a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

A internet jam-session

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Que Beethoven não nos ouça, mas talvez
ele não tenha sido tão genial assim. Ao menos foi o que aprendi escutando
uma entrevista bárbara outro dia com um professor de música.

Beethoven se dava ao luxo de escrever,
reescrever, rabiscar, rascunhar e ir lapidando suas partituras até
o ponto em que estivessem redondas, perfeitas, insuperáveis.
 

O contraponto a isso é outro tipo de
genialidade: um pianista de jazz (Bill Evans foi o exemplo, Bill Evans
que eu adoro) improvisa o tempo todo, em tempo real, sem tempo de voltar
atrás e alterar o que ficou registrado para todos os tempos pelo microfone
implacável.
 

Bom ouvir isso, não? Improviso é nosso
nome do meio, improviso sempre foi nosso pulo do gato.
 

Well, seria um bom pulo-do-gato
se caíssemos sempre em pé. Ou se tivéssemos sete vidas. Vai ver é
por isso que desenvolvemos outra tecnologia interessantíssima, o “levanta-sacode-a-poeira-dá-a-volta-por-cima”:
para dar algum charme que seja a tombos esborrachados.
 

A nossa arte de disfarçar tombos se
tornou tão elaborada que nem percebemos mais a variedade de estilos,
nem notamos mais inovaçõs fantásticas na arte de pisar na bola.
 

Eu mesmo já apresentei para vocês
diversas gafes invisíveis: projetos que caem no brejo das especificaçoes
vagas, prazos que viram fumaça na mágica das promessas incumpríveis,
etc., etc., etc.
 

Hoje tenho a honra de apresentar a vocês
um novíssimo e modernérrimo super-vilão: o picadinho 2.0.
 

A receita é simples, vocês encontram
os ingredientes prontinhos no mercado:

  • Soluções em diversos sabores,
    pré-cozidas e… gratuitas
  • Designers frilas já acostumados
    a trabalhar picadinho
  • Programadores frilas que
    fazem projetos como o teu com um pé nas costas
  • Um arsenal de ferramentas
    bacaninhas para garantir que esse povo disperso no espaço e no tempo
    consiga se misturar: Gmail, Basecamp, Google Docs, MindMeister, etc.

 
 

Pronto! Nunca foi tão fácil “cozinhar”
internet e… ter uma dor de barriga das boas. Algo como “faça
você mesmo seu piriri”. E aí entra a tremenda originalidade,
o segredo da invisibilidade do vilão picadinho 2.0: se ficou
ruim, a culpa não é de ninguém.
 

Ok, como sempre estou carregando nas
tintas. É bem possível que fique razoável. Mas para ficar genial
pra valer falta algo que ainda não tem nome, algo que em outro tipo
de parto, o parto de verdade com parteira e tudo, aquele que botou no
mundo geraçõs e geraçõs de seres humanos, se chama… Doula.
 

(Um detalhe: estou escrevendo esse texto
offline
, sem acesso a wikipedias ou similares, portanto vou ter
que dar uma de Bill Evans e improvisar sem chance de corrigir qualquer
vacilo. Confira se Doula se escreve assim mesmo, por favor).
 

Doula, segundo uma grande amiga
versada em partos, é um personagem tradicional na cultura russa que
tem como papel fundamental dar apoio ao parto. Não, ela não faz

o parto, quem faz é a parteira. Ela simplesmente garante que a mãe
se sinta segura, amparada, assistida, sobretudo porque o pai nessa altura
ou desmaiou ou mijou nas calças.
 

Em projetos grandes as Doulas
têm nomes bonitos: gerentes de projeto certificados por PMI, líderes
black-belt
de gerenciamento de mudanças, business analysts
e bla-bla-bla. Mas no mundo do picadinho 2.0, nesse buffet self-service
de coisas pré-mastigadas… quem garante que nasça um belo bebê interativo
e não um jovem frankenstein feito de partes mal-encaixadas?

Nesse cenário onde qualquer um pode
invocar os poderes de designers e programadores autônomos e remotos,
quem garante que alguma mágica ocorra?

Ficou fácil comprar as peças avulsas…
mas quem disse que o cliente sabe montar o brinquedo? Não olhem pra
mim, não fui eu não 🙂
 

Mea culpa, eu deverita ter dito.
Eu venho falando há anos sobre projetos “clássicos” tipo
Beethoven, onde primeiro se cria uma belíssima partitura/documentação
para só então chamar a orquestra e seu maestro. Faltou eu dar alguma
pista pra internet jazzística, a internet improvisada por pequenos
ensembles
de talentos únicos, essas jam sessions
remotas e assíncronas. Mea culpa.
 

Eu dou uma pista, então: o improviso
absoluto é um mito. Jazzistas praticam muito, grupos ensaiam muito.
Ninguém é doido de gravar algo sem preparo algum.
 

Uma Doula
ajudaria? Alguém que segurasse na mão do cliente na hora do parto,
alguém que ensaiasse o site, testasse, apontasse melhorias, alguém
que poupasse o cliente dos erros mais crassos? Talvez sim.

Eu já fiz esse papel, con mucho
gusto
. E sei que fez/fiz diferença. Quem sabe vocês não viram
e-Doulas on-demand
também?
 

Ficou curioso sobre o Bill Evans? Procure
pelo álbum Conversations with Myself, com gravações caseiras
do gênio ensaiando sozinho, ensaiando, improvisando, ensaiando. Genial.

Cartas na Mesa

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O que você quer?

Sim, estou falando contigo. Responda.

Assustou? Então falemos de outra coisa enquanto você pensa. Para a conversa ficar mais interessante, aventuremo-nos no arriscado território do infalável. Eu quero falar sobre Querer.

“Eu quero falar” é bem diferente de “eu gostaria de”. Se eu quero eu quero, não tem por quê colocar num subjuntivo açucarado. Eu quero. Nem é questão de desejo, é vontade mesmo. Desejar é passivo: você depende de algo externo que lhe desperte o desejo, seja uma barra de chocolate ou um sex symbol qualquer.

Querer não, querer é coisa minha. Só eu sei o que quero. Se você quiser algo diferente, por favor coloque suas cartas na mesa.

OK, não é fácil. Expressar o que eu quero vai contra uma vida inteira aprendendo polidez, etiqueta, protocolos sociais, respeito, etc. Em algumas culturas orientais pega muito mal expressar diretamente o que se quer. Parece falta de respeito, egoí­smo, rudeza. Em algumas culturas ocidentais, por outro lado (planetariamente falando, inclusive), ou o cara se coloca abertamente ou ele é um hipócrita dissimulado.

Quer ver? Coloque os dois extremos numa negociação e os dois vão sair horrorizados com a barbárie alheia.

Questões culturais, contextos, situações polí­ticas… tudo isso condiciona a maneira como expressamos nossos quereres. Existe uma situação, porém, onde temos que ser claros: design.

Eu me recordo até hoje de algo que li no prefácio de um livro-curso de Desenho Técnico: desenho vem de desí­gnio, e desí­gnio (obrigado, Houaiss) é “idéia de realizar algo; intenção, propósito, vontade”. Se a etimologia está correta eu não sei, mas ao menos coloca na mesa um ponto fundamental: design é querer.

Querer é um verbo que tem objeto sempre… e um sujeito. Pensemos num sujeito que acessa uma loja online. Se ele entrou no site, há varios quereres imagináveis:

– ele quer comprar um produto X da marca Y
– ele quer comprar um produto da categoria Z, seja de que marca for
– ele quer encontrar ofertas
– ele quer saber o que há de novo
– ele quer acompanhar o pedido que fez

… e por aí­ vai. A loja, por sua vez, tem seus quereres:

– quer vender
– quer que o usuário compre
– quer que o usuário deseje comprar outros produtos
– quer que o usuário compre sempre dela
– quer que o usuário ajude a divulgá-la
– quer conhecer melhor o usuário
– quer que o usuário se sinta seguro
– quer que o usuário se sinta satisfeito
– quer que o usuário se sinta bem-atendido

… e a lista continua. E eu pergunto:

– esses quereres todos foram colocados como itens sine qua non do projeto?
– O design contemplou tudo isso?
– O resultado final viabiliza esses quereres todos?

Cada pergunta dessas diz respeito a uma etapa diferente do design: planejamento, desenvolvimento, implementação. Depois que o projeto está no ar, não dá mais para querer uma coisa que não foi colocada expressamente na fase de planejamento. Se o layout que você encomendou veio diferente do esperado, será que você expressou corretamente o que queria? A busca do site funciona como o usuário espera ou o cliente queria que funcionasse?

Eu escrevi esse artigo porque queria deixar claro um ponto: ou aprendemos a expressar o que queremos e a lutar por isso, ou vamos ter dores de cabeça sempre. E isso ninguém quer, quer?

Imaginação Fértil

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artigo para revista Webdesign

– Calma. Vamos rabiscar no papel, antes.

Ele me olhou com estranheza. O software já estava ali, engatilhado, pronto para receber de braços abertos nosso furor criativo, nosso í­mpeto realizador, nossa… precipitação desastrada.

Quando o assunto é criar, somos como maus amantes: partimos para as vias de fato sem cerimônia alguma, sem preliminares, sem nada.

Dá para se conceber assim? Claro que dá, mas prepare-se para um gestação tumultuada e um parto sofrido. O mal dos softwares autorais é esse: eles te enganam.

Nenhum photoshop, dreamweaver, powerpoint te pergunta: “O que você quer de mim?”. Que nada: em todos eles começamos com a cabeça tão vazia quanto a tela nova.

Para alguns processos “autorais” isso pode ser um bom começo. Se você for um poeta beat, se você for um James Joyce reencarnado registrando seu stream of conciousness, se você for um Pollock e quiser jogar coisas a esmo para ver no que dá…

Nesses casos o processo “vamuquivamu” pode ser esplêndido, mas se for essa a sua praia eu te sugiro procurar outra revista (ou um articulista menos crica).

Essa liberdade infinita que um software nos dá mascara uma limitação básica: aquele software é capaz de cuspir alguns tipos de coisas, mas quem garante que são as coisas de que precisamos? A solução para o seu problema pode não ser um JPG, pode ser um email bem estruturado. A chave para resolver uma questão pode ser um mero telefonema, e não uma campanha elaborada de email marketing. Ou pode ser… não fazer nada a respeito.

Por isso é bom parar por um momento, levantar da sua baia e ir buscar lápis e papel para rabiscar um esquema realmente inovador.

Inovação nasce assim, nasce fora dos caminhos batidos. Grandes idéias são grandes já no rascunho, em rabiscos feitos no guardanapo do restaurante. Se depois disso você vai usar o software X ou Y, macs ou PC’s, tanto faz. Ou você acha que “Garota de Ipanema” foi escrita usando a última versão do Office num Tablet PC wireless na mesa do bar?

Softwares viciam a gente. Nunca vou me esquecer de uma frase colada no monitor de uma colega, anos atrás: “De tanto carregar um martelo, você acaba achando que tudo é prego”. Well, acho que a frase era mais bem construí­da, mas você pegou a idéia: nem tudo se traduz em planilhas, em classes Java, nem sempre a solução é um repeteco do que você sempre fez.

Anos atrás, o que eu mais ouvia era: “Preciso aprender internet… Que curso de Flash você me recomenda?”. Era de arrepiar. E dá-lhe gente disparando SWF pra todo lado, como se a panacéia universal fosse interatividades misteriosas e sons em loop.

Por sorte a paisagem hoje é outra, e não faltam boas opções para quem quer “aprender internet”. Mas o problema persiste: e se a solução não for só internet? Se pensarmos só em termos de internet, como vamos criar aquilo que virá depois da internet?
Há alguns anos todo projeto mirabolante pressupunha que nosso futuro era a atrofia completa, uma humanidade sentada, com nariz colado em monitores e sorrindo por emoticons. Felizmente alguém teve a saudável percepção de que somos bí­pedes, gregários, afetivos, e que celulares com câmera poderiam ser mais libertadores e revolucionários do que um hipercomputador no meio do living.

Alguns softwares, porém, te ajudam a pensar, a organizar melhor as idéias. Eu sou um dependente terminal do MindManager (http://www.mindmanager.com), que me permite primeiro organizar pensamentos soltos e depois agrupá-los, conectá-los e enfim exportá-los em vários formatos diferentes.

Há também o The Brain (http://www.thebrain.com) ou o Inspiration (http://www.inspiration.com), ou mesmo os outliners do Word ou Powerpoint. O mais importante, seja qual for a ferramenta, é que você conceba algo abrangente, consistente, bem costurado, e que só então você decida qual a melhor maneira de realizar a o que você imaginou.

Namore muito sua idéia, muito. Só assim vamos fazer nascer projetos que fecundem pessoas, que nos tornem mais férteis.

Como Pegar um Beija-Flor

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artigo para revista webdesign

OK, isso não é coisa pra se perguntar assim do nada, mas a questão quase me acerta na testa mal eu abro a porta, e voilá a dita ave em pânico se debatendo contra o teto, paredes, um furacão azulado sem freios nem juí­zo.

Rapidamente notei que alguém já estava se dedicando a esse problema filosófico de maneira bastante atlética, e antes que ele literalmente matasse a charada, tirei meu gato de cena. O pobre passarinho não tinha sete vidas, enfim.

Como se pega um beija-flor?, pensava eu quebrando a cabeça enquanto o pobre bicho quase quebrava a própria. De sopetão? De tocaia? Com as mãos? Com uma rede? Perto de uma criatura tão delicada eu me senti um godzilla tosco. E pensar que ele descendia de dinossauros, e não eu.

O que tem essa história a ver com nosso métier, afinal? Well, pra mim tem. Se você já teve que cativar corações e mentes e fazer com que um projeto online fluí­sse, sabe do que estou falando. Colaboração é avis rara, ave… do paraí­so, quase.

Desenhar uma arquitetura, definir um fluxo de trabalho não é bicho de sete cabeças. Difí­cil é fazer sete bichos humanos não baterem cabeças ao trabalhar em conjunto.

Muitos idéias interativas brilhantes nunca decolam porque dependem de uma integração, de uma colaboração, de uma espontaneidade impensáveis em condições normais de temperatura (baixa) e pressão (alta). As pessoas se entocam, viram porco-espinho e os projetos atrofiam.

Gente é um bicho estranho mesmo: um mero boato faz com que cordeiros virem lobos, e o que era uma alegre colméia vira ninho de vespas. A mera suspeita de uma mudança de organograma é capaz de deixar gente sênior tão atarantada quanto meu beija-flor na cozinha. É só passar o perigo, porém… que todos somos golfinhos brincalhões de novo.

Projetos de internet não escapam dessa selva. Qualquer projeto online, qualquer mesmo, sacode estruturas. O mundo não é empresas de um lado, pessoas de outro, com a internet servindo de ponte. O mundo real é feito de feudos, tribos, tramas, times rivais e outras encrencas numa cartografia intrincada e, pior de tudo, invisí­vel. Você só percebe que existia uma fronteira depois que pisou no campo minado.

Information highway? Eu só vejo buraqueira, semáforos quebrados e gente em fila dupla.

Mas… qual a saí­da? Engrenar a tração nas 4 rodas e forçar o motor? Acredite: a menos que você queira fundir motores e cérebros, não.

A primeira medida é… medir o terreno. Avalie muito bem quais são os interesses em jogo, que resultados são realmente crí­ticos e quais os fatores que podem levar o projeto à ruí­na. Falta de verbas? Custo crescente? Estouro de prazo? Refaça a tua rota para não ficar no mato sem cachorro.

Segunda medida: casting. Como numa peça de teatro ou filme, um projeto online precisa de atores, gente que reme, fique no timão, gente que ice as velas. Investigue com carinho se as pessoas são aptas a tocar esse barco.

OK, a essa altura teu projeto já tem motor, airbags, piloto, navegador e o tanque cheio de combu$tí­vel. Mas que o impede essa turma de desencanar e ir para o litoral norte ser feliz? Simples: envolvimento. Eis aí­ nossa ave fugidia, nosso beija-flor assustado.

Todo começo de projeto online parece sala de aula: sempre um ou dois levantam a mão ansiosos por responder, enquanto uma turma enorme faz cara de paisagem. Teu projeto também vai ter um ou dois entusiastas, mas ainda falta cativar o resto das tribos.

Aí­ está o segredo: as malditas tribos.

Mas por mais que a gente se feche em tribos (atendimento x criação, comercial x desenvolvimento, TI x marketing), tribos são feitas de pessoas, e pessoas são muito mais ricas e complexas e interessantes do que um mero rótulo. Veja teus amigos no orkut: você sempre se surpreende por descobrir que um conhecido teu, de outra tribo completamente distinta, também está na comunidade eu adoro pizza amanhecida. Quem diria… Outro colega teu de departamento, tí­mido e fechado, é popularí­ssimo numa comunidade forrada de conhecidos do outro andar. Ora vejam…

Se você criar oportunidades e propiciar o clima adequado, as pessoas saem da toca e criam novos laços, novas afinidades, e perdem a vergonha de levantar a mão e vir à lousa.

Não é fácil não, mas compensa. É um processo delicado, que requer sensibilidade, justiça e alguém que transite livremente. Mais importante ainda: alguém que saiba reconhecer, valorizar e incentivar as atitudes pró-ativas, generosas. Em pouco tempo surge algo definitivamente maior que a soma das partes: colaboração, sinergia, fecundidade.

Vale a pena. Eu juro que vale. Digo isso com uma gata rajada se espreguiçando ao meu lado, gata sem dono que inexplicavelmente confiou em mim, entrou conosco no chalé e passou boas horas no meu colo diante da lareira. Um dengo. Que diferença do meu gato maldoso que quase enfartou um beija-flor desnorteado.

Falando nele… como eu peguei o beija-flor? Nem sei. Sentei por uns bons trinta minutos ali, tranqí¼ilo, esperando que em algum momento ele se acalmasse e aceitasse minha mão. Uma bela hora eu lhe estendi com calma um apoio, ele pousou ali e eu lentamente o levei até a janela. Lá se foi ele.

Deve haver outras maneiras, imagino. Mas isso é o que eu soube fazer: me desarmar e estender a mão.

Os dinossauros acabaram virando pássaros. Se você facilitar, pessoas também criam asas.