a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Manifesto anti-banquinhos

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(Esse banquinho aí­ do teu lado… não, não, aquele ali. Me empresta? Coisa rápida, é só para fazer um manifesto.)

Carí­ssimos, do alto desse banquinho quarenta anos vos contemplam, e é alçado a esta altura imerecida que proclamo: abaixo os banquinhos.

(Pronto, aqui está teu banquinho. Não pretendo usá-lo de novo, obrigado)

Vocês me conhecem, eu não sou de botar a boca no trombone à toa, no máximo um manifesto aqui e uns podcasts ali, mas chega uma hora que temos que tomar posição. E é imbuí­do do senso de dever que digo: arredemos pé das nossas posições. Estamos entrincheirados demais.

Estou falando sério. Outro dia acompanhei de perto um site novo ser metralhado por todos os lados: desenvolvedores fuzilando a compatibilidade com browsers, designers estapeando a usabilidade, criativos bombardeando o coitado do logotipo. O episódio só não foi trágico porque o dono do site tinha um bom-humor e à prova de balas.

Nem adianta pensar em desarmamento. Cada lado ali (engenheiros, designers, marketeiros, etc..) demorou anos pra conseguir seu arsenal: estudaram, praticaram, se aprimoraram, se organizaram… e se engessaram.

Se ao menos o confronto fosse bonito, algo como uma bela roda de capoeira… mas nunca é: cada um fica na sua trincheira jogando farpas e insultos de lá pra cá. Enquanto isso, felizes da vida, passam ao largo os verdadeiros inovadores, os visionários, aqueles que ao invés de defender territórios desbravam novos mundos.

OK, basta de alegorias e metáforas. Já deve ter dado para entender. Eu estou cutucando os donos-da-verdade de plantão, aqueles profissionais que sobem no banquinho para… (que outra palavra eu uso? Ai ai ai…) ditar (ufa!) regras a torto e a direito.

Abaixo os banquinhos. Abaixo quem se julga acima. Abaixo as opiniões incontestáveis. Abaixo o absolutismo.

Absolutismo nunca fez sentido, e na internet faz menos ainda.

Suponhamos que você faça um site para a sua agência. A agência quer se posicionar junto ao mercado como criativa e antenada com o state-of-the-art em novas mí­dias, e para isso faz um site multimí­dia, inovador e irreverente. Pronto, o site está no ar.

Começa o tiroteio: xiitas vao chiar (xiitas chiam by default) que o site não é tableless, não é W3C-compliant e que não roda no Opera pra Linux. Alguns puristas vão achar que o site é banda-intensiva e exclui propositalmente quem tem banda estreita e máquinas antigas. Outra ala vai apontar seus canhões contra o fato de que a mudança do logo foi meramente cosmética, enquanto chovem flechas de quem diz que aquela é uma sub-utilização dos recursos novos do flash XYZ.

Nessa hora eu bato o pé duas vezes: em primeiro lugar, desçamos do banquinho. Se a agência escolheu uma linha X de comunicação com seu target e esse target por acaso não te inclui, ela deve saber o que faz. Se a agência quer ser vista dessa maneira e não de outra, idem. Não há uma solução de comunicação que seja universal, há sempre escolhas a se fazer. Se ela errou o tiro, que aprenda com as consequências.

Em segundo lugar: se a agência foi capaz de produzir aquela comunicação e não outra, isso diz muito dela, sobretudo sobre seus méritos e… limitações.

Para exemplificar melhor suponhamos outro cenário: uma agência mediana encomenda seu site a um terceiro e o resultado é algo absolutamente arrasador e genial, muito acima da cultura digital da própria agência, um site impecável, revolucionário, trendsetter. Isso não seria propaganda enganosa, mostrar uma fachada que não corresponde ao que ela é capaz de pensar e realizar?

Ou alguma ética estranha diz que um site impecável mas irreal é preferí­vel a um site “pecador” mas verossí­mil?

Pecado por pecado, meus blogs pessoais são forrados de pecadilhos técnicos. Nem poderia ser diferente, porque não sou técnico.
Meu podcast vai ao ar do jeito que eu gravo, sem edição ou cortes. Nem poderia ser diferente, porque não sou locutor nem apresentador.
Os milhares de fotos que eu publico não tem retoques além de Levels e Crop.

Eu não quero criar uma ficção de mim mesmo, e não tenho o menor pudor quanto a imperfeições.

Nossas deficiências são tão nossas quanto as nossas qualidades, e mesmo que eu tenha minhas certezas, elas são inseparáveis da minha história, da minha perspectiva, do lugar onde estou sentado. Minha opinião é absolutamente parcial. Toda opinião é.

Quer pensar outside the box e inovar? Saia da trincheira. E não é nenhum banquinho que vai te tirar do buraco 🙂

razão da sensibilidade

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Sim, você fala grego.

Duvida? Faça um teste agora mesmo: ligue para a sua mãe e diga que teu CSS, embora pareça seguir o estipulado pelo W3C, não degradadecentemente em versões antigas dos browsers baseados em Mozilla.

Tua mãe vai confirmar: você está falando grego. Só não espere que ela vá correndo se gabar disso para as amigas, porém. Ela deve se lembrar muito bem daquela vez em que te perguntou inocentemente se CD não tinha lado B e você, rindo, respondeu em grego. Ela se sentiu uma tonta.

Não, não estou dizendo que a tecnologia te tornou insensí­vel (ou, parodiando um grande amigo e frasista, que você tenha virado um engenheiro frio e calculista). Apenas estou sugerindo que talvez valha a pena aprender mais duas palavrinhas em grego: hybris e sophrosyne.

Hybris serve, basicamente, para as coisas que lhe sobem a cabeça e te embriagam: arroubos, paixão, vaidade, arrogância, poder. Tudo isso pode lhe turvar a razão e fazer de você uma criatura descontrolada e desumana.

Razão pode subir à cabeca. Sim, razão, sobretudo a racionalidade
técnica. Basta ler um livrinho ou dois daquelas coisas que arrepiam os leigos (C++, termodinâmica, legislação tributária, o que for) para que o resto da humanidade pareça quilômetros abaixo da sua altitude rarefeita.

E bota rarefeita nisso: se você se embriagou com algum conhecimento que engoliu sem mastigar, é sinal de que teu cerébro já está running in UNsafe mode. Pior: é sinal de que teu bom-senso tem uma severafalha de segurança.

Muitos filosófos gregos viam na embriaguez da hybris a raiz de um monte de males, e o remédio para isso seria algo realmente com nome de remédio: sophrosyne.

Sophrosyne se traduz por temperança, por parcimônia, se traduz por manter a cabeça no lugar sem se deixar levar por excessos. Remédio de uso diário, sem contra-indicação e que custa muito mais barato do que aquilo que “dá barato”.

Eu não sou imune a hybris. Ninguém é. Nosso OS é assim, versão beta, cheio de melhorias pendentes, mas eu, como se diz nos AA, agradeço por cada dia em que não me embriago.

Eu me embriaguei outro dia diante de umas 600 pessoas. Eu jamais
falaria grego diante de uma platéia notoriamente não-técnica, mas me deixei empolgar e pronto, lá estava eu a um passo de falar da importância da folksnomia para a construção de eixos de afinidade que sirvam como fatores aglutinadores em ambientes sociais abertos.

Quaaaaaase falei, quase, mas fui salvo por uma esplêndida cara de paisagem na platéia, a infalivel reação salutar e involuntária de quem contempla um pobre-diabo perdendo o pé (e a cabeça e o fio da meada e tudo).

Aquele olhar perdido foi o balde de água fria de que eu precisava. Recompus-me, voltei como pude ao que queria dizer e, sobretudo, recuperei a noção do meu verdadeiro tamanho: o fato de que estar no palco não era um direito divino. Eu estava ali porque aquelas pessoas abriram um espaço na vida delas para ouvir o que eu tinha a dizer. Se é que eu tinha algo a dizer.

Elas podiam nem ter vindo, podiam muito bem seguir vivendo sem meus 20 minutos de blablablá. Elas eram especialistas em algo em que eu era leigo. Elas eram responsáveis pela condução de negócios gigantes, com milhares de empregados dependendo das suas decisões diárias.

Se algo deveria me subir à cabeça era a gratidão e o senso da
responsabilidade do meu papel naquele exato momento. A todos os que me ouviram e ouvem cada palestra ou podcast, meu muití­ssimo obrigado. Retroativo, inclusive 🙂

Há duas outras coisas pela qual sou muito grato ao destino: ter
convivido e trabalhado com grandes expoentes da comunicação brasileira e mundial e ter aprendido com eles que nada, nada justifica arrogância. Nada.

E te juro: manter o estilo é muito, muito mais difí­cil que aprender CSS. E funciona em todas as plataformas.

Antes de mudar de estação

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Eu me pergunto se em Marte passa Picapau. Ué… ondas de rádio fazem isso, não? Vão embora espaço afora, infinito adentro. Não estranhe se os marcianos que chegarem aqui se dirigirem primeiro… ao seu gato. Muito Tom e Jerry dá nisso 🙂

Ver o mundo pela TV pode ter outros efeitos colaterais, como achar que a reprodução de pássaros canoros está ligada à colisão entre bolas de boliche e cabeças distraí­das, ou que o máximo que pode acontecer se um piano de cauda despencar sobre você é um sorriso com sustenidos.

Curioso mesmo é que na vida real eu nunca tenha visto uma bigorna caindo, nem… um taxidermista. A julgar pelo número de desenhos em que o Picapau escapa de ser empalhado deveria ter um taxidermista em cada esquina, ao lado das barbearias com aqueles enfeites listrados girando.

Mas tem algo que eu vejo direto na TV e encontro de vez em quando na vida real: esteiras. Não, não faltou um B, se bem que Besteiras não faltam dos dois lados. Estou falando de esteiras mesmo, aquelas maravilhas motorizadas que têm sempre um saradão feliz correndo em cima, threadmills computadorizados e possantes. Na academia tem várias, e só não as vejo tanto porque meu esporte predileto é gym sponsoring, categoria senior.

Essas esteiras maravilhosas me fazem pensar, inevitavelmente, em internet. Juro.

Já vi esse filme: você acha que uma esteira daquelas vai mudar sua vida, e traz o trambolho pra casa. No primeiro capí­tulo você apanha feio pra programar o monstro, no segundo você escorrega e quase morre, no terceiro ela vira cabide e, no final, termina num canto escuro da garagem.

Não sei se você notou mas, mutatis mutandi, essa é a história de muito site, núcleo interativo ou mesmo “cara de internet” por aí­. A história começa com um esperançoso “agora sim!”, o sinal de uma guinada radical, a expectativa de resultados milagrosos. Depois de meses suando e correndo no mesmo lugar (a maldição das esteiras) você será ou encostado ou… devidamente defenestrado.

Esteiras não têm como se defender do ostracismo, mas você tem. Antes de subir ao pedestal e aceitar seu papel de “agente de mudança” olhe bem nos olhos do cliente e veja se ele tem cara de “gente de mudança”: ele vai bancar as mudanças necessárias para que o projeto interativo funcione? Ele tem idéia, aliás, do que tem que ser mudado para que as coisas efetivamente tragam resultados? Se ele estiver achando que a tua mera presença vai mudar o mundo por osmose, a primeira coisa que
você vai ter que mudar… é essa idéia fantasiosa.

Colocar a internet no seu devido lugar não é fácil. A mí­dia, os
eventos, os gurus, todos eles douram a pí­lula, todos cobrem a internet de glamour e, se você falar de internet de uma maneira ponderada e racional, vão achar que você é visionário… de menos. E quem dá ouvidos a um profeta que traz mais perguntas que respostas?

Se o teu candidato a patrão/cliente/sócio estiver empolgado demais, ajude-o: faça-o respirar fundo, com calma, e veja se ele consegue responder a algumas perguntas básicas:

– de que maneira o projeto interativo se encaixa na empresa/estratégia/negócio?
– que resultados ele espera?
– quanto tempo ele está disposto a esperar (e conseqí¼entemente gastar) pelo resultado?
– o projeto terá o suporte necessário, desde apoio polí­tico até ajuda braçal?
– caso o cenário geral mude, o que acontece com o projeto e com você?
– caso o projeto dê certo, qual será a evolução e como ela te inclui?

Está abstrato demais? Então vou “tangibilizar”: imagine uma agência de propaganda. Imagine que ela nunca “fez internet” e que, por um golpe do destino, cai no colo dela um mega cliente online. A agência vê você como o Messias que vai fazer “O” milagre: levá-la em um salto para o digimundo dourado.

Agências seduzem, eu sei – esse é o seu business, não? – mas ponha a tentação na balança e repasse aquelas perguntinhas todas. O nirvana que te prometem é sólido ou o dia que o tal cliente online zarpar você sobe no telhado?

Pense, e pense bem. Não sei como é em Marte, mas por aqui se você correr, correr e não sair do lugar, ninguém vai te manter como enfeite 😉

O que você acha?

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Onde: um belo restaurante. Quando: um belo domingo.

Fato: me acharam.

O celular tocou. Que hora, pensei. Conferi o identificador de
chamadas: um número qualquer. Pedi licença à minha companhia, me afastei e atendi.

“René?”
“Sim, quem fala?”
“Você faz trabalho?”

Fazer trabalho? A primeira idéia que me ocorreu foi macumba.

Well, não era isso. Era trabalho de faculdade, ou melhor, uma versão on-demand e outsourced de trabalho de faculdade, onde um grupo neo-picareta de estudantes apela para um equivalente estudantil da bruna surfistinha e paga por um trabalho de escola encomendado. Claaaaaaaro, o grupo “briefa” antes. Tudo muito profissional.

Fiquei fascinado, e triplamente:
– isso existe?
– de onde saiu essa balela que eu “faço trabalho”?
– onde acharam meu celular?

“Onde eu achei o senhor? Ah, numa página da internet, não me lembro”

É isso: o grupo entrou num mecanismo de busca, buscou não sei o quê, e me achou nem sabe onde.

Despachei a moça e voltei pro meu almoço, tentando esquecer essa intromissão desagradável. Deu vontade de procurar um pai-de-santo para checar se estou com encosto na internet.

Terminei meu almoço, tomei um café, mas não engoli essa história. Tinha muita coisa ruim misturada ali.

A primeira delas é, pra mim, uma vergonha: alunos “colando” sem
nenhuma desculpa decente e, o que é pior, sem vergonha na cara. Com profissionalismo, até. Fazer um bom trabalho antes era uma gincana: tinha que pesquisar em bibliotecas, arquivos, entrevistar pessoas, correr a cidade em busca de fontes de informação. Hoje você tem um mundo sem fim de informação na telinha do seu PC, e mesmo assim tem gente que prefere pagar pra quem faça.

A segunda coisa é: tem gente usando internet para emburrecer. Tem gente usando a web como buffet de festinha de criança: pega os doces coloridos e volta correndo a brincar. Listas de discussão? Ler notí­cias e blogs? Compartilhar seu conhecimento? Nem pensar (literalmente).

Semanas depois, essas duas aberrações nem me chocam tanto. Se o cara quiser ser tolo, que seja. Mas outro aspecto me perturba até agora: quando alguém faz uma busca por mim, aquela seqí¼ência de links é um retrato fiel de quem eu sou? Aquela página de respostas tem o direito de “falar por mim”?

Eu digo: não. E provo: dias atrás recebo um email formalí­ssimo,
pedindo desculpas pela intromissão e perguntando por dicas sobre… a vida no Canadá. Detalhe: eu nunca fui ao Canadá. Pior: não me lembro de jamais ter mencionado o Canadá em nenhum “trabalho” (ops) meu. De onde o rapaz tirou isso?

Outro email: um grupo de estudantes (outro!) me perguntando que tema deveriam escolher para seu trabalho acadêmico. Eu nem acadêmico sou… fiz Rádio e TV na ECA e olha lá!

Depois de muito repensar essa história (sim, meu cérebro tem dois estômagos e rumina), notei que sim, havia esperança, sim, havia uma luz: em todos esses casos, as pessoas não estavam buscando apenas páginas, estavam buscando… pessoas. E por que elas estavam procurando pessoas? Zilhões e zilhões de sites e páginas não bastam?

A resposta parece ser… não. Por mais que se publique conteúdo sem parar, existe algo que não está no papel nem na tela, existe algo que a busca não acha: o que cada um de nós acha. Nosso jeito único de pensar e responder, nossa experiência pessoal, nossa maneira de ver o mundo.

(Um break para a auto-propaganda: O Yahoo! lançou meses atrás uma busca assim, onde um pergunta, e quem souber responde: é o Yahoo! Answers (http://answers.yahoo.com). Pergunte o que quiser: como fazer um suflê, como entender seu namorado, por que gatos brancos bebem na torneira… sempre vai ter um monte de gente respondendo, e quem escolhe a melhor resposta é você. Uma delí­cia, o Answers, e aposto que aqui no Brasil ser um sucesso.)

Eu adoraria perguntar aqui aos estudantes malandros qual vai ser o papel deles num mundo em que a opinião pessoal, o talento individual, a personalidade contam, mas não faz sentido, eles não devem ler uma revista como essa, eles não estão interessados em opiniões alheias.

Acho que nunca vou encontrá-los, aliás, não no mercado profissional ao menos. Vão conseguir um rolinho de papel com um diploma mas não vão conseguir enrolar ninguém.

Reza a lenda de que perguntaram ao Picasso de onde ele tirava idéias e inspiração. Ele teria respondido: “eu não procuro, eu acho”. Well, ele era um gênio de uma outra época. Hoje os verbos são outros: eu produzo, tu opinas, ele comenta e nós achamos… o máximo.