a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Como Pegar um Beija-Flor

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artigo para revista webdesign

OK, isso não é coisa pra se perguntar assim do nada, mas a questão quase me acerta na testa mal eu abro a porta, e voilá a dita ave em pânico se debatendo contra o teto, paredes, um furacão azulado sem freios nem juí­zo.

Rapidamente notei que alguém já estava se dedicando a esse problema filosófico de maneira bastante atlética, e antes que ele literalmente matasse a charada, tirei meu gato de cena. O pobre passarinho não tinha sete vidas, enfim.

Como se pega um beija-flor?, pensava eu quebrando a cabeça enquanto o pobre bicho quase quebrava a própria. De sopetão? De tocaia? Com as mãos? Com uma rede? Perto de uma criatura tão delicada eu me senti um godzilla tosco. E pensar que ele descendia de dinossauros, e não eu.

O que tem essa história a ver com nosso métier, afinal? Well, pra mim tem. Se você já teve que cativar corações e mentes e fazer com que um projeto online fluí­sse, sabe do que estou falando. Colaboração é avis rara, ave… do paraí­so, quase.

Desenhar uma arquitetura, definir um fluxo de trabalho não é bicho de sete cabeças. Difí­cil é fazer sete bichos humanos não baterem cabeças ao trabalhar em conjunto.

Muitos idéias interativas brilhantes nunca decolam porque dependem de uma integração, de uma colaboração, de uma espontaneidade impensáveis em condições normais de temperatura (baixa) e pressão (alta). As pessoas se entocam, viram porco-espinho e os projetos atrofiam.

Gente é um bicho estranho mesmo: um mero boato faz com que cordeiros virem lobos, e o que era uma alegre colméia vira ninho de vespas. A mera suspeita de uma mudança de organograma é capaz de deixar gente sênior tão atarantada quanto meu beija-flor na cozinha. É só passar o perigo, porém… que todos somos golfinhos brincalhões de novo.

Projetos de internet não escapam dessa selva. Qualquer projeto online, qualquer mesmo, sacode estruturas. O mundo não é empresas de um lado, pessoas de outro, com a internet servindo de ponte. O mundo real é feito de feudos, tribos, tramas, times rivais e outras encrencas numa cartografia intrincada e, pior de tudo, invisí­vel. Você só percebe que existia uma fronteira depois que pisou no campo minado.

Information highway? Eu só vejo buraqueira, semáforos quebrados e gente em fila dupla.

Mas… qual a saí­da? Engrenar a tração nas 4 rodas e forçar o motor? Acredite: a menos que você queira fundir motores e cérebros, não.

A primeira medida é… medir o terreno. Avalie muito bem quais são os interesses em jogo, que resultados são realmente crí­ticos e quais os fatores que podem levar o projeto à ruí­na. Falta de verbas? Custo crescente? Estouro de prazo? Refaça a tua rota para não ficar no mato sem cachorro.

Segunda medida: casting. Como numa peça de teatro ou filme, um projeto online precisa de atores, gente que reme, fique no timão, gente que ice as velas. Investigue com carinho se as pessoas são aptas a tocar esse barco.

OK, a essa altura teu projeto já tem motor, airbags, piloto, navegador e o tanque cheio de combu$tí­vel. Mas que o impede essa turma de desencanar e ir para o litoral norte ser feliz? Simples: envolvimento. Eis aí­ nossa ave fugidia, nosso beija-flor assustado.

Todo começo de projeto online parece sala de aula: sempre um ou dois levantam a mão ansiosos por responder, enquanto uma turma enorme faz cara de paisagem. Teu projeto também vai ter um ou dois entusiastas, mas ainda falta cativar o resto das tribos.

Aí­ está o segredo: as malditas tribos.

Mas por mais que a gente se feche em tribos (atendimento x criação, comercial x desenvolvimento, TI x marketing), tribos são feitas de pessoas, e pessoas são muito mais ricas e complexas e interessantes do que um mero rótulo. Veja teus amigos no orkut: você sempre se surpreende por descobrir que um conhecido teu, de outra tribo completamente distinta, também está na comunidade eu adoro pizza amanhecida. Quem diria… Outro colega teu de departamento, tí­mido e fechado, é popularí­ssimo numa comunidade forrada de conhecidos do outro andar. Ora vejam…

Se você criar oportunidades e propiciar o clima adequado, as pessoas saem da toca e criam novos laços, novas afinidades, e perdem a vergonha de levantar a mão e vir à lousa.

Não é fácil não, mas compensa. É um processo delicado, que requer sensibilidade, justiça e alguém que transite livremente. Mais importante ainda: alguém que saiba reconhecer, valorizar e incentivar as atitudes pró-ativas, generosas. Em pouco tempo surge algo definitivamente maior que a soma das partes: colaboração, sinergia, fecundidade.

Vale a pena. Eu juro que vale. Digo isso com uma gata rajada se espreguiçando ao meu lado, gata sem dono que inexplicavelmente confiou em mim, entrou conosco no chalé e passou boas horas no meu colo diante da lareira. Um dengo. Que diferença do meu gato maldoso que quase enfartou um beija-flor desnorteado.

Falando nele… como eu peguei o beija-flor? Nem sei. Sentei por uns bons trinta minutos ali, tranqí¼ilo, esperando que em algum momento ele se acalmasse e aceitasse minha mão. Uma bela hora eu lhe estendi com calma um apoio, ele pousou ali e eu lentamente o levei até a janela. Lá se foi ele.

Deve haver outras maneiras, imagino. Mas isso é o que eu soube fazer: me desarmar e estender a mão.

Os dinossauros acabaram virando pássaros. Se você facilitar, pessoas também criam asas.

Minha Teia 2.0

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O Tarzan deve morrer de inveja do Homem-Aranha: o cara clica num botão e zás, sai um cipó automático limpinho para se baloiçar sobre abismos. Assim é fácil.

Para piorar a raiva, a selva de pedra tem mocinhas muuuito mais
interessantes do que a Jane e a Chita. Sem platéia feminina de que adianta desfilar saradão e seminu pela floresta, afinal? Uma banana pra esse mascarado, deve grunhir o homem-macaco.

É curioso que um dos super-heróis mais queridos seja… uma aranha. Imagine você convencendo um cliente ou chefe de que um homem-inseto que sobe pelas paredes e lança teias vai ser um estrondo comercial. Faça isso hoje e o cara ou te demite ou pede antes um focus-group, que vai optar fragorosamente pelo Iridiscente Homem-Borboleta. Só o Stan Lee mesmo para emplacar uma idéia improvável dessas.

Mudemos da Cartoon Network pro Discovery Channel: o forte das aranhas não é o bungie-jumping. Aranhas vivem por um fio, mas um fio que tece teias. O bichinho escolhe um canto e vai pacientemente esticando, prendendo, enredando, até que uma teia complicada e invisí­vel fique estendida no ar. Como um certo senhor barbudo, ao final da criação ela descansa.

Descansar é modo de dizer: na ponta de suas patas os fios tensos vão dando notí­cia se o almoço chegou ou não. Um tremelique nervoso no setor XYZ é a sineta do lanche: ela corre para o ponto exato antes que o almoço escape.

Biologices à parte, vou confessar uma coisa: pela primeira vez em anos eu vejo sentido nessa história de falar em web. Que web é teia em inglês não é novidade, mas antes o que me vinha a cabeça era uma teia mundial de computadores interligados e zunindo, e a metáfora não me comovia muito.

Tudo mudou, ou melhor, tudo está mudando muito rápido. A teia agora é outra. Eu posso escolher quais são as fontes de notí­cia e informação mais relevantes para mim e concentrá-las todas numa página só, ou em um único software. Eu bato o olho ali e vejo o que tem de novo em N fontes diferentes.

Como a aranhazinha, sem sair do lugar eu fico ligado em mil fios que me anunciam as novidades. E tudo o que eu produzo, de podcasts a blogs passando por minhas fotos, tudo pode ser importado nas teias alheias.

Como isso é possí­vel? RSS.

Não, RSS não quer dizer “risos”. RSS é tão fácil que é até divertido, mas é algo bem sério. RSS (real simple syndication) foi um recurso criado anos atrás para facilitar a distribuição de informações.

Eu atualizo meu podcast “roda e avisa” =(https://www.usina.com/rodaeavisa) e automaticamente um arquivinho é gerado com o resumo das mudanças. Esse arquivinho de nada é que permite que pessoas do mundo todo “acompanhem” as coisas que eu publico sem ter que visitar minha página.

(Confira http://pt.wikipedia.org/wiki/RSS para ver mais detalhes, é bem bacana)

Preste atenção em grandes sites de notí­cias, em bons blogs e portais: você vai ver que em algum lugar vai ter um botãozinho escrito RSS, ou XML, ou FEED. Esse botão tem um link, e esse link você pode adicionar à tua teia pessoal de interesses e fontes de notí­cia.

Quer ver um bom exemplo? A CNN oferece inúmeros feeds:
http://www.cnn.com/services/rss/

Outro exemplo: ontem me indicaram um blog bárbaro de um americano
super-antenado: http://jeremy.zawodny.com/blog/. Como o blog dele
tinha RSS, adicionei-o imediatamente à  minha página agregadora e
pronto: agora ele faz parte da minha teia, ou melhor, da minha web.

OK, agora todos nós temos “sentidos de aranha”, todos nós lançamos teias num duplo-clique. Isso o Peter Parker já tinha. Mas temos uma vantagem sobre o CDF solitário: somos milhões de aranhas, milhões, cada uma construindo sua própria web, cada uma produzindo e pendurando na teia para todas as outras aranhas, cada uma aliando forças com outras aranhas e montando sua própria rede de comunidades e trabalho.

Para nós que trabalhamos com essa selva de teias, qual o impacto? O que muda? Vamos ter que repensar nossa maneira de fazer sites, de criar serviços, de pensar em ações de comunicação?

Sim, e rápido. A menos que queiramos ficar de tanga escutando gorilas

Dicas de dança por um peso-pesado

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Você vai ficando mais velho e o que era elogio passa a te deixar com
um pé atrás. Por exemplo: ser um profissional “sênior” indica uma
trajetória profissional longa e rica ou quer dizer que… por decurso
de prazo você já virou um “ex-jovem”?

E ser um “peso-pesado”? Significa que você precisa retomar a dieta
a-go-ra ou que a sua atuação é poderosa e faz diferença no jogo de
forças?

Pelo sim, pelo não, essa semana eu me inscrevo numa academia. 🙂

Se você não for tão sênior assim talvez nunca tenha ouvido falar de um
peso-pesado magní­fico, o Cassius Clay. Já? Não? Mohammed Ali, então?
Também não? Céus… quem mandou eu ter 40 anos, enfim?

Vamos lá: Mohammed Ali e Cassius Clay são o mesmo pugilista, e o nome árabe foi adotado quando ele se converteu ao islamismo como o Cat Stevens (o que, na pré-história da minha juventude, era um gesto anti-guerra e pacifista, pasmem).

Eu ia sugerir que você pesquisasse a respeito por conta própria, mas me esqueci que a tua referência de peso-pesado deve ser algo furioso e bestial como Mike Tyson, cuja colaboração artí­stica para a humanidade foi arrancar com os dentes uma orelha alheia, e isso não deve te animar muito.

Esqueça o Tyson. Cassius Clay era elegantí­ssimo no ringue, um dançarino. Mais: fora dos ringues era um ativista polí­tico, um negro consciente, um í­dolo pop e, pasme, um belo frasista.

É dele a frase que me inspirou esse artigo: “fly like a butterfly, but sting like a bee”, voe como uma borboleta, mas ferroe como uma abelha. Lindo, não? Exceto, claro, para quem, confuso de ver aquele gigante dançando em torno de si, recebia o murro certeiro e beijava a lona.

E o que tem a ver o conselho de um boxeur com nosso ofí­cio de zeros e uns? Simples: muitos dos grandes tapas-na-cara digitais hoje, muitas das porradas nocauteadoras no digimundo são… simples. Não? Pense nas páginas de busca. Pense nos messengers. Pense nos blogs. Voam como borboletas, não? Você os acessa de todo lugar, em qualquer máquina, em palms, em celulares… Não importa onde, eles pousam com graça e leveza sempre. A hora que você os aciona, porém, são rápidos e certeiros. Como uma abelha.

Viram só? Ou vocês pensavam que abelhinhas e flores só servem pra (não) falar de sexo? Agora pense naqueles sites super instigante-original-multimí­dia que você viu uma vez só, achou lin-do, mas nunca mais usou porque ele não te agregava em nada. Well, de cara me lembro de uns 3.

Eu creio, porém, que o Cassius Clay não tenha jamais sido picado por uma abelha. Você já foi? OK, dói, mas como se não bastasse a picada, a abelha continua se batendo contra você insanamente, batendo, batendo, até morrer. Muito estranho (e contra as regras do pugilismo, imagino).

Sabe por que ela faz isso? Antes de morrer, ela vai te marcando com um odor que avisa às outras abelhas que você é um inimigo. As outras abelhas sentem o cheiro que ela deixou em você e te picam também. Aí­ que mora o perigo: uma picada leva a muuuuuitas outras.

Tem outra grande lição aí­: abelhas não só ferroam forte, mas também colaboram entre si, trocam informações, e assim derrotam qualquer inimigo. E as coisas mais bacanas que temos hoje no digimundo funcionam da mesma maneira: as “borboletas” digitais não só voam com elegância mas também se comunicam entre si. Teu messenger te avisa do email que chegou e das últimas notí­cias, teu webmail te avisa por SMS de uma mensagem urgente, você escolhe quais fontes de notí­cia tua home vai “escutar” por RSS, você compartilha teus favoritos usando metatags, você compra produtos baseado nos reviews de outros consumidores…

É assim que os pesos-pesados do digimundo estão lutando hoje, num estilo que mistura leveza, rapidez e integração. Preste atenção, compare os campeões, estude seus movimentos.

E torça fervorosamente, como eu, pelos milhões de usuários que estão ganhando asas.