a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Paixão, Amor e Seus Frutos

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Palavras são palavras e a gente nem percebe o que disse sem querer – como bem disse Roberto Carlos – e palavra que o título aí em cima saiu sem eu perceber, me saltou dos lábios (ops, dedos) e pousou assim com o maior descaramento em cima da folha branca (ok, tela branca) e ficou me olhando maroto, pagando pra ver como eu ia sair dessa.
Pois é. Comecei pelo título, erro fatal. E olha que no artigo anterior eu mesmo tinha dito: comecem pelo fim, pelo fim! O título… deixem pro fim.
Pois é. Não segui meu próprio conselho, mas acho que essas coisas do coração são sempre assim, a gente mete os pés pelas mãos e dane-se o bom-senso. Let’s get lost, como bem disse Chet Baker. Let them sound all alarms.
Bom, melhor eu mesmo soar o alarme, segurar um pouco a onda e voltar ao que interessa, afinal não pega bem hoje em dia falar de amor sem ser cantor nem poeta. Não tenho o alvará. Houve tempo em que falar de amor era lindo e sacanagem era tabu; hoje sacanagem é assunto de salão e amar virou perversão estranha. Sign of the times, como bem disse Prince.
Estava ouvindo agorinha mesmo um podcast que eu curto, o TWIT (This Week In Tech, procura aí), e os caras falaram uma coisa interessante: ser nerd não é questão de ser tecnólogo ou CDF. Ser nerd é ser apaixonado pelo que faz sem medo do ridículo. Isso inclui usar orelhas do Spock, se fantasiar de mangá, usar camisetas esquisitas e pintar o cabelo de verde. Ser nerd é ser apaixonado por algo e não estar nem aí pra opinião da galera. Você pode ser um fashion nerd, um art nerd, um design nerd, um nerd fissurado em palavras cruzadas. É tudo uma questão de paixão.
É meio nova essa história de poder viver sua paixão. Pergunte pra tua avó se dava para mergulhar de cabeça em alguma paixão na juventude dela. Aposto que não. Mas hoje dá, pelo menos nas cidades mais legais dos países menos malas. E acho que justamente essa paixão pela paixão que move muito do que fazemos hoje: blogar, publicar, fazer vídeos, criar comunidades, fazer amigos, acampar no campus party… é uma embriaguez sem riscos, uma êxtase que nem precisa de ecstasy.
Outro dia almocei com uma amiga e colega apaixonadíssima pelo que faz. Ela é uma pesquisadora brasileira de User Experience na Microsoft e morou anos e anos lá em Seattle, participando de uma série de projetos… apaixonantes. Foi uma delícia ouvir suas histórias, e a cada peripécia que ela contava ia ficando mais claro que… paixão só não basta. Para que as coisas dêem frutos, para que a paixão “vingue” e fecunde e dê frutos é preciso algo mais. É preciso amor.
Ok, eu disse a palavra com quatro letras. Não se assuste. Amor, por mais contagiante que seja, não é doença nem vírus. Amor, nessa minha historinha aqui, significa aquilo que constrói relações e faz com que elas vicejem.

Eu explico: se ela fosse apaixonada pelo que faz ela cumpriria sua tarefa com o maior prazer. Tentaria entender o que os usuários querem, como eles pensam e funcionam, faria hipóteses, testes, prepararia um relatório com mil sugestões e… partiria pra próxima. Seria o máximo, mas esse não é nem o mínimo do que ela faz no trabalho.
Para garantir que tudo o que ela descobriu e sugeriu vire realidade, seja incorporado no produto, inove a experiência do usuário e mude o mundo, ela tem que fazer muito mais do que pensar no seu próprio prazer. Ela tem que descobrir como funciona o processo todo, quem são os envolvidos, como cada um dos envolvidos pensa, que tipo de argumento ela tem que apresentar para um departamento e outro, e em cima desse mapa todo de interesses e desejos e interesses e políticas ela vai construir relações, compromissos, vai negociar, encantar, convencer e gerenciar mil agendas e egos para que eles convirjam na direção correta, a direção que vai garantir que a paixão que ela teve lá no começo chegue intacta ao final do processo e o usuário tenha enfim uma experiência apaixonante.
Não basta paixão pra isso. É preciso amor pelo resultado, pela experiência do usuário, amor por ver gente dando o melhor de si num processo fecundo e rico. Paixão tem pernas curtas, amor abraça o mundo.
É fácil ser apaixonado hoje. É tão fácil que dá pra sonhar com viver disso, da própria paixão. Amor, por sua vez, continua tão complexo quanto sempre. Dá um trabalho danado. Mas, como bem disse Renato Russo, ainda que eu falasse a língua dos homens, ainda que eu falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

Um Minuto da Sua Atenção

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Um professor muito saudoso lá da ECA dizia pra gente: quando você for pensar numa história pense primeiro no fim. Dica sábia que não vou esquecer nunca, muito embora eu não a aplique quase nunca e continue escrevendo de orelhada artigos sem pé nem cabeça.
Desta vez decidi fazer diferente e pensar primeiro no fim. Well, não preciso dizer que durou pouco: mil digressões e delírios e acabei pensando… no meu próprio fim, tema não muito pertinente numa revista de webdesign. Se bem que design vem de desígnio e desígnio pressupõe finalidade que pressupõe um fim e… pronto, lá vou eu de novo em viagens sem fim.
Pelo fim, pelo não talvez valha a pena facilitar a vida dos CSI futuros e dar algumas pistas da minha causa mortis caso ela não seja óbvia. Primeira dica: confira a câmera. É capaz que eu tenha tentado de novo fotografar uma frase de pára-choques de caminhão, não tenha parado nada e… me choquei. Segunda dica: confira meu Zune. É possível que eu, numa atenção irrefreável a um podcast genial, não tenha ouvido a freada fatal. De uma maneira ou de outra seriam finais felizes, enfim.
Agora mesmo vinha ouvindo um podcast do Think, um programa de uma rádio texana chamada KERA. Eles estavam pedindo doações dos ouvintes, que é a maneira como muitas rádios públicas absolutametne geniais (National Public Radio – NPR, American Public Media – APM) sobrevivem. Para o meu deleite eles estavam fazendo um pot-pourri de entrevistas antológicas começando pelo Gene Wilder, ator genial e comediante impagável.
Entrevista muito tocante, daquelas pra não ouvir tocarem buzinas nem xingarem esse pedestre incauto. Num dado momento Gene Wilder conta que, aos 11 anos, viu pela primeira vez sua irmã atuar num palco. Gene se encantou: enquanto sua irmã atuou não se ouviu um pio, um ruído, nada. Atenção absoluta. Um milagre. Gene ficou tão arrebatado que foi pedir ao professor de teatro da irmã que o aceitasse como aluno. Atuar era algo divino. Ele tinha onze anos. Teve que esperar até os treze. O resto é história.
Parei (não no meio da rua, por sorte) e pensei: eureka. Divino não é atuar, o milagre do teatro não está no ator. A magia não está no palco. Mágico mesmo é que pessoas parem, deixem de lado o resto do mundo e concedam àquele acontecimento breve uma atenção sem fim e, mais do que isso, que concedam ao ator a sua confiança e credulidade totais.
Sem essa doação, sem essa entrega completa da platéia nenhum ator é Rei Lear. Sem essa concessão temporária, sem essa suspensão breve das regras cotidianas não há “Vestido de Noiva”. A mágica só acontece porque nós somos capazes de parar o mundo e ouvir.
Nosso trabalho não é diferente. Um site de banco só é um site de banco se cada um de nós acreditar nele da mesma maneira que acreditamos no banco. Ler blog só presta para alguma coisa se acreditarmos que o autor… presta. Um podcast, um site, um vídeo só têm um mínimo de realidade se as pessoas pararem o que estão fazendo, silenciarem o seu mundo e prestarem atenção em você. Senão, meu caro, são apenas palavras, palavras, palavras. Ou bytes, bytes, bytes.
Em outro momento da entrevista a apresentadora pergunta ao Wilder: por quê você é engraçado? Ele, com uma franqueza desconcertante conta uma história de infância, uma história pungente, mas logo depois admite: não sabe. Ele é engraçado porque as pessoas acham graça nele.
Se pensarmos por que razão as pessoas acham tanta graça num serviço online e não em outro vamos certamente arriscar inúmeras razões técnicas, negociais, artísticas, mas razões talvez não expliquem a emoção que está investida ali, o valor que aquele serviço representa para cada um, o tempo que cada pessoa reservou para aquele produto e não outro. A razão está fora da nossa cabeça, está no coração alheio.
Faz tempo que eu bato nessa tecla: estudemos sim, aprendamos sim, mas tenhamos sempre a humildade e a gratidão de reconhecer que sem a audiência, sem o carinho, sem o investimento afetivo, sem a doação da mercadoria mais rara –a atenção dos nossos usuários – tudo o que fazemos não tem vida alguma. E fim.

Nem Mais Nem Menos

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Eu gosto de histórias em quadrinhos. Gosto mesmo. Daqui da poltrona vejo na cabeceira alguns livros do Laerte (adoro Laerte), uma biografia do Kafka desenhada pelo Crumb, vejo um Sandman… Eu gosto de quadrinhos.
Quadrinhos, quando eu era criança, deixavam adultos de cabelo em pé.
— É perda de tempo!
— Emburrece!
— Vai ler livro de verdade, menino!
Eu lia livros de verdade, oras. Continuo lendo. Livrarias são minha perdição deliciosa, e não faz nem três dias que eu estava com quilos de livros nas mãos diante de um leitor de código de barras vendo o preço de cada um. Um Umberto Eco, dois Cortazar no original, uma Hannah Arendt, uma coletânea de cartoons da New Yorker… Aquela montanha de letrinhas foi sendo traduzida numa bola de neve de números e, por fim, deixei os livros lá com dor no coração. Nem passei pela seção de quadrinhos pra não sofrer mais. Estava no meio de uma viagem, afinal, com grana contada e mala cheia. Fica pra outra hora.
Os quadrinhos e livros me vieram à cabeça por um bom par de razões. Primeiro por serem mídia impressa, por serem “antiquados”. Segundo por terem peso, ocuparem espaço. Terceiro por terem preço, por custarem dinheiro. Quarto por terem um autor, alguém que tenta ganhar seu pão criando conteúdo. Quinto por serem experiências ricas e imersivas e transformadoras, mesmo sendo low-tech, e aí está para mim o ponto principal: num mundo em que more is more, em que limites parecem ter desaparecido, a máxima (ou seria mínima?) “less is more” ainda continua sendo o máximo. Pra dizer o mínimo : )
Sem fazer pouco do “less is more”, porém, eu quero mais. Embora muita coisa no mundo se resuma a somar ou subtrair, aquilo que realmente conta é multiplicar. Criar é multiplicar. Inventar é multiplicar. Compartilhar, mesmo que pareça dividir, é multiplicar. Coisas realmente vivas e vitais dão vida, são fecundas, lançam sementes pra todo lado. E sementes são uma invenção extraordinária, uma bolotinha de nada que tem dentro de si girassóis, carvalhos gigantes, pés de maçã, árvores fantásticas que vão crescer pelo tempo afora zipadinhas e codificadas numa pelotinha dorminhoca.
Você já parou pra pensar que uma semente é código? Que DNA é código? Que você é do jeito que é porque isso foi codificado láááá atrás por um óvulo e um espermatozóide? Dá o que pensar, não? Noventa e tanto dos átomos do teu corpo vão ser trocados em alguns anos. Ninguém vai perceber, porque o teu código não mudou. Se mudar, corra pro médico aliás.
Well, voltemos pra história dos livros. Daqueles fatores que mencionei quatro deles parecem pecado: são físicos, ocupam espaço, não são grátis e, pra complicar, tem alguém cobrando por eles. Por quê isso virou pecado hoje eu não sei, não consigo entender, sobretudo porque pecado, para mim, não tem nada a ver com preço, peso, ou outros valores numéricos. Pecado pra mim é não dar valor àquilo que matemática alguma leva em conta: o valor da experiência fecunda. E experiências fecundas não se criam somando um montão de vídeos e animações e efeitos e firulas. Experiência fecunda não é estufar a pança com junk food, é buscar o que te alimenta e o que te enriquece os sentidos.
Se eu procurar alguém para contratar eu não quero alguém que tenha visto todos os vídeos do Youtube ou leia todos os blogs pessoais ou tenha jogado finalizado os games x, y, z. Isso é achar que acumular e somar e amontoar dão algum resultado. Well, dão sim: obesidade mental mórbida. Pior: estar a par de tudo não te garante idéias ímpares. Pelo contrário: você dificilmente vai escapar da maldição do “mais do mesmo” (obrigado, mestre Laerte).
Livros e quadrinhos, essas coisas antiquadas, têm uma feature avançadíssima que a tecnologia demorou pra imitar: pausa. Livro você pausa, pensa, relê. Para ler um bom livro você aperta PAUSE na tua correria e cria um tempo especial para uma experiência que vai reprogramar o código da tua mente. Um bom poema é mágico para sempre, sem envelhecer jamais.
Um adendo: Neil Gailman, o criador genial do Sandman, escreve as histórias à mão. Computador, segundo ele, facilita demais a dispersão. Uma procuradinha na internet, um clique à toa e lá se vão horas embora sem proveito algum.
Se você não souber reprogramar tua mente ela vai fazer o mesmo que o teu código genético: vai reproduzir mais do mesmo até morrer. E quem só faz mais do mesmo morre sem deixar nada fecundo.
Que bom que você está lendo esta revista. Bom sinal.

Nem Mais Nem Menos

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Eu gosto de histórias em quadrinhos. Gosto mesmo. Daqui da poltrona vejo na cabeceira alguns livros do Laerte (adoro Laerte), uma biografia do Kafka desenhada pelo Crumb, vejo um Sandman… Eu gosto de quadrinhos.
Quadrinhos, quando eu era criança, deixavam adultos de cabelo em pé.
— É perda de tempo!
— Emburrece!
— Vai ler livro de verdade, menino!
Eu lia livros de verdade, oras. Continuo lendo. Livrarias são minha perdição deliciosa, e não faz nem três dias que eu estava com quilos de livros nas mãos diante de um leitor de código de barras vendo o preço de cada um. Um Umberto Eco, dois Cortazar no original, uma Hannah Arendt, uma coletânea de cartoons da New Yorker… Aquela montanha de letrinhas foi sendo traduzida numa bola de neve de números e, por fim, deixei os livros lá com dor no coração. Nem passei pela seção de quadrinhos pra não sofrer mais. Estava no meio de uma viagem, afinal, com grana contada e mala cheia. Fica pra outra hora.
Os quadrinhos e livros me vieram à cabeça por um bom par de razões. Primeiro por serem mídia impressa, por serem “antiquados”. Segundo por terem peso, ocuparem espaço. Terceiro por terem preço, por custarem dinheiro. Quarto por terem um autor, alguém que tenta ganhar seu pão criando conteúdo. Quinto por serem experiências ricas e imersivas e transformadoras, mesmo sendo low-tech, e aí está para mim o ponto principal: num mundo em que more is more, em que limites parecem ter desaparecido, a máxima (ou seria mínima?) “less is more” ainda continua sendo o máximo. Pra dizer o mínimo : )
Sem fazer pouco do “less is more”, porém, eu quero mais. Embora muita coisa no mundo se resuma a somar ou subtrair, aquilo que realmente conta é multiplicar. Criar é multiplicar. Inventar é multiplicar. Compartilhar, mesmo que pareça dividir, é multiplicar. Coisas realmente vivas e vitais dão vida, são fecundas, lançam sementes pra todo lado. E sementes são uma invenção extraordinária, uma bolotinha de nada que tem dentro de si girassóis, carvalhos gigantes, pés de maçã, árvores fantásticas que vão crescer pelo tempo afora zipadinhas e codificadas numa pelotinha dorminhoca.
Você já parou pra pensar que uma semente é código? Que DNA é código? Que você é do jeito que é porque isso foi codificado láááá atrás por um óvulo e um espermatozóide? Dá o que pensar, não? Noventa e tanto dos átomos do teu corpo vão ser trocados em alguns anos. Ninguém vai perceber, porque o teu código não mudou. Se mudar, corra pro médico aliás.
Well, voltemos pra história dos livros. Daqueles fatores que mencionei quatro deles parecem pecado: são físicos, ocupam espaço, não são grátis e, pra complicar, tem alguém cobrando por eles. Por quê isso virou pecado hoje eu não sei, não consigo entender, sobretudo porque pecado, para mim, não tem nada a ver com preço, peso, ou outros valores numéricos. Pecado pra mim é não dar valor àquilo que matemática alguma leva em conta: o valor da experiência fecunda. E experiências fecundas não se criam somando um montão de vídeos e animações e efeitos e firulas. Experiência fecunda não é estufar a pança com junk food, é buscar o que te alimenta e o que te enriquece os sentidos.
Se eu procurar alguém para contratar eu não quero alguém que tenha visto todos os vídeos do Youtube ou leia todos os blogs pessoais ou tenha jogado finalizado os games x, y, z. Isso é achar que acumular e somar e amontoar dão algum resultado. Well, dão sim: obesidade mental mórbida. Pior: estar a par de tudo não te garante idéias ímpares. Pelo contrário: você dificilmente vai escapar da maldição do “mais do mesmo” (obrigado, mestre Laerte).
Livros e quadrinhos, essas coisas antiquadas, têm uma feature avançadíssima que a tecnologia demorou pra imitar: pausa. Livro você pausa, pensa, relê. Para ler um bom livro você aperta PAUSE na tua correria e cria um tempo especial para uma experiência que vai reprogramar o código da tua mente. Um bom poema é mágico para sempre, sem envelhecer jamais.
Um adendo: Neil Gailman, o criador genial do Sandman, escreve as histórias à mão. Computador, segundo ele, facilita demais a dispersão. Uma procuradinha na internet, um clique à toa e lá se vão horas embora sem proveito algum.
Se você não souber reprogramar tua mente ela vai fazer o mesmo que o teu código genético: vai reproduzir mais do mesmo até morrer. E quem só faz mais do mesmo morre sem deixar nada fecundo.
Que bom que você está lendo esta revista. Bom sinal.