a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Pecado muito pouco original

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Onde quer que você olhe, a mensagem é uma só: você está frito. Melhor
nem ouvir a caixa postal. A caixa de entrada, então… pior ainda. E
só de pensar na gritaria que te aguarda nem dá vontade de sair da
cama, isto é, se é que você ainda consegue pregar o olho e dormir.

Bem-vindo à InFernet, onde demônios sem piedade te assam em fogo e enxofre.

Com o tempo você acostuma. Teu pai te pergunta: como vai o trabalho,
meu filho? Você responde: uma correria danada. E ambos sorriem, porque
sofrer é bom sinal.

Será que é? Eu acho que não. Eu tenho duas notí­cias, uma boa e outra dolorida:

Comecemos pela dolorosa: se você foi pro inferno, a culpa é sua e o
pecado é grave.

Doeu? Lamento.

Onde foi que você pecou? Well, posso arriscar?

O pecado mais vergonhoso é a Preguiça. Você sabe que um bom briefing é
importante, que documentar o que o cliente quer e espera é
fundamental, que você deve validar ponto por ponto o que foi
combinado, que deveria ter aprovado todos os detalhes do layout antes
de por a mão na massa, que deveria testar tudo antes de colocar no
ar… mas aí­ bateu a preguiça. “Para que perder tempo com essas
chatices?” “Eu sou um profissional de talento, não um burocrata…”
“Vamos queimar etapas!” E aí­ você se queima. Você que teve preguiça de
fazer a lição de casa vai arder por semanas nas chamas da refação.

Posso arriscar outra vez? Orgulho. Você que sabe tuuuudo de internet,
um cara antenado, descolado, geek, vai dar ouvidos a esse cliente sem
glamour? Quem é ele, afinal, para dizer se ficou bom ou não? Resposta:
ele é o cara que paga as tuas contas. Ele é o cara é o dono do negócio
e entende disso como ninguém. Se alguém deveria enfiar o rabo no meio
das pernas e aprender com humildade… é você. Ou então sua conta
bancária vai atravessar desertos tórridos implorando por uma gota
salobra de dinheiro.

Gula é outra desgraça. Confesse: você não resistiu e aceitou três
frilas ao mesmo tempo. A grana era tão boa! O cliente tão amigável!
“Eu me viro”, você imaginou, e acabou virando num espeto sobre as
lí­nguas de fogo dos clientes que você deixou na mão.

Avareza engana. Você faz as contas e parece lógico: por que perder
dinheiro com isso? “Eu faço isso sair de graça”. Faltou um S aí­: sai
deSgraça. Você não quis contratar um auxiliar, você não quis licenciar
um software, você não quis contratar um hosting decente? O dinheiro
que você economizou não paga o festival de dores de cabeça que te
espera: noites mal dormidas e o medo perpétuo de que alguém descubra
que o pecado maior foi a economia porca que você fez.

Ok, tudo bem, você não é um mão-de-vaca mesquinho. Você é generoso,
grandioso. Luxúria tem seu encanto, convenhamos. É charmoso viver à
larga. Até a hora em que o cliente te larga porque você estourou o
orçamento no meio do projeto. Como já dizia João Bosco, dinheiro na
mão é vendaval na vida de um sonhador, sobretudo se ele achar que
fazer contas é coisa de pobre.

Faltam dois pecados ainda, a inveja e a ira, mas vamos deixar isso de
lado, já estamos bem-servidos de tentações nesse jardim de delí­cias do
digimundo, onde tudo parece fácil, onde tudo dá para resolver com um
bom CTRL+Z.

Dá mesmo? Não, não dá.

Perder a confiança de um cliente é quase irreversí­vel. O estrago que
você provoca nos negócios alheios não tem volta. A mancha na tua
reputação não sai tão fácil. E aquela precaução que você não tomou não
tem remédio. Lamento, mas no mundo do trabalho não há perdão.

Perguntei a uma colega gringa como andava o trabalho. “Acabamos o
projeto e estamos fazendo o post-mortem”, disse ela. Post-mortem é um
jargão para uma análise de tudo o que deu errado em um projeto e
poderia ter sido evitado. Um bom post-mortem traz à luz um monte de
descuidos, ví­cios, acidentes, distorções. Dói, mas fica clarí­ssimo
onde não errar da próxima vez. Eu recomendo.

Eu prometi uma boa notí­cia, não? Lá vai: existe uma saí­da do Inferno.
Não entrar nele.

Cultura útil?

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Acabo de mandar mais um artigo pra WebInsider, e as usual publico aqui na usina também. O tí­tulo é “Cultura Útil?”, e tem a ver com a influência da cultura local no webdesign. espero que vcs gostem

Cultura útil?

Dizem que muitos dos filmes B americanos, aqueles com tí­tulos bizarros como O Retorno do Monstro de Lixo ou O Ataque das Traças Gigantes, nasceram primeiro como cartazes. Um maluco fazia um poster delirante com aranhas descomunais e mulheres peitudas em pânico, e se ficasse legal faziam um filme barato.

Deve ser lenda, sei lá. Mas algumas das minhas maiores influências culturais são obras que só conheço pelo tí­tulo. Uma delas, que jamais li nem vi, seria uma obra acadêmica do nosso ex-presidente FHC, chamado A Originalidade da Cópia. Parece, tudo indica, tenho a impressão e acredito que o assunto seja o seguinte: mesmo quando alguma coisa é copiada, chupada, imitada de um modelo estrangeiro, é inevitável que essa cópia tenha um toque local.

Algo me diz que o FH estivesse pensando em modelos sócio-econômicos. Acho. Mas essa idéia vale pra praticamente tudo que nós aqui, abaixo do equador, copiamos do primeiro-mundo, da calça jeans ao webdesign. Tudo fica mais moreno e rebolante quando vem pra cá.

Essa noção já se insinuava pra mim quando comecei a perceber a reação virulenta que alguns gurus como Jakob Nielsen provocavam por aqui. Embora internet seja global e tal, embora usemos todos as mesmas ferramentas no mundo todo, o webdesign brasileiro incorporou com a maior naturalidade coisas absolutamente tupiniquins. Começamos a fazer uma internet mais pra Joãozinho Trinta do que pra Googles e Amazons. Nessas bandas daqui, quem gosta de usabilidade é intelectual. O resto quer luxo só.

Estou carregando nas tintas, claro, mas vi ontem um artigo (esse eu li!) com um tema fascinante: o quanto as diferenças culturais de cada paí­s se refletem no webdesign. O artigo está na New Architect, e mostra alguns extremos interessantes. Um deles compara dois sites similares em conteúdo, mas que no Panamá (paí­s mais autoritário que a média) fica completamente diferente de um análogo na Holanda, nação mais easy-going na relação com o poder. Belo artigo, merece ser lido. Eu fiquei tão entusiasmado que até comprei o livro em que o estudo se baseia. Prometo passar do tí­tulo, aliás.

E falando em outra obra que me marcou profundamente sem nunca eu ter passado na porta do cinema, Flertando com o Desastre é tudo. Belí­ssimo tí­tulo. Serve pra muita coisa em internet por aqui, onde, como nos filmes B, muita coisa nasce e se vende pela direção de arte.