a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Questão de Destino

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Escrever de boca cheia é muito feio? Espero que não. Só não ofereço, aliás, porque não vai dar tempo: vou matar esse de ovo de páscoa em um piscar de olhos de coelho. De qualquer maneira fica a dica: marzipan e chocolate amargo nasceram um para o outro. Coisa de destino

Ovos de páscoa são, aliás, categoria-destino. Juro! Eu ouvi isso do rapaz responsável pela área de ovos de páscoa de uma grande empresa de chocolates. Ouvi e não entendi, claro, mas ao invés de fazer cara de paisagem, perguntei:

– Ahn?

O rapaz me explicou: categoria-destino são aqueles produtos que fazem com que você saia de casa e vá ao supermercado só para comprá-los. Ovo de Páscoa é assim: ou você sai esbaforido para comprar os ditos cujos na véspera do dia D e volta com o que encontrou, ou vai ter que pagar terapia pros pirralhos o resto da vida.

Balinhas? Pilhas alcalinas? Revistas de celebridades? Típica compra por impulso, daquelas que você só leva porque (e isso não é acaso) estavam ali te sorrindo na fila do caixa.

Ok, acabei o restinho do chocolate. O mundo parece mais doce, não sei por quê.

Mas falemos um pouco mais de Destino. Por voltas e reviravoltas do Destino, estou há uns bons sete meses sem banda larga em casa. Aliás, defina casa. O que me salva é o laptop do trabalho , o acesso discado gratuito e hot-spots por aí.

Melhor dizendo: salvava, já que, por ironia do Destino, tive que devolver o notebook faz um mês e tanto. O náufrago digital aqui teve que navegar remando em um pocketpc e um smartphonezinho. Sem nenhuma vocação para santo, eis-me um legítimo faquir 2.0.

Ok, ok, não se preocupem, sobrevivi. Meu laptop novo chegou, e logo-logo encontro alguma solução de conectividade decente. Passei na prova de apnéia e abstinência.

Passei na prova, mas não passei incólume. Não dá para passar fome digital assim em brancas nuvens, alguma coisa a gente aprende. E eu quero compartilhar com vocês o que aprendi, sem que vocês tenham que comer o megabyte que o dial-up amassou.

O primeiro aprendizado é: sem querer nós nos tornamos sedentários digitais. Ficamos sentados com a boca escancarada cheia de dentes esperando a… Ops, isso é Raul Seixas! O chocolate está dando barato, minha nossa.

Voltando à questão do sedentarismo: muito do que achamos genial na web parece genial porque estamos inertes diante de uma máquina hiperdimensionada conectada sem limites. Algo como os humanos no filme Matrix, sonhando acordados e alimentados por tubos. (Chocolate alucinógeno, esse!).

Nesse estado de paxá catatônico a gente acaba esquecendo que, para pessoas normais, internet é algo onde se entra e depois se sai, internet é o lugar das categorias-destino. Entra-se para ler emails, entra-se para checar o scrapbook, entra-se para pagar uma conta… e depois tchau. As pessoas têm mais o que fazer.

Nessas minhas semanas espartanas/franciscanas/masoquistas, do que eu senti falta? Quais foram as minhas categorias-destino? Eu digo: checar meu webmail (celular resolve), acompanhar a comunidade que eu administro (PDA em hotspot resolve), ler meus feeds de notícias (dá-lhe PDA e hotspots) e eventualmente honrar meus compromissos bancários (se bem que bankphone resolve muita coisa).

Youtube? Joost? Instant messenger? Blogar? Fazer podcasts e videocasts? Deu pra viver (quase) sem. Na boa.

Second Life? Come on, get a life.

E já que a life é bastante short e na internet a gente só entra quando quer e precisa, que tal fazermos um exercício sem se mexer da cadeira? O exercício é simples: ponha-se no lugar do usuário. O que ele quer? Por que ele ligou um trambolho lerdo, entrou numa conexão sofrível e cara e se deu ao trabalho de entrar no teu site? O que ele quer?

Descobriu? Lindo, agora desenhe todo o site em torno disso, daquilo que o usuário precisa. O resto é cama de pregos, palavra de quem já foi faquir.

Eu sei o que eu quero, e acho que é esse meu Destino: tornar a vida alheia mais doce. E digo isso de boca cheia.

Cartas na Mesa

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O que você quer?

Sim, estou falando contigo. Responda.

Assustou? Então falemos de outra coisa enquanto você pensa. Para a conversa ficar mais interessante, aventuremo-nos no arriscado território do infalável. Eu quero falar sobre Querer.

“Eu quero falar” é bem diferente de “eu gostaria de”. Se eu quero eu quero, não tem por quê colocar num subjuntivo açucarado. Eu quero. Nem é questão de desejo, é vontade mesmo. Desejar é passivo: você depende de algo externo que lhe desperte o desejo, seja uma barra de chocolate ou um sex symbol qualquer.

Querer não, querer é coisa minha. Só eu sei o que quero. Se você quiser algo diferente, por favor coloque suas cartas na mesa.

OK, não é fácil. Expressar o que eu quero vai contra uma vida inteira aprendendo polidez, etiqueta, protocolos sociais, respeito, etc. Em algumas culturas orientais pega muito mal expressar diretamente o que se quer. Parece falta de respeito, egoí­smo, rudeza. Em algumas culturas ocidentais, por outro lado (planetariamente falando, inclusive), ou o cara se coloca abertamente ou ele é um hipócrita dissimulado.

Quer ver? Coloque os dois extremos numa negociação e os dois vão sair horrorizados com a barbárie alheia.

Questões culturais, contextos, situações polí­ticas… tudo isso condiciona a maneira como expressamos nossos quereres. Existe uma situação, porém, onde temos que ser claros: design.

Eu me recordo até hoje de algo que li no prefácio de um livro-curso de Desenho Técnico: desenho vem de desí­gnio, e desí­gnio (obrigado, Houaiss) é “idéia de realizar algo; intenção, propósito, vontade”. Se a etimologia está correta eu não sei, mas ao menos coloca na mesa um ponto fundamental: design é querer.

Querer é um verbo que tem objeto sempre… e um sujeito. Pensemos num sujeito que acessa uma loja online. Se ele entrou no site, há varios quereres imagináveis:

– ele quer comprar um produto X da marca Y
– ele quer comprar um produto da categoria Z, seja de que marca for
– ele quer encontrar ofertas
– ele quer saber o que há de novo
– ele quer acompanhar o pedido que fez

… e por aí­ vai. A loja, por sua vez, tem seus quereres:

– quer vender
– quer que o usuário compre
– quer que o usuário deseje comprar outros produtos
– quer que o usuário compre sempre dela
– quer que o usuário ajude a divulgá-la
– quer conhecer melhor o usuário
– quer que o usuário se sinta seguro
– quer que o usuário se sinta satisfeito
– quer que o usuário se sinta bem-atendido

… e a lista continua. E eu pergunto:

– esses quereres todos foram colocados como itens sine qua non do projeto?
– O design contemplou tudo isso?
– O resultado final viabiliza esses quereres todos?

Cada pergunta dessas diz respeito a uma etapa diferente do design: planejamento, desenvolvimento, implementação. Depois que o projeto está no ar, não dá mais para querer uma coisa que não foi colocada expressamente na fase de planejamento. Se o layout que você encomendou veio diferente do esperado, será que você expressou corretamente o que queria? A busca do site funciona como o usuário espera ou o cliente queria que funcionasse?

Eu escrevi esse artigo porque queria deixar claro um ponto: ou aprendemos a expressar o que queremos e a lutar por isso, ou vamos ter dores de cabeça sempre. E isso ninguém quer, quer?