a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Cativar e Cativeiros

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Se me apresentarem uma top model nesse exato momento eu vou ficar sem palavras. Calma, calma, não é que eu não saiba o que dizer diante de uma mulher bonita, até sei (venho praticando faz décadas). O problema é que eu sou de outra época, do tempo das misses, e todas as misses tinham algo em comum: liam O Pequeno Príncipe, do Saint Exupéry.
Palavra! Era uma unanimidade!
“Qual seu livro predileto?”
“O Pequeno Príncipe”, dizia a Pequena Princesa com um Grande Sorriso, Pequeno Biquini e Grandes… Atributos.
De duas uma: ou ler aquele livrinho transformava garotinhas em mulheres monumentais ou… aqueles monumentos ainda eram mentalmente garotinhas (o que não parecia incomodar quase ninguém).
Uma coisa, porém, havia de incomodar rapazes galantes mais cedo ou mais tarde: a letal e inelutável frase “tu te tornas eternamente responsável por quem cativas”. Argh. Argh argh. Maldito príncipe.
O principezinho loiro, entretanto, tinha lá sua razão. Crie um projeto “web 2.0”pra você ver.
Eu conto a historinha: o site do seu cliente era um planeta isolado e frio perdido nos confins da internet brasileira. Aí você, lindo e loiro e com uma casaca azul-cobalto, propõe a ele: plante no seu planetinha uma semente do baobá da web 2.0. A semente vai vingar rápido e crescer crescer crescer…
Well, melhor que pé-de-feijão mágico, esse baobá. E, para sua alegria, o baobá 2.0 cresce que é uma beleza. Cresce tanto que… well, você lembra no que dá, confesse!!! O baobá fica descomunal e quase engole o planetinha.
Opa, me empolguei, não era essa a historinha não, era a de cativar e tal. Mas tudo bem, a do baobá também ajuda.
Falemos de cativar: antenadíssimo com todo o papo de web 2.0 você cria um espaço social colaborativo etc etc etc. Como você é um cara talentoso e tal, o espaço social “bomba”: um monte de gente se envolve, participa, publica, convida amigos e tal. Vamos bem! Mas… vamos para onde?
Pois é: você cativou pessoas. Agora, quer você queira (o que eu duvido) quer não (o que eu aposto), você é responsável por elas. Melhor dizendo: elas acham que você é responsável e isso basta. Basta para um desastre iminente.
Exagerado, eu? Deixe rolar, então, e espere para ver que gracinhas de feedbacks você vai ter no dia em que o baobá 2.0 ficar maior do que teu tempo, tua grana ou tua capacidade de lidar com, literalmente, tantos galhos. Eu posso dizer por experiência própria: a hora que teu espaço social começar a derrapar e você não conseguir desacelerar nem segurar o volante, você vai perceber (tarde demais) que valeria a pena ter investido em air bags, suspensão, bons pneus e, sobretudo, seguro. Mas agora é tarde. Você vai ter que gastar com gerenciamento de crises, PR e, provavelmente, terapia.
Analogias e parábolas à parte, a questão é: qual teu plano a médio e longo prazo para tua aposta em mídia social? Lembre-se que pessoas vão investir seu tempo e afeto, lembre-se que vão se apegar ao serviço, leve em conta (e isso é absolutamente crítico) que as pessoas vão projetar seus anseios, fantasias e desejos sobre você. Lembre-se que esse voto de confiança é incondicional e muitas vezes cego, e que em muito pouco tempo ninguém mais vai se lembrar de como era a vida antes, como era a vida sem o teu serviço, e logo logo vai parecer que aquilo que para você representa um custo danado de manutenção é tão natural e gratuito quanto o sol nascer e se por.
Usuários não querem saber se teus servidores não deram conta, se teu modelo de receita era capenga ou se tua aplicação não escala. Eles não querem saber se a única maneira de manter o serviço é mudar o serviço. Você os cativou, e este é teu cativeiro.
Há saída para isso? Well, lembrando de personagens, dá para ser um pouco menos “Don Juan”, o rei da conquista, e ser mais maduro e pensar no “futuro da relação”. Eu te garanto que uma postura dessas há de fazer o maior sucesso com mulheres de verdade. E com clientes também.
E, afinal… Who misses the Misses?

Um Minuto da Sua Atenção

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Um professor muito saudoso lá da ECA dizia pra gente: quando você for pensar numa história pense primeiro no fim. Dica sábia que não vou esquecer nunca, muito embora eu não a aplique quase nunca e continue escrevendo de orelhada artigos sem pé nem cabeça.
Desta vez decidi fazer diferente e pensar primeiro no fim. Well, não preciso dizer que durou pouco: mil digressões e delírios e acabei pensando… no meu próprio fim, tema não muito pertinente numa revista de webdesign. Se bem que design vem de desígnio e desígnio pressupõe finalidade que pressupõe um fim e… pronto, lá vou eu de novo em viagens sem fim.
Pelo fim, pelo não talvez valha a pena facilitar a vida dos CSI futuros e dar algumas pistas da minha causa mortis caso ela não seja óbvia. Primeira dica: confira a câmera. É capaz que eu tenha tentado de novo fotografar uma frase de pára-choques de caminhão, não tenha parado nada e… me choquei. Segunda dica: confira meu Zune. É possível que eu, numa atenção irrefreável a um podcast genial, não tenha ouvido a freada fatal. De uma maneira ou de outra seriam finais felizes, enfim.
Agora mesmo vinha ouvindo um podcast do Think, um programa de uma rádio texana chamada KERA. Eles estavam pedindo doações dos ouvintes, que é a maneira como muitas rádios públicas absolutametne geniais (National Public Radio – NPR, American Public Media – APM) sobrevivem. Para o meu deleite eles estavam fazendo um pot-pourri de entrevistas antológicas começando pelo Gene Wilder, ator genial e comediante impagável.
Entrevista muito tocante, daquelas pra não ouvir tocarem buzinas nem xingarem esse pedestre incauto. Num dado momento Gene Wilder conta que, aos 11 anos, viu pela primeira vez sua irmã atuar num palco. Gene se encantou: enquanto sua irmã atuou não se ouviu um pio, um ruído, nada. Atenção absoluta. Um milagre. Gene ficou tão arrebatado que foi pedir ao professor de teatro da irmã que o aceitasse como aluno. Atuar era algo divino. Ele tinha onze anos. Teve que esperar até os treze. O resto é história.
Parei (não no meio da rua, por sorte) e pensei: eureka. Divino não é atuar, o milagre do teatro não está no ator. A magia não está no palco. Mágico mesmo é que pessoas parem, deixem de lado o resto do mundo e concedam àquele acontecimento breve uma atenção sem fim e, mais do que isso, que concedam ao ator a sua confiança e credulidade totais.
Sem essa doação, sem essa entrega completa da platéia nenhum ator é Rei Lear. Sem essa concessão temporária, sem essa suspensão breve das regras cotidianas não há “Vestido de Noiva”. A mágica só acontece porque nós somos capazes de parar o mundo e ouvir.
Nosso trabalho não é diferente. Um site de banco só é um site de banco se cada um de nós acreditar nele da mesma maneira que acreditamos no banco. Ler blog só presta para alguma coisa se acreditarmos que o autor… presta. Um podcast, um site, um vídeo só têm um mínimo de realidade se as pessoas pararem o que estão fazendo, silenciarem o seu mundo e prestarem atenção em você. Senão, meu caro, são apenas palavras, palavras, palavras. Ou bytes, bytes, bytes.
Em outro momento da entrevista a apresentadora pergunta ao Wilder: por quê você é engraçado? Ele, com uma franqueza desconcertante conta uma história de infância, uma história pungente, mas logo depois admite: não sabe. Ele é engraçado porque as pessoas acham graça nele.
Se pensarmos por que razão as pessoas acham tanta graça num serviço online e não em outro vamos certamente arriscar inúmeras razões técnicas, negociais, artísticas, mas razões talvez não expliquem a emoção que está investida ali, o valor que aquele serviço representa para cada um, o tempo que cada pessoa reservou para aquele produto e não outro. A razão está fora da nossa cabeça, está no coração alheio.
Faz tempo que eu bato nessa tecla: estudemos sim, aprendamos sim, mas tenhamos sempre a humildade e a gratidão de reconhecer que sem a audiência, sem o carinho, sem o investimento afetivo, sem a doação da mercadoria mais rara –a atenção dos nossos usuários – tudo o que fazemos não tem vida alguma. E fim.

Nem Mais Nem Menos

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Eu gosto de histórias em quadrinhos. Gosto mesmo. Daqui da poltrona vejo na cabeceira alguns livros do Laerte (adoro Laerte), uma biografia do Kafka desenhada pelo Crumb, vejo um Sandman… Eu gosto de quadrinhos.
Quadrinhos, quando eu era criança, deixavam adultos de cabelo em pé.
— É perda de tempo!
— Emburrece!
— Vai ler livro de verdade, menino!
Eu lia livros de verdade, oras. Continuo lendo. Livrarias são minha perdição deliciosa, e não faz nem três dias que eu estava com quilos de livros nas mãos diante de um leitor de código de barras vendo o preço de cada um. Um Umberto Eco, dois Cortazar no original, uma Hannah Arendt, uma coletânea de cartoons da New Yorker… Aquela montanha de letrinhas foi sendo traduzida numa bola de neve de números e, por fim, deixei os livros lá com dor no coração. Nem passei pela seção de quadrinhos pra não sofrer mais. Estava no meio de uma viagem, afinal, com grana contada e mala cheia. Fica pra outra hora.
Os quadrinhos e livros me vieram à cabeça por um bom par de razões. Primeiro por serem mídia impressa, por serem “antiquados”. Segundo por terem peso, ocuparem espaço. Terceiro por terem preço, por custarem dinheiro. Quarto por terem um autor, alguém que tenta ganhar seu pão criando conteúdo. Quinto por serem experiências ricas e imersivas e transformadoras, mesmo sendo low-tech, e aí está para mim o ponto principal: num mundo em que more is more, em que limites parecem ter desaparecido, a máxima (ou seria mínima?) “less is more” ainda continua sendo o máximo. Pra dizer o mínimo : )
Sem fazer pouco do “less is more”, porém, eu quero mais. Embora muita coisa no mundo se resuma a somar ou subtrair, aquilo que realmente conta é multiplicar. Criar é multiplicar. Inventar é multiplicar. Compartilhar, mesmo que pareça dividir, é multiplicar. Coisas realmente vivas e vitais dão vida, são fecundas, lançam sementes pra todo lado. E sementes são uma invenção extraordinária, uma bolotinha de nada que tem dentro de si girassóis, carvalhos gigantes, pés de maçã, árvores fantásticas que vão crescer pelo tempo afora zipadinhas e codificadas numa pelotinha dorminhoca.
Você já parou pra pensar que uma semente é código? Que DNA é código? Que você é do jeito que é porque isso foi codificado láááá atrás por um óvulo e um espermatozóide? Dá o que pensar, não? Noventa e tanto dos átomos do teu corpo vão ser trocados em alguns anos. Ninguém vai perceber, porque o teu código não mudou. Se mudar, corra pro médico aliás.
Well, voltemos pra história dos livros. Daqueles fatores que mencionei quatro deles parecem pecado: são físicos, ocupam espaço, não são grátis e, pra complicar, tem alguém cobrando por eles. Por quê isso virou pecado hoje eu não sei, não consigo entender, sobretudo porque pecado, para mim, não tem nada a ver com preço, peso, ou outros valores numéricos. Pecado pra mim é não dar valor àquilo que matemática alguma leva em conta: o valor da experiência fecunda. E experiências fecundas não se criam somando um montão de vídeos e animações e efeitos e firulas. Experiência fecunda não é estufar a pança com junk food, é buscar o que te alimenta e o que te enriquece os sentidos.
Se eu procurar alguém para contratar eu não quero alguém que tenha visto todos os vídeos do Youtube ou leia todos os blogs pessoais ou tenha jogado finalizado os games x, y, z. Isso é achar que acumular e somar e amontoar dão algum resultado. Well, dão sim: obesidade mental mórbida. Pior: estar a par de tudo não te garante idéias ímpares. Pelo contrário: você dificilmente vai escapar da maldição do “mais do mesmo” (obrigado, mestre Laerte).
Livros e quadrinhos, essas coisas antiquadas, têm uma feature avançadíssima que a tecnologia demorou pra imitar: pausa. Livro você pausa, pensa, relê. Para ler um bom livro você aperta PAUSE na tua correria e cria um tempo especial para uma experiência que vai reprogramar o código da tua mente. Um bom poema é mágico para sempre, sem envelhecer jamais.
Um adendo: Neil Gailman, o criador genial do Sandman, escreve as histórias à mão. Computador, segundo ele, facilita demais a dispersão. Uma procuradinha na internet, um clique à toa e lá se vão horas embora sem proveito algum.
Se você não souber reprogramar tua mente ela vai fazer o mesmo que o teu código genético: vai reproduzir mais do mesmo até morrer. E quem só faz mais do mesmo morre sem deixar nada fecundo.
Que bom que você está lendo esta revista. Bom sinal.

First life first

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Para onde o sono me leva eu nunca sei, mas a volta eu bem conheço: o despertar passa sempre por um breve limbo, um mergulho no amorfo, bons segundos em suspenso até que eu aceite, quer queira quer não, que acordei na mesma cama, no mesmo quarto e que o sol, ainda mais teimoso que eu, vai nascer lá no seu canto sem maiores cerimônias.
Dez anos atrás era assim. Daqui a mais dez anos também. Hoje, porém, desligo o alarme do smartphone, confiro a hora, e ainda na cama dou uma breve olhada nos meus emails. Se eu descuidar da agenda, o que não é incomum, uma voz metálica há de me avisar a tempo: weekly conference call in thirty minutes. Ou vai me alertar, impecável, que tenho uma high priority message from… minha chefe. Ou, do chuveiro, vou ouvir alguém me ligar e o danadinho dizer call from fulano de tal. Nem me preocupo, o fulano pode me deixar recado; se ele me ligou no escritório e deixou mensagem, seu recado vai virar um arquivo de áudio e eu o recebo anexado por email, para escutá-lo quando quiser. Sem stress.
Há dez anos acordar não era assim, eu não “ouvia vozes”. Como acordarei em 2017?
Outro dia, num evento da Microsoft, estava eu com meus pares (outros User Experience Evangelists) refletindo sobre o futuro, sobre como a tecnologia haveria de se desenvolver, sobre tendências e tal. Pensou-se de tudo um pouco, e o exercício foi bom. Foi tão bom que me peguei pensando cada vez mais no futuro e no presente e sobretudo no passado, em épocas onde o nosso entorno não era assim tão acolhedor. Água? Tinha que buscar. Fogo? Tinha que fazer. Chão? Cuidado onde pisa. Céu? Uma caixinha de surpresas. Dia? Labuta. Noite? Perigos. Partir era morrer um pouco, e na dúvida melhor levar cantil, punhal, carne seca e fósforos. Ups, não havia fósforos.
Hoje, felizmente, tem uma padaria bárbara na esquina e só não vou de chinelos porque, well, detesto chinelos. Mas eu bem que podia. Se eu levar o celular e uns trocados já estou coberto. Levo minha câmera por vício, e meu canivete suíço por sentimentalidade.
Progresso é isso: algumas gerações de tecnólogos e pronto, o mundo nos envolveu como um útero elétrico com torneiras, tomadas, asfalto e amenidades ao alcance da mão. Não preciso levar um arsenal comigo. Basta um smartphone e meu escritório me acompanha no bolso. Levo na palma da mão o conhecimento quase inteiro da humanidade a um search de distância numa telinha colorida. Um pequeno peso extra no bolso me tira dos ombros o fardo de memorizar, saber, lembrar, me preocupar constantemente.
E daqui a dez anos? Vou andar carregado de mais gadgets por todos os bolsos apitando e piscando e vibrando e ficando sem bateria, como uma árvore de natal fantasiada de robocop? Ou (e essa é minha aposta) vamos andar cada vez mais desarmados, despreocupados, cada vez mais humanos? Well, não sei quanto a você, mas pra mim futuro não tem cara de second life nem de metaversos, futuro pra mim é first life first. E cada vez mais versos :^)
Podem me mandar pra terapia, podem me acusar do que for, mas eu quero mais é que o mundo seja a minha, a tua, a nossa ostra. Compromissos? Agenda? Lembrar aniversários e contas a pagar? Isso eu relegarei de muito bom grado à meu “rené virtual”, um agente virtual que há de ficar lá na second ou third life cuidando dos meus problemas quietinho e só há de me avisar para coisas do tipo:
– René, agora que chegamos em Madri e que você tem a tarde livre e o tempo será belíssimo, que tal assinarmos durante a sua estada um serviço local de dicas de entretenimento e cultura? Ele é gratuito se você aceitar sugestões personalizadas de compras nas imediações em que você estiver. Vamos testá-lo?
Eu vou aceitar prontamente e vou ficar muito feliz quando meu second-rené me disser:
– Que bom que você aceitou o serviço, porque hoje há uma feira de livros antigos no caminho do Museu Reina Sofia e basta esperar o ônibus ali na esquina e eu te aviso quando saltar. Essa feira está super bem cotada este ano. Aliás, quer que eu compartilhe com seus amigos onde você está e mande suas fotos?
Como meu “anjo da guarda” vai falar comigo? Imagino que… de todas as maneiras. Se eu colocar meu fone de ouvido (como o headset Bluetooth que tenho hoje) eu o escuto e ele me escuta. Se eu preferir, posso continuar interagindo com ele no meu celular por voz, e vendo imagens na telinha. Se eu precisar de um display maior, eu transfiro a conversa para qualquer computador conectado. A mesma experiência, a mesma riqueza de interação em qualquer interface que eu escolha, o tempo todo, quando e somente quando eu quiser. Alguém desenvolveu algum plug-in ou mash-up de algum serviço bacana? Eu o adiciono ao meu second-rené como o adiciono ao meu perfil no facebook. Um universo inteiro de Interoperabilidade e Open Standards e serviços plug-and-play para nossos eus virtuais num mundo de augmented reality e pervasive computing.
Que meu second-rené cuide de tudo enquanto eu faço o que ninguém pode fazer por mim: viver. Enquanto isso não vem, vou matutando em como há de ser desenhar experiências de usuário num cenário desse tipo. Vá pensando também, antes que outro designer de carne e osso pense antes de você ;^)

Milhões não são Megas

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Interessante… nunca começo um artigo pelo título. Muitas vezes inicio sabendo como quero terminar, por vezes só sei como começar, mas o título quase sempre só aparece nos 45 do segundo tempo, quando estou prestes a enviar o que escrevi sem rascunho nem nada. Hoje, curiosamente, não: o título me pulou no colo mal pulei da cama.
Eu poderia usar outros, claro. Por exemplo: “Por onde anda Belchior?” me ocorreu logo em seguida, mas fiquei com receio de que alguém respondesse e eu tivesse que optar entre um Belchior real, concreto e sabe-se-lá-fazendo-o-quê e meu Belchior particular, o cara que colocou na voz da Elis “Como nossos Pais”. Como sou um cara meio sentimental, vou preservar meu Belchior criogênico lá no fundo da memória e do coração.
Por que lembrei da Elis e dessa canção? Talvez porque, como já cantou a própria Elis, eu tenho mais de vinte anos, eu tenho mais de mil perguntas sem resposta (belíssima canção, procurem). Talvez porque me caiu a ficha (e lá vai Elis de novo) que
“você não sente e não vê mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo”
que
“o que há algum tempo era novo e jovem, hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer”.
Êta nóis, acordei saudosista hoje.
Saudade do quê, afinal? Do tempo em que cantávamos todos “Uma nova mudança em breve vai acontecer” e achávamos que a tecnologia iria nos redimir, nos salvar, nos levar pela mão para longe da lama rumo a um éden onde em se clicando, tudo dá? Pode ser. Hoje olho em volta e noto que, apesar da internet ter se tornado tão onipresente e invisível quanto o ar que se respira, a gente não conseguiu escapar de um inimigo mais onipresente e invisível ainda: as nossas idiossincrasias.
Na faculdade ensinam pra nós que cada povo tem sua maneira de ver e entender e se relacionar com o mundo, e que isso se chama cultura (ué, mas cultura não era aquela televisão que passava coisas “culturais”? …) . Na cultura esquimó há N palavras pra cor branca, pois eles distinguem N tipos diferentes de branco, enquanto nós, brancos ou não, só vemos um brancãozão. O mesmo com índios brasileiros: Y palavras diferentes para tons de verde. E por aí vai, bom assunto pra mesa de bar. Poucos, porém, param pra pensar que isso vale pra todo mundo, incluindo este que vos fala e vós que me ledes (ups, como soa estranho).
Pois é, aí está meu ponto: o tempo passou, o tempo voou e continuamos prisioneiros de alguns vícios de comportamento e de mentalidade que só nos atrapalham. O problema é que falar de ética e moralidade e cultura é algo complicado, sonífero, faz todo mundo abandonar artigo no meio. Mais ou menos como “programas culturais”. Muda aí logo o canal pra videocacetadas! (eu detesto)
Mas, como diriam os melhores infomercials (eu adoro informercials), seus problemas acabaram! Chega de carregar um arsenal de ferramentas e questionamentos e critérios! Leve agora o canivete suíço de todas as incertezas, a silver-tape de todas as dúvidas, a pergunta de UM MILHÃO… de vezes!
A pergunta é: e se isso for feito um milhão de vezes?
Pronto. Taí a pergunta de um milhão de dólares. Ou um bilhão. Ou de 150 milhões de pessoas. Ou de um bilhão de internautas. E se isso for feito um zilhão de vezes?
Você, por pressa, vai acochambrar um código? Você, por preguiça, vai publicar um site com um formulário mal elaborado? Você, por comodismo, jogou no colo do usuário final uma solução chata de usar, intrincada e mal-acabada? Que mal há nisso, afinal? É uma vezinha só, não é?
Não. Não é.
Essa decisão meio vergonhosa, aquele “deixa-quieto” que você não gostaria de assumir em público, esse “é só desta vez” que você imagina que ninguém vai perceber vai ser repetido e repetido e repetido e usado e usado e reusado milhões de vezes por zilhões de pessoas. E em cada uma dessas vezes elas vão xingar você.
Pense sempre: isso vai ser repetido um milhão de vezes. User-experience ruim elevada a enésima impotência.
Pense nisso ao fazer design, ao fazer código, ao bolar a experiência do usuário, na hora de comprar software, antes de piratear, antes de mandar emails, antes de postar no blog… Como seria o mundo se isso que você está prestes a fazer fosse repetido um milhão, um bilhão de vezes por todo o mundo?
Um milhão de bytes é um megabyte. Um milhão de usuários é um milhão de pessoas como eu e você, com nome e sobrenome.
(Para algumas perguntas dessas nem precisa imaginar muito: é só olhar em torno, é só ligar a tevê, é só pensar em Brasília… “Cultura”de uma nação dá nisso, nossa miséria vem daquilo que é feito por todos um milhão de vezes e ninguém nem percebe mais)
Aliás… acaba de me ocorrer uma tese: se você quer saber onde se escondem seus vícios ocultos, é só reconhecer onde você anda em círculos e pronto, a mania está lá no centro, num ponto eqüidistante de todas as decisões meia-boca.
Eu sei que muitos dos nossos vícios culturais e profissionais são parte de nós, foram passados de pai pra filho com muito empenho, que a gente até acha graça em algumas das nossas “espertezas”. Eu também me apego a algumas manias, assim como me apego a um Belchior imaginário. Mas, citando o bardo,
O presente, o corpo, a mente é diferente e o passado é uma roupa que não nos serve mais.