a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras
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Eu falo. Falo pra chuchu. Falo quase o tempo todo (o twitter que o diga, meus vizinhos de baia idem). Pior do que falar é ser o que, em inglês, se chama de very vocal: eu me expresso até quando não devo. E é por uma noção muito profunda de dever que eu digo agora: não. Nananina. Não.
Eu falei muito nas últimas semanas. Falei em todo tipo em todo lugar, de Porto Alegre a Floripa, com marketeiros e gente de web, do segmento bancário a interessados em videocast, usando t-shirt ou terno, falei por escrito e nos meus podcasts. Falei, falei, falei. Falei de corpo e alma, falei sem script, falei o que eu fui capaz de falar.
Alguns desses encontros faziam parte do meu trabalho, mas a maioria não. Fui, ouvi e falei porque não posso nesse momento cruzar os braços nem fechar a boca.
Falemos do que eu ouvi, então, isso é um bom começo. Ouvi especialistas, ouvi gente divertida, ouvi perguntas sinceras, ouvi coisas boas e outras nem tanto. Faz parte. O problema, meus caros, é aquilo que eu não ouvi. Eu não ouvi o menor questionamento sobre por quê fazemos o que fazemos. Eu não ouvi qualquer crítica ou acusação aos bodes-pretos-no-meio-da-sala.
Sobre aquilo que realmente faz diferença não se fala. E é por isso que eu falo tanto.
Eu me lembro quando entrei na ECA-USP vinte anos atrás. Eu fui pra lá sonhando com contra-cultura, com propostas alternativas, com mil revoluções existenciais de todo tipo. Cheguei lá e, salvo honrosas exceções, me deparei com uma geração bastante conformista, bastante careta, orgulhosíssima de ter entrado no curso mais concorrido do vestibular: publicidade. Errei o timing, errei por uns dez anos. Tinha acabo o questionamento.
Nada contra publicidade. Nada contra ser careta. Mas uma coisa é ser conformista e achar tudo bacana e ser carreirista… na Suécia. Ou na Nova Zelândia. Ou em qualquer outra sociedade onde tudo está resolvido e resolvido de maneira justa. Mas… ser conformista num país do avesso como o nosso é cumplicidade com o abuso e ponto.
Quem me viu recentemente em Floripa, Porto Alegre, Sampa, Rio, onde for, levou o mesmo puxão de orelha: mudem o mundo. Mudem seu bairro, sua cidade, seu país. Tem duzentos milhões de pessoas e quatrocentos anos de história esperando por isso: por mudanças reais. É o fim da picada estarmos sentados no cockpit de uma máquina maravilhosa e poderosa e ficarmos… chavecando. Tagarelando. Futricando. Pensando em como ganhar um troco fácil. Sorry, mas isso é uma traição danada com essa benção que temos nas mãos.
Darwin virou a história humana do avesso sem nada disso. Darwin tinha como equipamento a observação e o raciocínio, nada mais. Filósofos e mais filósofos mudaram nossa maneira de ver o mundo sem mouse nem megapixels. Nós estamos hiper-equipados e… fazemos o quê? Jogamos confete e celebramos um monte de coisa gringa que nem foi feita pra nós, um monte de cases estrangeiros que só acontecem lá fora. Pior: pagamos preços indecentes pra poder desfilar com gadgets importados ou contrabandeados a peso de ouro. Sorry, mas isso é o fim do resto.
Nada contra gadgets. Nada contra gringos. Nem contra vaidade ou consumo. Eu sou vaidoso, tenho gadgets e trabalho numa empresa multinacional. O que me espanta é termos tantos olhos para o que acontece lá fora e zero, mas zero atenção para o que está, literalmente, batendo na nossa vidraça no semáforo. Zero atenção pras distorções bizarras do nosso mercado. Zero atenção pra malandragens endêmicas em todos os níveis do mundinho da comunicação e negócios. Zero atenção pra essa nossa conivência com a contravenção, contrabando, corrupção e abuso. E são essas coisas que a gente não encara nunca, não questiona nunca, que fazem com que a gente não saia do lugar.
A internet no Brasil vai completar 15 anos. Foi só isso que conseguimos, misturar ideologias capengas com brinquedos de luxo? Cadê a geração com um pensamento realmente novo, jovem, inédito, com senso de responsabilidade? Minha geração sonhou com ter o poder nas mãos. Essa geração tem poder no mouse e…?
Outro dia, num desses eventos, alguém veio com o chavão: marcas são promessas. Well, marcas não “são” nada. Marca é ficção, e se as encaramos como promessas é porque humanos gostam de promessas, precisam de promessas. Promessas são uma tentativa de garantir que o futuro vai ser como queremos hoje. Crer em promessas mostra o quanto nosso desejo se sente frágil diante do acaso e o tempo.
Eu acreditei na promessa da internet. Quinze anos depois, vejo muitos sabendo “o quê” (o que comprar, o que usar, o que assistir), alguns especializados no “como” (como fazer uma página tableless, como aparecer nos sites de busca, como ganhar dinheiro com blog) e quase ninguém ligado no “por quê”. Por que essa estratégia e não outra? Por que dá certo lá fora e aqui não? Por quê acreditar nesse cara e não em outro?
A questão é que, mais cedo ou mais tarde, os caras que se especializam no “como” vão assumir lugares em que terão que pensar em “por quê”, e não estarão preparados. Mais cedo ou mais tarde quem só sabe achar respostas vai ter que fazer boas perguntas. Mais cedo ou mais tarde quem adotava cegamente todas as inovações vai ter que criar algo inovador. E eu pergunto: quem está pronto para isso? O que é preciso?
Em todos esses encontros, não importava qual fosse a pauta ou o tema, eu fiz essa pergunta: de que maneira vocês estão se preparando para o futuro? E na falta de boas respostas coloquei minhas cartas na mesa: se quisermos mudar o mundo vamos ter que entender de pessoas, de gente, de questões humanas, sociológicas, antropológicas, políticas, econômicas. Se deixar, um designer puro só vai querer fazer coisas lindas. Se deixar, um developer puro só vai pensar em projetos mirabolantes. Só quem mergulhar na complexidade humana vai ser capaz de criar algo que mude o mundo.
Sem isso vamos ter mais do mesmo… replicado numa escala global e insustentável. E eu digo: não.