a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras

Olha que coisa mais linda…

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artigo para a revista Webdesign

No aeroporto em Amsterdam, no elevador em Nova York, num táxi decrépito, em botequins vazios… Encontrar com ela é sempre mágico, inexplicável, e lá fica você de coração mole, cantarolando junto: a beleza que não é só minha…. Essa canção é cidadã do mundo.

A moça do corpo dourado do sol de Ipanema arranca suspiros até de quem não tem idéia do que seja Ipanema, Viní­cius, Tom, e seu mundo se enche de graça e fica mais lindo mesmo em lí­nguas estranhas e arranjos idem.

Graça é uma palavra interessante. Há coisas que você não quer nem de graça, outras te deixam sem graça e, sim, ela é uma graça por graça dos céus. Sempre coisa boa, graça, mas a Graça mesmo é cruel: ou se tem ou não se tem.

Beleza bisturi ajeita. Conteúdo escola dá. Mas graça, mesmo, é uma Graça, uma benção, algo que separa a bonitinha, tadinha da criatura graciosa e encantadora que virou canção e lenda.

A gente fala tanto em beleza, aspecto e nem pára pra pensar que se tem algo que enchemos a boca para dizer é gostoso: Gostosa!.

E vá você definir gostoso: é algo como a graça. Nem é questão de perfeição, é uma dádiva.

Quer ver algo gostoso? Google. É uma delí­cia. Instant messenger é gostoso também. Um site como o Orkut é super gostoso. Estão aí­ milhões de usuários para assinar embaixo.

Como você explica algo gostoso? Ou, pior ainda: como você faz o digimundo mais gostoso?

Vou ser sincero: ainda não descobri. Eu persigo essa quimera faz anos, e o mais perto que cheguei foram vislumbres de como fazer coisas não-gostosas.

Procuremos, então, o caminho da Graça no beco dos erros e desvios.

Contemple o abismo: de um lado você tem o usuário, que vai ou não achar gostoso o, digamos, website.
Do outro lado você tem uma turba de designers, desenvolvedores, marketeiros, gerentes de todo tipo, alguns deles clueless, outros com mais certeza do que deveriam. Acredite em mim: são esses hiper-convictos que fazem o abismo crescer.

O problema de quem acha que enxerga claramente a soluçãoé que nem sempre what HE sees is what YOU get. Da inspiração genial até chegar a algo concreto é uma corrida de obstáculos, onde a tal da idéia pode tropeçar tanto que vai chegar aos cacos lá na ponta. Se chegar.

Por que é tão acidentado o caminho da Idéia? Eu arrisco dois palpites: idéia que nasce tão distante darealidade, lá nos pí­ncaros da imaginação iluminada, talvez só funcione bem no ar rarefeito do Olimpo. Aqui no mundo dos mortais ela vai ser tão desengonçada quanto o albatroz do Baudelaire.

Segundo palpite, e o real motivo deste artigo todo: idéias têm pernas curtas. Você tem que levá-la pela mão, carregá-la no colo, ensiná-la a olhar onde pisa, a usar passarelas. Se você deixar uma idéia ir solta, ela se perde.

Se você não cuida do destino da sua idéia, surge o inferno de qualquer projeto interativo: a expectativa de que os outros… adivinhem.

O fornecedor tem que adivinhar o que o cliente quer, o designer tem que adivinhar como funciona o cliente do cliente, o desenvolvedor tem que adivinhar o que aquele photoshop lindo realmente tem que fazer e quem for consertar, pobre diabo, pior ainda: vai ter que fazer engenharia reversa ao cubo. Pior que o mapa do inferno é um inferno sem mapas. Voilí .

Resultado: um site que que ninguém consegue adivinhar como funciona, se é que funciona. Você já passou por isso, e sabe que não tem graça.

As garotas em Ipanema talvez sejam graciosas por serem brasileiras, mas a nossa ginga nacional não ajuda muito quando o assunto é projeto: adoramos ter idéias, mas não achamos graça na lição de casa, temos birra do trabalho metódico, da documentação, de especificações, de tudo que garanta que a idéia não perca o rebolado na areia movediça que é qualquer desenvolvimento.


Isso é chato.
Isso não tem graça.
Processo é pra quem não sabe improvisar, pra quem não tem jogo de cintura.
Não tem por quê stressar, no final tudo dá certo.

A cada vez que ouço no final dá certo, minha resposta sempre é: defina final. Você se livrar de uma etapa não é final nenhum, é na verdade o começo da etapa seguinte, e coitado do infeliz para quem você passou uma bola quadrada: vai ter que adivinhar, tapar buracos, prender com fita crepe e dar forward do mico. No final das contas, o resultado é beeeem diferente da idéia, com qualidades de menos e defeitos a mais.

Se a gente pusesse na balança esse jeito gostoso de trabalhar versus a ressaca inevitável, o stress, o desperdí­cio gerado, o resultado mambembe… mas não fazemos isso nunca, porque achamos que tudo sai de graça, que faz parte, e que no final risadas gostosas resolvem tudo.

Resultado: estamos sempre reinventando a roda, estamos sempre começando do zero, não deixamos nunca um legado, uma herança, algo que nossos sucessores possam tomar como base e avançar. Eles têm que se virar.

Nosso usuário acha gostoso ter uma experiência tranqí¼ila, fluida, encantadora, assim como o rebolar despreocupado da garota de Ipanema. Projetos mal gerados e mal geridos podem até se sacudir, mas como diria minha avó: por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

Silêncios Esparsos

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artigo publicado no webinsider

Meses de silêncio, eu disse? Menti: nunca falei tanto. Se somar o que eu tagarelei nos últimos meses dava um compêndio ou, no mí­nimo, um dossiê psiquiátrico. Falei muito.

Você não ouviu? Não faz mal, eram delí­rios mesmo, idéias soltas que não tiveram força para mover meus dedos. Se fosse alguns séculos atrás valeria o verba volent, scripta manent, e as palavras voariam enquanto textos ficam.

As minhas palavras, porém, ficaram, voaram e se multiplicam nas asas do MP3, pousadas tranqí¼ilamente no Roda&Avisa, audioblog que foi minha válvula de escape nesses meses todos de abstinência articulí­stica.

Adorei a idéia. Achei que rich media seria uma maneira… mais rica de me expressar. Cada post improvisado, com seus sete minutos e pouco, continha muito mais elementos do que meras letrinhas e espaços em verdana font size 2.

Mais rico? Errei. Errei longe.

Riqueza mesmo não é timbre, timing, voz embargada. Rico mesmo é algo que só texto tem: entrelinhas.

Você me lê agora, e mesmo sem querer ouve uma voz, imagina um autor, me põe num cenário, e shazam! Eis um René tailor-made, exclusivo, personalizado, um René único entre inúmeros Renés diferentes, tão diferentes quanto são os leitores deste artigo.

Entrelinhas são a bruxaria do texto. Palavras são mera moldura: a natureza humana abomina o vácuo, e a imaginação é uma tapadora automática de buracos, completando elipses, preenchendo o não-dito, até que um bom slogan de meia linha vire um universo afetivo completo.

É por isso, talvez, que emails nos tocam fundo, que emoticons e abs e bjs e LOL nos sejam tão caros, tão vivos. Eles são caixinhas de entrelinhas, cápsulas de nada que enchemos com o carinho que precisamos tanto.

Texto a gente elabora, reescreve, repensa, e quando aquela colherada de letrinhas parte bits afora vai impregnada de humanidade, levando o melhor de nós. Voz não, voz vai saindo, voz trai a gente, engasga, desafina, e nunca vem a palavra correta, certeira, a palavra mágica.

Vejam os Orkuts, os Friendsters, os MatchMakers do digimundo: almas de todo canto compondo auto-retratos em letrinhas, mosaicos de fotos seletas, empacotando para presente o melhor de si, criando playgrounds para a imaginação alheia.

Linhas e entrelinhas e palavras são nossa teia, são com elas que capturamos uns aos outros. É nos vãos dessa trama que entretecemos sonhos comuns.

Eu não me iludo: metade do digimundo é fantasia. Mas me engana que eu gosto.

Cultura útil?

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Acabo de mandar mais um artigo pra WebInsider, e as usual publico aqui na usina também. O tí­tulo é “Cultura Útil?”, e tem a ver com a influência da cultura local no webdesign. espero que vcs gostem

Cultura útil?

Dizem que muitos dos filmes B americanos, aqueles com tí­tulos bizarros como O Retorno do Monstro de Lixo ou O Ataque das Traças Gigantes, nasceram primeiro como cartazes. Um maluco fazia um poster delirante com aranhas descomunais e mulheres peitudas em pânico, e se ficasse legal faziam um filme barato.

Deve ser lenda, sei lá. Mas algumas das minhas maiores influências culturais são obras que só conheço pelo tí­tulo. Uma delas, que jamais li nem vi, seria uma obra acadêmica do nosso ex-presidente FHC, chamado A Originalidade da Cópia. Parece, tudo indica, tenho a impressão e acredito que o assunto seja o seguinte: mesmo quando alguma coisa é copiada, chupada, imitada de um modelo estrangeiro, é inevitável que essa cópia tenha um toque local.

Algo me diz que o FH estivesse pensando em modelos sócio-econômicos. Acho. Mas essa idéia vale pra praticamente tudo que nós aqui, abaixo do equador, copiamos do primeiro-mundo, da calça jeans ao webdesign. Tudo fica mais moreno e rebolante quando vem pra cá.

Essa noção já se insinuava pra mim quando comecei a perceber a reação virulenta que alguns gurus como Jakob Nielsen provocavam por aqui. Embora internet seja global e tal, embora usemos todos as mesmas ferramentas no mundo todo, o webdesign brasileiro incorporou com a maior naturalidade coisas absolutamente tupiniquins. Começamos a fazer uma internet mais pra Joãozinho Trinta do que pra Googles e Amazons. Nessas bandas daqui, quem gosta de usabilidade é intelectual. O resto quer luxo só.

Estou carregando nas tintas, claro, mas vi ontem um artigo (esse eu li!) com um tema fascinante: o quanto as diferenças culturais de cada paí­s se refletem no webdesign. O artigo está na New Architect, e mostra alguns extremos interessantes. Um deles compara dois sites similares em conteúdo, mas que no Panamá (paí­s mais autoritário que a média) fica completamente diferente de um análogo na Holanda, nação mais easy-going na relação com o poder. Belo artigo, merece ser lido. Eu fiquei tão entusiasmado que até comprei o livro em que o estudo se baseia. Prometo passar do tí­tulo, aliás.

E falando em outra obra que me marcou profundamente sem nunca eu ter passado na porta do cinema, Flertando com o Desastre é tudo. Belí­ssimo tí­tulo. Serve pra muita coisa em internet por aqui, onde, como nos filmes B, muita coisa nasce e se vende pela direção de arte.

Diário de Bordo

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San Francisco, Califórnia
– Vocês estão procurando algo? Posso ajudá-los?
Tirei meus olhos do mapa amarrotado e ali estava ele, sorridente. Perguntei por uma casa vitoriana XYZ que deveria ficar nas imediações. O moço a conhecia sim, era na rua de cima à esquerda, coisa simples. Agradeci pela solicitude e hospitalidade e pensei comigo: esse cara é o Google 2.0.

Miami, Flórida
Vishal me deu uma carona. Veeranna também veio conosco. No carro, comentávamos felizes o jantar indiano comme il faut que Lalitha nos oferecera. Perguntei ao Vishal se ele gostava da cidade, se ele gostava da América. Enquanto dirigia pela noite tranqí¼ila, me disse que tanto fazia Miami, San Diego ou qualquer outra cidade, dava mais ou menos na mesma. Encontrar lugar para morar, achar trabalho, fazer compras, dirigir, tudo na vida cotidiana era o mesmo, tudo funcionava igual. Sistema americano foi a palavra que ele usou. Você pode mudar de cidade sem pestanejar, porque o sistema é o mesmo. Insisti: vocês não estranham nada?.
– Claro! As maçanetas. Aqui são ao contrário!
Rindo, Veeranna acrescentou:
– Os interruptores também! Aqui são de cabeça para baixo!

São Paulo
– Rua Manoel Maria Tourinho? Deixa comigo.
Pacaembu eu conhecia bem. Aquilo era um labirinto, ruazinhas sinuosas serpenteando bairro adentro num traçado perverso que eu só aprendi depois de anos morando na área. De casual, porém, o desenho do bairro não tinha nada: foi um truque urbaní­stico para que as ruas não virassem um corredor de tráfego, para que as casas ficassem sossegadas numa ilha impenetrável aos motoristas de fora.

Adoro cidades. Adoro. E quanto mais eu trabalho no digimundo, mais eu vejo que estamos de novo erguendo cidades, metrópoles, bairros, malls… sem tijolo algum. Cidades Invisí­veis, do Calvino, está ganhando um adendo. (Você não leu? Leia. Releia.)

Esse paralelismo cidades x internet me fascina faz um bom tempo. A primeira coisa que me ocorreu foi mais pobre, porém: pensava no quanto webdesign e arquitetura eram parecidos: a home e a fachada, o sitemap e a planta, e por aí­ vai. Não é de se espantar que se fale em arquitetura de informação, afinal.

A analogia não ajuda muito, porém: se você quiser fazer sua casa redonda, é problema seu. O vizinho fez uma palafita? Azar o dele. A casa em frente vai ser inteira cor-de-rosa, paredes e teto? Sorte sua que você não vai morar lá.

Muito do que se fez de webdesign, no começo, era assim: cada site era a cara do dono, cada site era original, homes competiam em originalidade e impacto.

Algo, felizmente, nos salvou desse festival de bizarrices. Google. E por três razões.

Primeira razão: sites demais. Antes dava para navegar a esmo, checar alguma lista de hot links e topar com o que você queria. Agora não dá mais.

Segunda razão: se o conteúdo do teu site é invisí­vel para o Google (arrá!!! Quem mandou fazer em flash?), teu site vai passar batido, a menos para internautas paranormais.

Terceira razão: uma busca no Google traz dezenas de resultados. Se tua página for bizarra, se não for imediatamente compreensí­vel e usável, o usuário clica, rejeita, volta atrás e tenta outro mais fácil.

Adeus condomí­nios fechados. Adeus aldeiazinhas e tribos. Adeus ilhas da fantasia. Google é o novo Robert Moses do digimundo. (Não sabe quem é? Confira… no Google)

Hoje não penso mais em arquitetura. Hoje penso em urbanismo. Na minha cabeceira, hoje, está Vida e Morte das Grandes Cidades, da Jane Jacobs. Meus assuntos de interesse, hoje, são softwares sociais, padrões emergentes e, como sempre, usabilidade.

Cidades são complexas. Cidades são imprevisí­veis. Cidades desafiam qualquer tentativa de controle. Internet é igual: o email favelizou-se, sites de banco são fortalezas anti-fraude, o Orkut já não é mais entre amigos, homes são pichadas por vândalos.

Como evitar que a internet degenere? Como criar ambientes online que sejam dignos, que enriqueçam a vida das pessoas? Como tornar a vida digital mais humana? Como usar esse universo em favor da democracia e liberdade? Como desarmar o egoí­smo para que a colaboração floresça?

Essas são as questões que eu me coloco hoje, seja ao esboçar um novo projeto, seja na escolha de um ou outro layout, seja na hora de comprar um gadget. É isso que me orienta quando modero uma comunidade.

Pensar grande não é pensar pirâmides ou monumentos. Pensar grande é pensar em como manter as calçadas do digimundo gostosas, seguras, e plurais.

Essa é a nossa natureza.