a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Antes de mudar de estação

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Eu me pergunto se em Marte passa Picapau. Ué… ondas de rádio fazem isso, não? Vão embora espaço afora, infinito adentro. Não estranhe se os marcianos que chegarem aqui se dirigirem primeiro… ao seu gato. Muito Tom e Jerry dá nisso 🙂

Ver o mundo pela TV pode ter outros efeitos colaterais, como achar que a reprodução de pássaros canoros está ligada à colisão entre bolas de boliche e cabeças distraí­das, ou que o máximo que pode acontecer se um piano de cauda despencar sobre você é um sorriso com sustenidos.

Curioso mesmo é que na vida real eu nunca tenha visto uma bigorna caindo, nem… um taxidermista. A julgar pelo número de desenhos em que o Picapau escapa de ser empalhado deveria ter um taxidermista em cada esquina, ao lado das barbearias com aqueles enfeites listrados girando.

Mas tem algo que eu vejo direto na TV e encontro de vez em quando na vida real: esteiras. Não, não faltou um B, se bem que Besteiras não faltam dos dois lados. Estou falando de esteiras mesmo, aquelas maravilhas motorizadas que têm sempre um saradão feliz correndo em cima, threadmills computadorizados e possantes. Na academia tem várias, e só não as vejo tanto porque meu esporte predileto é gym sponsoring, categoria senior.

Essas esteiras maravilhosas me fazem pensar, inevitavelmente, em internet. Juro.

Já vi esse filme: você acha que uma esteira daquelas vai mudar sua vida, e traz o trambolho pra casa. No primeiro capí­tulo você apanha feio pra programar o monstro, no segundo você escorrega e quase morre, no terceiro ela vira cabide e, no final, termina num canto escuro da garagem.

Não sei se você notou mas, mutatis mutandi, essa é a história de muito site, núcleo interativo ou mesmo “cara de internet” por aí­. A história começa com um esperançoso “agora sim!”, o sinal de uma guinada radical, a expectativa de resultados milagrosos. Depois de meses suando e correndo no mesmo lugar (a maldição das esteiras) você será ou encostado ou… devidamente defenestrado.

Esteiras não têm como se defender do ostracismo, mas você tem. Antes de subir ao pedestal e aceitar seu papel de “agente de mudança” olhe bem nos olhos do cliente e veja se ele tem cara de “gente de mudança”: ele vai bancar as mudanças necessárias para que o projeto interativo funcione? Ele tem idéia, aliás, do que tem que ser mudado para que as coisas efetivamente tragam resultados? Se ele estiver achando que a tua mera presença vai mudar o mundo por osmose, a primeira coisa que
você vai ter que mudar… é essa idéia fantasiosa.

Colocar a internet no seu devido lugar não é fácil. A mí­dia, os
eventos, os gurus, todos eles douram a pí­lula, todos cobrem a internet de glamour e, se você falar de internet de uma maneira ponderada e racional, vão achar que você é visionário… de menos. E quem dá ouvidos a um profeta que traz mais perguntas que respostas?

Se o teu candidato a patrão/cliente/sócio estiver empolgado demais, ajude-o: faça-o respirar fundo, com calma, e veja se ele consegue responder a algumas perguntas básicas:

– de que maneira o projeto interativo se encaixa na empresa/estratégia/negócio?
– que resultados ele espera?
– quanto tempo ele está disposto a esperar (e conseqí¼entemente gastar) pelo resultado?
– o projeto terá o suporte necessário, desde apoio polí­tico até ajuda braçal?
– caso o cenário geral mude, o que acontece com o projeto e com você?
– caso o projeto dê certo, qual será a evolução e como ela te inclui?

Está abstrato demais? Então vou “tangibilizar”: imagine uma agência de propaganda. Imagine que ela nunca “fez internet” e que, por um golpe do destino, cai no colo dela um mega cliente online. A agência vê você como o Messias que vai fazer “O” milagre: levá-la em um salto para o digimundo dourado.

Agências seduzem, eu sei – esse é o seu business, não? – mas ponha a tentação na balança e repasse aquelas perguntinhas todas. O nirvana que te prometem é sólido ou o dia que o tal cliente online zarpar você sobe no telhado?

Pense, e pense bem. Não sei como é em Marte, mas por aqui se você correr, correr e não sair do lugar, ninguém vai te manter como enfeite 😉

O que você acha?

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Onde: um belo restaurante. Quando: um belo domingo.

Fato: me acharam.

O celular tocou. Que hora, pensei. Conferi o identificador de
chamadas: um número qualquer. Pedi licença à minha companhia, me afastei e atendi.

“René?”
“Sim, quem fala?”
“Você faz trabalho?”

Fazer trabalho? A primeira idéia que me ocorreu foi macumba.

Well, não era isso. Era trabalho de faculdade, ou melhor, uma versão on-demand e outsourced de trabalho de faculdade, onde um grupo neo-picareta de estudantes apela para um equivalente estudantil da bruna surfistinha e paga por um trabalho de escola encomendado. Claaaaaaaro, o grupo “briefa” antes. Tudo muito profissional.

Fiquei fascinado, e triplamente:
– isso existe?
– de onde saiu essa balela que eu “faço trabalho”?
– onde acharam meu celular?

“Onde eu achei o senhor? Ah, numa página da internet, não me lembro”

É isso: o grupo entrou num mecanismo de busca, buscou não sei o quê, e me achou nem sabe onde.

Despachei a moça e voltei pro meu almoço, tentando esquecer essa intromissão desagradável. Deu vontade de procurar um pai-de-santo para checar se estou com encosto na internet.

Terminei meu almoço, tomei um café, mas não engoli essa história. Tinha muita coisa ruim misturada ali.

A primeira delas é, pra mim, uma vergonha: alunos “colando” sem
nenhuma desculpa decente e, o que é pior, sem vergonha na cara. Com profissionalismo, até. Fazer um bom trabalho antes era uma gincana: tinha que pesquisar em bibliotecas, arquivos, entrevistar pessoas, correr a cidade em busca de fontes de informação. Hoje você tem um mundo sem fim de informação na telinha do seu PC, e mesmo assim tem gente que prefere pagar pra quem faça.

A segunda coisa é: tem gente usando internet para emburrecer. Tem gente usando a web como buffet de festinha de criança: pega os doces coloridos e volta correndo a brincar. Listas de discussão? Ler notí­cias e blogs? Compartilhar seu conhecimento? Nem pensar (literalmente).

Semanas depois, essas duas aberrações nem me chocam tanto. Se o cara quiser ser tolo, que seja. Mas outro aspecto me perturba até agora: quando alguém faz uma busca por mim, aquela seqí¼ência de links é um retrato fiel de quem eu sou? Aquela página de respostas tem o direito de “falar por mim”?

Eu digo: não. E provo: dias atrás recebo um email formalí­ssimo,
pedindo desculpas pela intromissão e perguntando por dicas sobre… a vida no Canadá. Detalhe: eu nunca fui ao Canadá. Pior: não me lembro de jamais ter mencionado o Canadá em nenhum “trabalho” (ops) meu. De onde o rapaz tirou isso?

Outro email: um grupo de estudantes (outro!) me perguntando que tema deveriam escolher para seu trabalho acadêmico. Eu nem acadêmico sou… fiz Rádio e TV na ECA e olha lá!

Depois de muito repensar essa história (sim, meu cérebro tem dois estômagos e rumina), notei que sim, havia esperança, sim, havia uma luz: em todos esses casos, as pessoas não estavam buscando apenas páginas, estavam buscando… pessoas. E por que elas estavam procurando pessoas? Zilhões e zilhões de sites e páginas não bastam?

A resposta parece ser… não. Por mais que se publique conteúdo sem parar, existe algo que não está no papel nem na tela, existe algo que a busca não acha: o que cada um de nós acha. Nosso jeito único de pensar e responder, nossa experiência pessoal, nossa maneira de ver o mundo.

(Um break para a auto-propaganda: O Yahoo! lançou meses atrás uma busca assim, onde um pergunta, e quem souber responde: é o Yahoo! Answers (http://answers.yahoo.com). Pergunte o que quiser: como fazer um suflê, como entender seu namorado, por que gatos brancos bebem na torneira… sempre vai ter um monte de gente respondendo, e quem escolhe a melhor resposta é você. Uma delí­cia, o Answers, e aposto que aqui no Brasil ser um sucesso.)

Eu adoraria perguntar aqui aos estudantes malandros qual vai ser o papel deles num mundo em que a opinião pessoal, o talento individual, a personalidade contam, mas não faz sentido, eles não devem ler uma revista como essa, eles não estão interessados em opiniões alheias.

Acho que nunca vou encontrá-los, aliás, não no mercado profissional ao menos. Vão conseguir um rolinho de papel com um diploma mas não vão conseguir enrolar ninguém.

Reza a lenda de que perguntaram ao Picasso de onde ele tirava idéias e inspiração. Ele teria respondido: “eu não procuro, eu acho”. Well, ele era um gênio de uma outra época. Hoje os verbos são outros: eu produzo, tu opinas, ele comenta e nós achamos… o máximo.

Manifesto Anti-Casa-da-Sogra

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Uma sombra negra paira sobre nós, suga nossas energias, nos prende a grilhões de chumbo e nos envenena a vida: são os invasores de máquinas.

Eu estou cansado, todos estamos cansados, seu computador está exausto de ser violentado por mil softwares predatórios. A Microsoft não pode expiar sozinha pelo inferno do digimundo e pelos pecados de seus concorrentes. Apple, Real, Adobe, e mais um sem-fim de software houses respeitáveis aproveitam que existe um bode expiatório chamado Windows e pintam e bordam com o meu, o teu, o nosso patrimônio digital.

Tente instalar o QuickTime: o iTunes vem junto forçosamente, completando 20M de download. Instale o Real Player: um descuido e ele se espalha por todo lado. Convença um leigo de que vale a pena baixar o pesadí­ssimo Adobe Acrobat para ler o documento que você enviou. Deixe seu filho colocar em casa o CD-ROM que ele ganhou na lanchonete e prepare-se para ter seu computador praticamente seqí¼estrado.

Pior do que eles só os Gator, spy-wares e ad-wares que silenciosamente se infiltram na vida dos incautos. Um PC tí­pico vive numa quase septicemia de invasões, arrastando-se como pode até sucumbir. PC´s vivem doentes mesmo sem ví­rus algum.

Meu PC é meu. O que tem nele é meu patrimônio, é meu território, é minha vida, e exijo o mí­nimo de urbanidade e ética de qualquer um que adentre esse mundo digital onde investi tanto do meu tempo e afeto.

Meu PC não é a casa da sogra.

Quero a sua colaboração para elaborarmos em conjunto o Manifesto Anti-Casa-da-Sogra”.
Eu dou o primeiro passo:

  1. não quero mudanças imprevistas no meu computador sem meu consentimento
  2. quero poder instalar so’ o que eu quero, sem agregados
  3. quero poder desinstalar o que instalei sem traumas
  4. quero versões light para download
  5. não quero que me esfreguem na cara as versões pagas a cada 5 minutos
  6. não quero ser monitorado sem autorização
  7. não quero algo que sacrifique o desempenho sem necessidade
  8. não quero “letras miúdas de contrato” escondidas
  9. não quero dar permissão de contato para parceiros que não conheço
  10. não quero que meus outros programas sejam afetados

Enriqueça esse manifesto e colabore por uma maior consciência e maior ética no digimundo.