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artigos de rené de paula jr.


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Estados de Graça

- Você nasceu em que dia?

Era insistente, o moço. Tínhamos chegado na véspera, e uma equipe de tv não passa desapercebida numa cidade pequenina como Mariana, lááá no coração de Minas. Não era nossa intenção original filmar igrejas e altares e anjinhos e tudo o mais, e sim gravar uma peça de Haydn tocada por uma especialista num órgão alemão ancestral, recém-restaurado. Mas estávamos em Minas, estávamos nas Cidades Históricas, e algumas cenas turísticas poderiam ser úteis na edição.

- Se eu souber o dia, digo o santo e sua história.

Resolvi responder, nem tanto por curiosidade hagiográfica, mas pra ver se aquele cara saía da nossa cola. Era aparentemente figura folclórica da cidade, habitué de todas as igrejinhas locais, que não são poucas. Sujeito meio esquisito.

Disse-lhe o dia, e seu olhar perdeu-se no infinito enquanto me contava embevecido:

- Ahh... é o dia de São (não me lembro mais)... um santo belíssimo... foi atirado nu a uma cova de leões, e disse para as feras: comam-me, comam-me...

Era o que me faltava. Pelo visto o seu fervor religioso tinha ardores menos castos, e o lugar que merecia era uma cadeira de redator erótico, não um genuflexório.

Abstraindo o assédio, ouvir Haydn na penumbra fria de uma igreja barroca foi algo a que stereo surround algum fará justiça. Havia mais dois órgãos como aquele no mundo, e me perguntei como ele chegara até aquele balcão, Minas adentro. Lombo de burro? Lombo de escravo?. A metáfora “empurrar piano” (que ainda uso) perdeu muito do seu peso ao pensar a respeito.

O instrumento era um delírio de teclas e tubos e pedais e anjinhos e trompas. Pianos, perto daquilo, são como pingüins frente a um pavão.

A vantagem do piano, porém, é aquilo que parece ser minha sina: pode-se empurrá-los. E mais: de pianolas a pianos de cauda, de pianos mecânicos a pianos de apartamento, a mesma partitura vale. O teclado é o mesmo. Pedais, idem. Algumas dezenas de teclas - bem menos que as 256 cores de um GIF - e você tem de Beethoven a Oscar Peterson.

Minha memória resgatou essas cenas todas ao reler um email de despedida que fiz ao sair de uma agência meses atrás. Eu estava meio emocionado (pra variar) e acabei escrevendo uma profissão de fé (pra variar). Aqui está ele:

ter fé nunca foi fácil. houve tempos sinistros, onde homens metiam medo e o céu também. cercados de florestas e bárbaros, sombrios templos de pedra protegiam fiéis, e mantinham acesa a frágil chama da herança humana.

Essa chama venceu a treva, o temor se foi, e aprendemos a fazer com a feia pedra um novo templo: belo, luminoso, aéreo. nas cidades recém-nascidas, canteiros de obras pariam colossos transparentes. novos tempos, novos templos. nasceram catedrais.

o segredo das catedrais, dos seus esqueletos de pedra, dos seus vitrais, das naves vertiginosas, dos seus detalhes místicos pertencia a poucos homens: os pedreiros livres, os franco-maçons.

indo de cidade em cidade, de reino em reino, eles deixaram atrás de si um rastro de obras-primas sem assinatura, anônimas, perenes. e seguiam adiante, aprendendo, criando, construindo.

é assim que nos vejo, é nisso que creio: na construção de novos templos, de novos tempos, de novos homens. é essa chama que me guia.

conviver, aprender e trabalhar com todos vocês é um privilégio raro que
muito me honrou. deixo com vocês, michelangelos e da vincis, um carinho profundo, e me vou. tem outras catedrais me chamando.

Pois é, eu sou um romântico incurável. E pensando em catedrais, órgãos e pianos, fui um pouco mais longe: livros. Os livros mais belos que já vi foram os livros de horas medievais, pintados um a um por monges enclausurados para reis e príncipes. Divinos, os livros. Mas o que mudou a história do mundo foram as bíblias populares, impressas em série por Gutemberg: a salvação estava agora ao alcance da mão, e não no sermão em latim.

Da catedral à bíblia vulgata, do órgão ao piano ao radinho de pilha, do sermão em latim aos portais até os blogs, dos monopólios de comunicação ao VHS até a webcam, do mercantilismo à nova economia até o freeware, uma coisa é certa: alegria é cross-platform, a vida é freeware, nossa alma é wireless, nosso destino é one-to-one, a verdade é open-source.

E os santos pelados e leões que se entendam.




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