a usina é um espaço dedicado a profissionais interativos e centraliza tudo que eu, rené de paula jr, produzo sem parar em videos, podcasts, artigos e palestras
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Onde: um belo restaurante. Quando: um belo domingo.

Fato: me acharam.

O celular tocou. Que hora, pensei. Conferi o identificador de
chamadas: um número qualquer. Pedi licença à minha companhia, me afastei e atendi.

“René?”
“Sim, quem fala?”
“Você faz trabalho?”

Fazer trabalho? A primeira idéia que me ocorreu foi macumba.

Well, não era isso. Era trabalho de faculdade, ou melhor, uma versão on-demand e outsourced de trabalho de faculdade, onde um grupo neo-picareta de estudantes apela para um equivalente estudantil da bruna surfistinha e paga por um trabalho de escola encomendado. Claaaaaaaro, o grupo “briefa” antes. Tudo muito profissional.

Fiquei fascinado, e triplamente:
– isso existe?
– de onde saiu essa balela que eu “faço trabalho”?
– onde acharam meu celular?

“Onde eu achei o senhor? Ah, numa página da internet, não me lembro”

É isso: o grupo entrou num mecanismo de busca, buscou não sei o quê, e me achou nem sabe onde.

Despachei a moça e voltei pro meu almoço, tentando esquecer essa intromissão desagradável. Deu vontade de procurar um pai-de-santo para checar se estou com encosto na internet.

Terminei meu almoço, tomei um café, mas não engoli essa história. Tinha muita coisa ruim misturada ali.

A primeira delas é, pra mim, uma vergonha: alunos “colando” sem
nenhuma desculpa decente e, o que é pior, sem vergonha na cara. Com profissionalismo, até. Fazer um bom trabalho antes era uma gincana: tinha que pesquisar em bibliotecas, arquivos, entrevistar pessoas, correr a cidade em busca de fontes de informação. Hoje você tem um mundo sem fim de informação na telinha do seu PC, e mesmo assim tem gente que prefere pagar pra quem faça.

A segunda coisa é: tem gente usando internet para emburrecer. Tem gente usando a web como buffet de festinha de criança: pega os doces coloridos e volta correndo a brincar. Listas de discussão? Ler notí­cias e blogs? Compartilhar seu conhecimento? Nem pensar (literalmente).

Semanas depois, essas duas aberrações nem me chocam tanto. Se o cara quiser ser tolo, que seja. Mas outro aspecto me perturba até agora: quando alguém faz uma busca por mim, aquela seqí¼ência de links é um retrato fiel de quem eu sou? Aquela página de respostas tem o direito de “falar por mim”?

Eu digo: não. E provo: dias atrás recebo um email formalí­ssimo,
pedindo desculpas pela intromissão e perguntando por dicas sobre… a vida no Canadá. Detalhe: eu nunca fui ao Canadá. Pior: não me lembro de jamais ter mencionado o Canadá em nenhum “trabalho” (ops) meu. De onde o rapaz tirou isso?

Outro email: um grupo de estudantes (outro!) me perguntando que tema deveriam escolher para seu trabalho acadêmico. Eu nem acadêmico sou… fiz Rádio e TV na ECA e olha lá!

Depois de muito repensar essa história (sim, meu cérebro tem dois estômagos e rumina), notei que sim, havia esperança, sim, havia uma luz: em todos esses casos, as pessoas não estavam buscando apenas páginas, estavam buscando… pessoas. E por que elas estavam procurando pessoas? Zilhões e zilhões de sites e páginas não bastam?

A resposta parece ser… não. Por mais que se publique conteúdo sem parar, existe algo que não está no papel nem na tela, existe algo que a busca não acha: o que cada um de nós acha. Nosso jeito único de pensar e responder, nossa experiência pessoal, nossa maneira de ver o mundo.

(Um break para a auto-propaganda: O Yahoo! lançou meses atrás uma busca assim, onde um pergunta, e quem souber responde: é o Yahoo! Answers (http://answers.yahoo.com). Pergunte o que quiser: como fazer um suflê, como entender seu namorado, por que gatos brancos bebem na torneira… sempre vai ter um monte de gente respondendo, e quem escolhe a melhor resposta é você. Uma delí­cia, o Answers, e aposto que aqui no Brasil ser um sucesso.)

Eu adoraria perguntar aqui aos estudantes malandros qual vai ser o papel deles num mundo em que a opinião pessoal, o talento individual, a personalidade contam, mas não faz sentido, eles não devem ler uma revista como essa, eles não estão interessados em opiniões alheias.

Acho que nunca vou encontrá-los, aliás, não no mercado profissional ao menos. Vão conseguir um rolinho de papel com um diploma mas não vão conseguir enrolar ninguém.

Reza a lenda de que perguntaram ao Picasso de onde ele tirava idéias e inspiração. Ele teria respondido: “eu não procuro, eu acho”. Well, ele era um gênio de uma outra época. Hoje os verbos são outros: eu produzo, tu opinas, ele comenta e nós achamos… o máximo.