a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Os intocáveis

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Eu estava prestes a começar este artigo dizendo “você que gosta de idiomas…”, mas me toquei a tempo que pouca gente tem apreço por lí­nguas. Deletei tudo, e recomecei com “você que lida muito com estrangeiros…”. Deleta deleta deleta. De volta ao cursor piscando no iní­cio de uma página branca.

É raro eu travar. Normalmente eu saio escrevendo/palestrando/gravando sem o menor embaraço, e as idéias vão se concatenando naturalmente, haja vista/ouvido o improviso do podcast Roda e Avisa (https://www.usina.com/rodaeavisa ) .

Um tema, porém, quebra essa regra. Se eu não esvaziasse a lixeirinha do meu desktop ela pareceria hoje um cesto de papéis de escritor empacado, coberta por folhas amassadas atiradas com fúria.

Que tema é esse? Simples: o que não se diz. Ponto. Complicadí­ssimo, o tema.

Falemos de fotografia, então, pra facilitar. Todo mundo tem câmera, e todo mundo gosta de uma boa foto, não? Pois bem, comecemos por aí­.

Câmeras retratam a realidade, certo? Câmeras não mentem.

Olhemos então aquele teu álbum de viagem. Monumentos, belas paisagens, momentos dignos de uma foto, pessoas posando. ílbum é sempre assim. Agora reveja as fotos e me diga: o que não aparece?

Enquanto você digere a pergunta, eu dou uma pista: câmeras têm lentes, e com lentes você enquadra. Quando você enquadra algo, seleciona o que vai aparecer… e o que não vai aparecer. A menos que você ande fazendo fotos em 360 pelo mundo… o que aparece é uma fração bem pequenina comparado com o mundão que não aparece.

Você fotografou o mendigo? O prédio feio? As pessoas infelizes? O céu chuvoso? A sua mala bagunçada? Provavelmente não. Isso não é coisa que se mostra normalmente, e a gente nem registra na memória.

(Paulistanos como eu são PHD nisso: conseguem não-ver o caos e enxergar só o que é bacana na cidade, vide http://www.flickr.com/photos/renedepaula)

Deve fazer parte da nossa natureza “maquiar” a realidade e deixar de lado coisas que “não ornam”. Isso é sinal de urbanidade e educação, inclusive, e cada cultura ou lí­ngua (lá venho eu com idiomas e gringos de novo) lidam de maneiras diferentes com isso. Em alguns paí­ses é inadmissí­vel se falar da vida í­ntima, em outros ninguém tem pudor em dizer que teu cabelo está horrí­vel.

Varia muito, mas uma coisa é certa: algumas coisas nunca são ditas. Outra coisa é certa: isso tem um preço, um preço que pagamos a prazo porque não enfrentamos as coisas à vista.

Nosso ofí­cio interativo não escapa dessa sina, e a prova é: estamos sempre tropeçando da mesma maneira, vamos sempre ter os mesmos problemas. E, se tudo no mundo tem uma causa, problemas repetidos só podem ser… efeito de causas crônicas.

E como algo que causa problemas pode ser crônico? Simples: porque não se fala dela. Não pega bem. Não é “legal”. Nesse assunto ninguém toca.

Tem gente que (sobre)vive disso: você já deve ter visto um “intocável”, uma daquelas figuras que orbitam em torno desse área fortificada. Sempre tem: por vezes os criativos são intocáveis, por vezes os engenheiros, por vezes os “chegados” do chefe.

Nem tudo que é intocável, porém, tem que ser eterno. Muitas vezes os nossos monstros sagrados são tigres de papel, basta um assoprão e eles somem da nossa vida. E é pensando nisso, nesse exorcismo dos nossos fantasmas crônicos é que eu sugiro um remédio importado: o post-mortem.

Post-mortem é um apelido dado a uma avaliação do que foi bom ou ruim durante um projeto. Acabou o projeto? Post-mortem nele.

Quer tentar fazer? Acabo de fazer um bem simples: cada um dos envolvidos listou ao menos três coisas que foram ótimas, três que foram boas e três que foram ruins. Um coordenador vai juntar tudo isso, consolidar e compartilhar com todos. De um post-mortem simples assim pode nascer um plano para que os erros não mais se repitam e também para que inovações positivas sejam incorporadas ao processo.

Simples. Transparente. Mas levemente arriscado, também: um brasileiro pode se magoar porque o estrangeiro não teve papas na lí­ngua, ou um outro latino pode ter sido mais passional do que devia, ou… Ok, lá venho eu de novo com lí­nguas e culturas 🙂 Que mania.

Aponte minhas manias por favor, não tem problema. Aponte-as ou… vou repetir a dose nas próximas edições 🙂

Olha que coisa mais linda…

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artigo para a revista Webdesign

No aeroporto em Amsterdam, no elevador em Nova York, num táxi decrépito, em botequins vazios… Encontrar com ela é sempre mágico, inexplicável, e lá fica você de coração mole, cantarolando junto: a beleza que não é só minha…. Essa canção é cidadã do mundo.

A moça do corpo dourado do sol de Ipanema arranca suspiros até de quem não tem idéia do que seja Ipanema, Viní­cius, Tom, e seu mundo se enche de graça e fica mais lindo mesmo em lí­nguas estranhas e arranjos idem.

Graça é uma palavra interessante. Há coisas que você não quer nem de graça, outras te deixam sem graça e, sim, ela é uma graça por graça dos céus. Sempre coisa boa, graça, mas a Graça mesmo é cruel: ou se tem ou não se tem.

Beleza bisturi ajeita. Conteúdo escola dá. Mas graça, mesmo, é uma Graça, uma benção, algo que separa a bonitinha, tadinha da criatura graciosa e encantadora que virou canção e lenda.

A gente fala tanto em beleza, aspecto e nem pára pra pensar que se tem algo que enchemos a boca para dizer é gostoso: Gostosa!.

E vá você definir gostoso: é algo como a graça. Nem é questão de perfeição, é uma dádiva.

Quer ver algo gostoso? Google. É uma delí­cia. Instant messenger é gostoso também. Um site como o Orkut é super gostoso. Estão aí­ milhões de usuários para assinar embaixo.

Como você explica algo gostoso? Ou, pior ainda: como você faz o digimundo mais gostoso?

Vou ser sincero: ainda não descobri. Eu persigo essa quimera faz anos, e o mais perto que cheguei foram vislumbres de como fazer coisas não-gostosas.

Procuremos, então, o caminho da Graça no beco dos erros e desvios.

Contemple o abismo: de um lado você tem o usuário, que vai ou não achar gostoso o, digamos, website.
Do outro lado você tem uma turba de designers, desenvolvedores, marketeiros, gerentes de todo tipo, alguns deles clueless, outros com mais certeza do que deveriam. Acredite em mim: são esses hiper-convictos que fazem o abismo crescer.

O problema de quem acha que enxerga claramente a soluçãoé que nem sempre what HE sees is what YOU get. Da inspiração genial até chegar a algo concreto é uma corrida de obstáculos, onde a tal da idéia pode tropeçar tanto que vai chegar aos cacos lá na ponta. Se chegar.

Por que é tão acidentado o caminho da Idéia? Eu arrisco dois palpites: idéia que nasce tão distante darealidade, lá nos pí­ncaros da imaginação iluminada, talvez só funcione bem no ar rarefeito do Olimpo. Aqui no mundo dos mortais ela vai ser tão desengonçada quanto o albatroz do Baudelaire.

Segundo palpite, e o real motivo deste artigo todo: idéias têm pernas curtas. Você tem que levá-la pela mão, carregá-la no colo, ensiná-la a olhar onde pisa, a usar passarelas. Se você deixar uma idéia ir solta, ela se perde.

Se você não cuida do destino da sua idéia, surge o inferno de qualquer projeto interativo: a expectativa de que os outros… adivinhem.

O fornecedor tem que adivinhar o que o cliente quer, o designer tem que adivinhar como funciona o cliente do cliente, o desenvolvedor tem que adivinhar o que aquele photoshop lindo realmente tem que fazer e quem for consertar, pobre diabo, pior ainda: vai ter que fazer engenharia reversa ao cubo. Pior que o mapa do inferno é um inferno sem mapas. Voilí .

Resultado: um site que que ninguém consegue adivinhar como funciona, se é que funciona. Você já passou por isso, e sabe que não tem graça.

As garotas em Ipanema talvez sejam graciosas por serem brasileiras, mas a nossa ginga nacional não ajuda muito quando o assunto é projeto: adoramos ter idéias, mas não achamos graça na lição de casa, temos birra do trabalho metódico, da documentação, de especificações, de tudo que garanta que a idéia não perca o rebolado na areia movediça que é qualquer desenvolvimento.


Isso é chato.
Isso não tem graça.
Processo é pra quem não sabe improvisar, pra quem não tem jogo de cintura.
Não tem por quê stressar, no final tudo dá certo.

A cada vez que ouço no final dá certo, minha resposta sempre é: defina final. Você se livrar de uma etapa não é final nenhum, é na verdade o começo da etapa seguinte, e coitado do infeliz para quem você passou uma bola quadrada: vai ter que adivinhar, tapar buracos, prender com fita crepe e dar forward do mico. No final das contas, o resultado é beeeem diferente da idéia, com qualidades de menos e defeitos a mais.

Se a gente pusesse na balança esse jeito gostoso de trabalhar versus a ressaca inevitável, o stress, o desperdí­cio gerado, o resultado mambembe… mas não fazemos isso nunca, porque achamos que tudo sai de graça, que faz parte, e que no final risadas gostosas resolvem tudo.

Resultado: estamos sempre reinventando a roda, estamos sempre começando do zero, não deixamos nunca um legado, uma herança, algo que nossos sucessores possam tomar como base e avançar. Eles têm que se virar.

Nosso usuário acha gostoso ter uma experiência tranqí¼ila, fluida, encantadora, assim como o rebolar despreocupado da garota de Ipanema. Projetos mal gerados e mal geridos podem até se sacudir, mas como diria minha avó: por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

Silêncios Reunidos

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artigo para webinsider, abril de 2004

Curso de lí­ngua é assim, você acaba tendo que ler livros que não leria espontaneamente ou que talvez nem descobrisse sozinho, e foi assim que li uma historia estranhí­ssima, passada numa estação de rádio. O tí­tulo era algo como Das gesammelte Schweigen des Doktors…”, nem me lembro mais.

Um dos personagens da história produzia um programa de entrevistas, e guardava escondido numa caixinha inúmeros tecos de fita magnética, daquelas de rolo, todas elas organizadas, etiquetadinhas, coisa de alemão mesmo.

Cada tequinho continha… um silêncio de alguém, e nas etiquetas lia-se fulano de tal pensando antes de responder sobre a dolorosa questão X, ou pausa de sicrano antes de entender a piada Y e finalmente rir . Silêncios com CIC e RG.

Você, leitor assí­duo do webinsider, colecionou sem querer um trecho autêntico de silêncio meu, e uma boa etiquetinha seria: rené pensando por meses em algo que valesse a pena ser dito.

Vale alguma coisa um bom naco de silêncio? É por quilo, por hora, por metro quadrado?

Silêncio pode não ter preço, mas tem custo, e eis aí­ o que me finalmente tirou do mutismo: quanto custa o que nunca é dito? Quem paga essa conta?

Ops… isso não é justo. Demorei meses para chegar a essa pergunta, e não é nada legal jogá-la assim na mesa sem uma introdução sequer. Comecemos então, pelo que é legal.

Ser brasileiro é bem legal. O clima é legal, a comida é legal, a música é super legal. Trabalhar com internet também é muito legal, é ou não é?

Pode responder que não, fique à vontade. Eu sei que não é legal falar das coisas ruins, não pega bem. É chato ser chato. Nada é mais chato do que você perguntar e aí­, tudo legal? e o cara dizer que não, e ainda por cima explicar.

Pois bem: eu sou meio chato. Assumo. Volta e meia piso na bola. Pago o preço por ser meio mala, recebo em troca silêncio, no máximo um eco ou outro.

Colocar problemas debaixo do tapete, contudo, pode até deixar a festa mais bonita, mas uma hora a gente tropeça no calombo.

De que problemas estou falando? Vou falar de novo da dificuldade quase incontornável de se trabalhar legalmente, ou seja, pagando os impostos, licenciando softwares, pagando salários decentes? Ou vou de novo reclamar de quem conta milagres mas não conta os santos, muito menos os demônios? Deixa pra lá, isso já falei.

O que pega pra mim agora é nosso jeito legal de trabalhar: informalmente, sem método, no improviso, sem documentação decente, sem definições claras de escopo, de contrato, nada. Super legal, não? Pra mim não.

Chame-me de chato, mas chato mesmo é ter que adivinhar o que é para ser feito, ou ter que adivinhar como algo foi feito, ou ter que resolver no grito, na porrada, algo que poderia ter sido definido tranqí¼ilamente no começo do trabalho.

Isso é tão chato, mas tão chato que ninguém nunca comenta, e tanto faz se vai acontecer tudo de novo, porque no final a gente se vira, o outro cara se vira, o fornecedor se vira, e no final o site vai pro ar (ou o banner, ou o hot-site, ou seja o que for). Tirando os mortos e feridos, salvam-se todos.

É um jeito de se trabalhar. O trabalho sai, não sai? Então. Mas estamos sempre reinventando a roda, andando em cí­rculos, girando em falso, e não é pra menos que para qualquer veterano da área a impressão é que, apesar dos anos todos, avançamos muito pouco.

Sabe onde avançamos? Nos lugares onde se criaram processos bacanas, documentos e metodologias de primeira, onde profissionais compartilharam seus erros e acertos, onde se deu um passo adiante na direção da transparência, da qualidade, da ética.

Resolver coisas no improviso não deixa história, não cria cultura, não deixa legado. Jeitinho não faz nação, nem que tenhamos mais 500 anos pra tentar.

Well, meu negócio é outro. Legal para mim é deixar legado.

Teste da Anta

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(artigo para a revista webdesign)

O site era bárbaro, ficamos todos boquiabertos. Nos idos de 98 não havia muitos sites como aquele. Hoje hot-sites de produto em flash e tal são carne de vaca, mas na época nem se falava em hot-site e as coisas eram feitas em shockwave mesmo.

Bacana mesmo é que o site era a cara do produto, um carro originalí­ssimo, bem-humorado, cool. Site legal, carro legal, tudo super promissor não fosse por um… alce.

Alce é um bicho descomunal, enorme, que faz vaca parecer pônei. Parece que tem muito nos paí­ses nórdicos, tem tantos que um dos testes de segurança para um carro é o “teste do alce”.

O teste é mais ou menos assim: você está numa estrada dirigindo feliz e contente em alta velocidade. E se um alce surge do nada?

Well, frente a essa pergunta o carrinho deu a resposta errada: capotou feio. Nem sei se o motorista se machucou, mas o acidente foi fatal pra carreira do modelo. Acho que agora relançaram e tal, vi um outro dia. Mas o alce deixou sua pegada na história automobilí­stica.

“E se…?” não é uma pergunta que brasileiros gostam de fazer. Deus é brasileiro, não é? Por que se preocupar?

Os crentes que me perdoem, mas internet é diabólica. Devia se chamar inFernet. Não há anjos da guarda, não adianta rezar, e nenhuma vela de sete dias espanta hacker.

Em suma: algo vai dar errado. Sempre. E é nessas horas que você distingue o bom profissional da anta: diante de um desastre, ele capota ou reage a tempo?

Por que erros acontecem tanto? Por conta da inelutável Lei de Murphy, “se algo pode dar errado, dará”? Sim, mas por outra razão mais positiva: a cada dia que passa, projetos interativos envolvem mais e mais “frentes”: email, call center, negócios, conteúdo, CRM… Cada frente dessas tem mil “alces” na tocaia.

Quer um exemplo? Você tem dois fornecedores “de internet” pra escolher. Cada um traz um projeto mais bacaninha que o outro. Como escolher? Joga um alce na pista:

– e se o projeto der super certo e tivermos milhares de usuários entrando ao mesmo tempo?

ou

– e se todos os visitantes ficarem tão impressionados que vão mandar zilhões de emails?

ou

– e se não dermos conta dos pedidos?

ou

– e se o seu designer ganhar um prêmio e mudar pra Londres?

ou

– e se eu quiser atualizar o site de meia em meia hora?

Como você pode ver, sucesso em excesso também dá encrenca. E por mais que os fornecedores prometam maravilhas, nem todos estão preparados para o tranco do “dar certo demais”

Se problemas vão acontecer quer a gente se previna ou não, porque a gente não relaxa de uma vez? Sim, você pode relaxar e gozar, mas de preferência bem longe de mim.

Problemas “conhecidos” a gente previne de saí­da. Experiências anteriores (e cicatrizes e calos) ajudam muito, mas um bom exercí­cio de “e se…” pode prevenir muita coisa.

Por exemplo: você recebe um layout todo diagramadinho, alinhadinho e tal. Com um pouco de imaginação, você se pergunta: e se esse texto for muito maior? E se a foto vier num tamanho maior? E se eu precisar tirar esse conteúdo no ar rapidamente? E se eu tiver que alterar alguma coisa no meio da madrugada? E se o usuário digitar errado o endereço? E se o usuário apertar o BACK? E se o usuário adicionar essa página ao bookmark? E se o usuário preferir telefonar?

Alces não faltam.

Há perguntas mais dramáticas: e se o fornecedor falir? E se tivermos problemas depois do projeto estar entregue? E se o fornecedor não cumprir o prometido? E se forem necessárias alterações? E se for preciso migrar de hospedagem?

Antes de se encantar com discursos “legais”, “cool” e “criativos”, veja se o airbag funciona. Ou então torça para criarem recall de profissionais com defeito de fábrica.

Paranóia? Não. Ter algo online é ter uma vitrine permanente, mas vitrines são de vidro. E atire a primeira pedra quem nunca capotou.