a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Silêncios Reunidos

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artigo para webinsider, abril de 2004

Curso de lí­ngua é assim, você acaba tendo que ler livros que não leria espontaneamente ou que talvez nem descobrisse sozinho, e foi assim que li uma historia estranhí­ssima, passada numa estação de rádio. O tí­tulo era algo como Das gesammelte Schweigen des Doktors…”, nem me lembro mais.

Um dos personagens da história produzia um programa de entrevistas, e guardava escondido numa caixinha inúmeros tecos de fita magnética, daquelas de rolo, todas elas organizadas, etiquetadinhas, coisa de alemão mesmo.

Cada tequinho continha… um silêncio de alguém, e nas etiquetas lia-se fulano de tal pensando antes de responder sobre a dolorosa questão X, ou pausa de sicrano antes de entender a piada Y e finalmente rir . Silêncios com CIC e RG.

Você, leitor assí­duo do webinsider, colecionou sem querer um trecho autêntico de silêncio meu, e uma boa etiquetinha seria: rené pensando por meses em algo que valesse a pena ser dito.

Vale alguma coisa um bom naco de silêncio? É por quilo, por hora, por metro quadrado?

Silêncio pode não ter preço, mas tem custo, e eis aí­ o que me finalmente tirou do mutismo: quanto custa o que nunca é dito? Quem paga essa conta?

Ops… isso não é justo. Demorei meses para chegar a essa pergunta, e não é nada legal jogá-la assim na mesa sem uma introdução sequer. Comecemos então, pelo que é legal.

Ser brasileiro é bem legal. O clima é legal, a comida é legal, a música é super legal. Trabalhar com internet também é muito legal, é ou não é?

Pode responder que não, fique à vontade. Eu sei que não é legal falar das coisas ruins, não pega bem. É chato ser chato. Nada é mais chato do que você perguntar e aí­, tudo legal? e o cara dizer que não, e ainda por cima explicar.

Pois bem: eu sou meio chato. Assumo. Volta e meia piso na bola. Pago o preço por ser meio mala, recebo em troca silêncio, no máximo um eco ou outro.

Colocar problemas debaixo do tapete, contudo, pode até deixar a festa mais bonita, mas uma hora a gente tropeça no calombo.

De que problemas estou falando? Vou falar de novo da dificuldade quase incontornável de se trabalhar legalmente, ou seja, pagando os impostos, licenciando softwares, pagando salários decentes? Ou vou de novo reclamar de quem conta milagres mas não conta os santos, muito menos os demônios? Deixa pra lá, isso já falei.

O que pega pra mim agora é nosso jeito legal de trabalhar: informalmente, sem método, no improviso, sem documentação decente, sem definições claras de escopo, de contrato, nada. Super legal, não? Pra mim não.

Chame-me de chato, mas chato mesmo é ter que adivinhar o que é para ser feito, ou ter que adivinhar como algo foi feito, ou ter que resolver no grito, na porrada, algo que poderia ter sido definido tranqí¼ilamente no começo do trabalho.

Isso é tão chato, mas tão chato que ninguém nunca comenta, e tanto faz se vai acontecer tudo de novo, porque no final a gente se vira, o outro cara se vira, o fornecedor se vira, e no final o site vai pro ar (ou o banner, ou o hot-site, ou seja o que for). Tirando os mortos e feridos, salvam-se todos.

É um jeito de se trabalhar. O trabalho sai, não sai? Então. Mas estamos sempre reinventando a roda, andando em cí­rculos, girando em falso, e não é pra menos que para qualquer veterano da área a impressão é que, apesar dos anos todos, avançamos muito pouco.

Sabe onde avançamos? Nos lugares onde se criaram processos bacanas, documentos e metodologias de primeira, onde profissionais compartilharam seus erros e acertos, onde se deu um passo adiante na direção da transparência, da qualidade, da ética.

Resolver coisas no improviso não deixa história, não cria cultura, não deixa legado. Jeitinho não faz nação, nem que tenhamos mais 500 anos pra tentar.

Well, meu negócio é outro. Legal para mim é deixar legado.

Cultura útil?

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Acabo de mandar mais um artigo pra WebInsider, e as usual publico aqui na usina também. O tí­tulo é “Cultura Útil?”, e tem a ver com a influência da cultura local no webdesign. espero que vcs gostem

Cultura útil?

Dizem que muitos dos filmes B americanos, aqueles com tí­tulos bizarros como O Retorno do Monstro de Lixo ou O Ataque das Traças Gigantes, nasceram primeiro como cartazes. Um maluco fazia um poster delirante com aranhas descomunais e mulheres peitudas em pânico, e se ficasse legal faziam um filme barato.

Deve ser lenda, sei lá. Mas algumas das minhas maiores influências culturais são obras que só conheço pelo tí­tulo. Uma delas, que jamais li nem vi, seria uma obra acadêmica do nosso ex-presidente FHC, chamado A Originalidade da Cópia. Parece, tudo indica, tenho a impressão e acredito que o assunto seja o seguinte: mesmo quando alguma coisa é copiada, chupada, imitada de um modelo estrangeiro, é inevitável que essa cópia tenha um toque local.

Algo me diz que o FH estivesse pensando em modelos sócio-econômicos. Acho. Mas essa idéia vale pra praticamente tudo que nós aqui, abaixo do equador, copiamos do primeiro-mundo, da calça jeans ao webdesign. Tudo fica mais moreno e rebolante quando vem pra cá.

Essa noção já se insinuava pra mim quando comecei a perceber a reação virulenta que alguns gurus como Jakob Nielsen provocavam por aqui. Embora internet seja global e tal, embora usemos todos as mesmas ferramentas no mundo todo, o webdesign brasileiro incorporou com a maior naturalidade coisas absolutamente tupiniquins. Começamos a fazer uma internet mais pra Joãozinho Trinta do que pra Googles e Amazons. Nessas bandas daqui, quem gosta de usabilidade é intelectual. O resto quer luxo só.

Estou carregando nas tintas, claro, mas vi ontem um artigo (esse eu li!) com um tema fascinante: o quanto as diferenças culturais de cada paí­s se refletem no webdesign. O artigo está na New Architect, e mostra alguns extremos interessantes. Um deles compara dois sites similares em conteúdo, mas que no Panamá (paí­s mais autoritário que a média) fica completamente diferente de um análogo na Holanda, nação mais easy-going na relação com o poder. Belo artigo, merece ser lido. Eu fiquei tão entusiasmado que até comprei o livro em que o estudo se baseia. Prometo passar do tí­tulo, aliás.

E falando em outra obra que me marcou profundamente sem nunca eu ter passado na porta do cinema, Flertando com o Desastre é tudo. Belí­ssimo tí­tulo. Serve pra muita coisa em internet por aqui, onde, como nos filmes B, muita coisa nasce e se vende pela direção de arte.

Diário de Bordo

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San Francisco, Califórnia
– Vocês estão procurando algo? Posso ajudá-los?
Tirei meus olhos do mapa amarrotado e ali estava ele, sorridente. Perguntei por uma casa vitoriana XYZ que deveria ficar nas imediações. O moço a conhecia sim, era na rua de cima à esquerda, coisa simples. Agradeci pela solicitude e hospitalidade e pensei comigo: esse cara é o Google 2.0.

Miami, Flórida
Vishal me deu uma carona. Veeranna também veio conosco. No carro, comentávamos felizes o jantar indiano comme il faut que Lalitha nos oferecera. Perguntei ao Vishal se ele gostava da cidade, se ele gostava da América. Enquanto dirigia pela noite tranqí¼ila, me disse que tanto fazia Miami, San Diego ou qualquer outra cidade, dava mais ou menos na mesma. Encontrar lugar para morar, achar trabalho, fazer compras, dirigir, tudo na vida cotidiana era o mesmo, tudo funcionava igual. Sistema americano foi a palavra que ele usou. Você pode mudar de cidade sem pestanejar, porque o sistema é o mesmo. Insisti: vocês não estranham nada?.
– Claro! As maçanetas. Aqui são ao contrário!
Rindo, Veeranna acrescentou:
– Os interruptores também! Aqui são de cabeça para baixo!

São Paulo
– Rua Manoel Maria Tourinho? Deixa comigo.
Pacaembu eu conhecia bem. Aquilo era um labirinto, ruazinhas sinuosas serpenteando bairro adentro num traçado perverso que eu só aprendi depois de anos morando na área. De casual, porém, o desenho do bairro não tinha nada: foi um truque urbaní­stico para que as ruas não virassem um corredor de tráfego, para que as casas ficassem sossegadas numa ilha impenetrável aos motoristas de fora.

Adoro cidades. Adoro. E quanto mais eu trabalho no digimundo, mais eu vejo que estamos de novo erguendo cidades, metrópoles, bairros, malls… sem tijolo algum. Cidades Invisí­veis, do Calvino, está ganhando um adendo. (Você não leu? Leia. Releia.)

Esse paralelismo cidades x internet me fascina faz um bom tempo. A primeira coisa que me ocorreu foi mais pobre, porém: pensava no quanto webdesign e arquitetura eram parecidos: a home e a fachada, o sitemap e a planta, e por aí­ vai. Não é de se espantar que se fale em arquitetura de informação, afinal.

A analogia não ajuda muito, porém: se você quiser fazer sua casa redonda, é problema seu. O vizinho fez uma palafita? Azar o dele. A casa em frente vai ser inteira cor-de-rosa, paredes e teto? Sorte sua que você não vai morar lá.

Muito do que se fez de webdesign, no começo, era assim: cada site era a cara do dono, cada site era original, homes competiam em originalidade e impacto.

Algo, felizmente, nos salvou desse festival de bizarrices. Google. E por três razões.

Primeira razão: sites demais. Antes dava para navegar a esmo, checar alguma lista de hot links e topar com o que você queria. Agora não dá mais.

Segunda razão: se o conteúdo do teu site é invisí­vel para o Google (arrá!!! Quem mandou fazer em flash?), teu site vai passar batido, a menos para internautas paranormais.

Terceira razão: uma busca no Google traz dezenas de resultados. Se tua página for bizarra, se não for imediatamente compreensí­vel e usável, o usuário clica, rejeita, volta atrás e tenta outro mais fácil.

Adeus condomí­nios fechados. Adeus aldeiazinhas e tribos. Adeus ilhas da fantasia. Google é o novo Robert Moses do digimundo. (Não sabe quem é? Confira… no Google)

Hoje não penso mais em arquitetura. Hoje penso em urbanismo. Na minha cabeceira, hoje, está Vida e Morte das Grandes Cidades, da Jane Jacobs. Meus assuntos de interesse, hoje, são softwares sociais, padrões emergentes e, como sempre, usabilidade.

Cidades são complexas. Cidades são imprevisí­veis. Cidades desafiam qualquer tentativa de controle. Internet é igual: o email favelizou-se, sites de banco são fortalezas anti-fraude, o Orkut já não é mais entre amigos, homes são pichadas por vândalos.

Como evitar que a internet degenere? Como criar ambientes online que sejam dignos, que enriqueçam a vida das pessoas? Como tornar a vida digital mais humana? Como usar esse universo em favor da democracia e liberdade? Como desarmar o egoí­smo para que a colaboração floresça?

Essas são as questões que eu me coloco hoje, seja ao esboçar um novo projeto, seja na escolha de um ou outro layout, seja na hora de comprar um gadget. É isso que me orienta quando modero uma comunidade.

Pensar grande não é pensar pirâmides ou monumentos. Pensar grande é pensar em como manter as calçadas do digimundo gostosas, seguras, e plurais.

Essa é a nossa natureza.