a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Lenda viva, muito viva

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artigo para revista webdesign

A lenda é mais ou menos assim: na legendária aula inicial, o grande mestre distribui a seus discí­pulos (todos novatos) folhas de papel e diz Construam. E sai.

O desafio era heróico. A escola era, afinal, lendária, seus professores idem, e muitos do que saiu dali (homens e idéias) mudariam o mundo.

Quando o mestre volta há uma torre Eiffel de papel, uma catedral gótica de papel e… algo inusitado: um grupo dobrou uma folha em V, inverteu-a e a apoiou na mesa, como uma tenda. Comparado aos outros projetos, é quase uma afronta.

O mestre disse:

– Catedrais góticas são o apogeu da pedra. É a construção mais luminosa, mais vertiginosa que jamais se fez em pedra. A torre Eiffel, por outro lado, é o triunfo do ferro: só quando dominamos os segredos do ferro pudemos fazer uma estrutura assim. Já essa tenda de papel, tão singela, explora aquilo de que só o papel é capaz: ser dobrado com as mãos e sustentar sua forma com leveza e graça.

Os outros dois grupos tentaram usar o papel para imitar outros materias. Já esse grupo entendeu a natureza do papel e a expressou com perfeição.

Não sei se você já pensou nisso, mas quando se começa a trabalhar com internet o que te jogam na mão é mais delicado que papel: um material tênue, flexí­vel, quase transparente. E aí­, o que dá para fazer com isso?

Assim como com o papel da lenda, dá para se fazer muita coisa, sobretudo besteiras. Nos primórdios, quando conexão de 28k era um luxo, já se faziam shockwaves elaborados, streaming video, audio, games em java… Imagine, então, quando tivermos banda larga, pensava-se.

Em pouco tempo construir passou a ser… usar flash. Que maravilha! Originalidade, impacto, complexidade, tudo isso sem pesar as toneladas de antes. Agora sim estávamos fazendo coisas interativas sem ter que esperar pela terra prometida… da banda larga.

Assim como o guru da lenda, eu já fazia meus apartes: coisas pesadonas assim, imersivas, multimí­dia, são usos pobres dessa novidade. Isso CD-ROM já fazia, TV já fazia, rádio já fazia… e melhor. Usar internet pra isso é fazer catedrais de papier-maché, é usar internet como cano estreito para despejar conteúdo. E sonhar com banda lardar era ficar fascinado com o dedo que aponta a lua, e não ver a lua.

Um dia os Google’s, Yahoo’s, Radio Userland e Orkut’s da vida nos deram um tapa na cara dizendo acordem, manés. Diante de nossos olhos estavam enfim usos inteligentes, bem-bolados, elegantes de tudo aquilo que esse nosso papel hiper-dobrável era capaz de fazer.

Mas afinal… do que esse nosso papel é capaz?

Ele é capaz, sobretudo, de criar pontes. No nosso ofí­cio, só cria ilhas quem quer ou está mal-informado. E, claro, só está mal informado quem quer.

Aprender a lição desses mestres não é fácil não.

Por exemplo: RSS. Eu demorei um bom tempo para entender que diabos era isso, mas hoje todos os meus blogs estão compatí­veis. Idem para podcasting: meu audioblog também está preparado. Quem quiser acompanhar o que eu publico, é só usar um bom leitor de RSS (tem pra windows, mac, pocketpc, palm…).

Pra descomplicar: RSS é uma maneira de você disponibilizar conteúdo. Eu publico um post no meu blog, e automaticamente ele gera um arquivinho com um resumo do que eu publiquei. Esse arquivinho sempre fresco pode ser lido e importado de um monte de jeitos. Se você usa o blogger, ou usa o movable type, ou muitas outras soluções de publicação, elas geram RSS automaticamente. E para você acompanhar vários RSS ao mesmo tempo, eu sugiro o Awasu, gratuito e legal (www.awasu.com)

Uma vez que meus blogs e coisas online todas estavam compatí­veis com RSS, criei uma página que mostra de uma só vez, automaticamente, as últimas novidades de todos os meus blogs. Eu publico uma foto nova? Aparece lá. Um post novo? Idem. Quem quiser ter uma visão geral do que eu ando fazendo, vê tudo no www.usina.com/varal.

Mais: quem quiser inserir no seu próprio site chamadas para o que eu publico, é só usar meus RSS também.

Quer ver quem faz isso em larga escala? O Yahoo. A home do My Yahoo permite você adicionar blocos de conteúdo de outros sites. Basta eles gerarem… RSS. Veja o site da BBC. CNN. Veja o site… da MSN. Todos eles tem um linkzinho em algum lugar para o RSS. Veja que belo esforço o do projeto RSSficado (http://www.rssficado.com.br )

Eu fico encantado: conteúdo sendo distribuí­do e publicado e trocado e disponibilizado automaticamente, seja para que plataforma for, seja para que sistema for. Pessoas misturando conteúdos de todo canto, pessoas disponibilizando seu trabalho em todas as direções. A tal da web finalmente começa a ter cara de… spider web.

Procure descobrir mais sobre RSS. Aventure-se, explore. Vale a pena.

Voltando à nossa lenda: a escola era a Bauhaus em Weimar, Alemanha. O mestre? Josef Albers. Quando? Lá se vão oitenta anos mais ou menos. O prédio em que você está, a cadeira em que você se senta, tua caneta, muito do nosso repertório cotidiano vem de lá. Pesquise na Wikipedia, vale a pena (www.wikipedia.org , outro belo projeto colaborativo).

Gosto muito dessa lenda. Lenda boa é assim: não tem gnomos, princesas nem bruxos. Lenda boa tem homens, coragem e, sobretudo, a esperança de um final feliz para muita gente. Isso sim é mágico.

Minha Teia 2.0

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O Tarzan deve morrer de inveja do Homem-Aranha: o cara clica num botão e zás, sai um cipó automático limpinho para se baloiçar sobre abismos. Assim é fácil.

Para piorar a raiva, a selva de pedra tem mocinhas muuuito mais
interessantes do que a Jane e a Chita. Sem platéia feminina de que adianta desfilar saradão e seminu pela floresta, afinal? Uma banana pra esse mascarado, deve grunhir o homem-macaco.

É curioso que um dos super-heróis mais queridos seja… uma aranha. Imagine você convencendo um cliente ou chefe de que um homem-inseto que sobe pelas paredes e lança teias vai ser um estrondo comercial. Faça isso hoje e o cara ou te demite ou pede antes um focus-group, que vai optar fragorosamente pelo Iridiscente Homem-Borboleta. Só o Stan Lee mesmo para emplacar uma idéia improvável dessas.

Mudemos da Cartoon Network pro Discovery Channel: o forte das aranhas não é o bungie-jumping. Aranhas vivem por um fio, mas um fio que tece teias. O bichinho escolhe um canto e vai pacientemente esticando, prendendo, enredando, até que uma teia complicada e invisí­vel fique estendida no ar. Como um certo senhor barbudo, ao final da criação ela descansa.

Descansar é modo de dizer: na ponta de suas patas os fios tensos vão dando notí­cia se o almoço chegou ou não. Um tremelique nervoso no setor XYZ é a sineta do lanche: ela corre para o ponto exato antes que o almoço escape.

Biologices à parte, vou confessar uma coisa: pela primeira vez em anos eu vejo sentido nessa história de falar em web. Que web é teia em inglês não é novidade, mas antes o que me vinha a cabeça era uma teia mundial de computadores interligados e zunindo, e a metáfora não me comovia muito.

Tudo mudou, ou melhor, tudo está mudando muito rápido. A teia agora é outra. Eu posso escolher quais são as fontes de notí­cia e informação mais relevantes para mim e concentrá-las todas numa página só, ou em um único software. Eu bato o olho ali e vejo o que tem de novo em N fontes diferentes.

Como a aranhazinha, sem sair do lugar eu fico ligado em mil fios que me anunciam as novidades. E tudo o que eu produzo, de podcasts a blogs passando por minhas fotos, tudo pode ser importado nas teias alheias.

Como isso é possí­vel? RSS.

Não, RSS não quer dizer “risos”. RSS é tão fácil que é até divertido, mas é algo bem sério. RSS (real simple syndication) foi um recurso criado anos atrás para facilitar a distribuição de informações.

Eu atualizo meu podcast “roda e avisa” =(https://www.usina.com/rodaeavisa) e automaticamente um arquivinho é gerado com o resumo das mudanças. Esse arquivinho de nada é que permite que pessoas do mundo todo “acompanhem” as coisas que eu publico sem ter que visitar minha página.

(Confira http://pt.wikipedia.org/wiki/RSS para ver mais detalhes, é bem bacana)

Preste atenção em grandes sites de notí­cias, em bons blogs e portais: você vai ver que em algum lugar vai ter um botãozinho escrito RSS, ou XML, ou FEED. Esse botão tem um link, e esse link você pode adicionar à tua teia pessoal de interesses e fontes de notí­cia.

Quer ver um bom exemplo? A CNN oferece inúmeros feeds:
http://www.cnn.com/services/rss/

Outro exemplo: ontem me indicaram um blog bárbaro de um americano
super-antenado: http://jeremy.zawodny.com/blog/. Como o blog dele
tinha RSS, adicionei-o imediatamente à  minha página agregadora e
pronto: agora ele faz parte da minha teia, ou melhor, da minha web.

OK, agora todos nós temos “sentidos de aranha”, todos nós lançamos teias num duplo-clique. Isso o Peter Parker já tinha. Mas temos uma vantagem sobre o CDF solitário: somos milhões de aranhas, milhões, cada uma construindo sua própria web, cada uma produzindo e pendurando na teia para todas as outras aranhas, cada uma aliando forças com outras aranhas e montando sua própria rede de comunidades e trabalho.

Para nós que trabalhamos com essa selva de teias, qual o impacto? O que muda? Vamos ter que repensar nossa maneira de fazer sites, de criar serviços, de pensar em ações de comunicação?

Sim, e rápido. A menos que queiramos ficar de tanga escutando gorilas