parábolas à parte, a questão é: qual teu plano a médio e longo prazo para tua aposta em mídia social? Lembre-se que pessoas vão investir seu tempo e afeto, lembre-se que vão se apegar ao serviço, leve em conta (e isso é absolutamente crítico) que as pessoas vão projetar seus anseios, fantasias e desejos sobre você. Lembre-se que esse voto de confiança é incondicional e muitas vezes cego, e que em muito pouco tempo ninguém mais vai se lembrar de como era a vida antes, como era a vida sem o teu serviço, e logo logo vai parecer que aquilo que para você representa um custo danado de manutenção é tão natural e gratuito quanto o sol nascer e se por.
Usuários não querem saber se teus servidores não deram conta, se teu modelo de receita era capenga ou se tua aplicação não escala. Eles não querem saber se a única maneira de manter o serviço é mudar o serviço. Você os cativou, e este é teu cativeiro.
Há saída para isso? Well, lembrando de personagens, dá para ser um pouco menos “Don Juan”, o rei da conquista, e ser mais maduro e pensar no “futuro da relação”. Eu te garanto que uma postura dessas há de fazer o maior sucesso com mulheres de verdade. E com clientes também.
E, afinal… Who misses the Misses?