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internet tête-à-tête artigos de rené de paula jr. |
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Desmandamentos Meus ídolos são poucos, alguns loucos, alguns mortos. Millôr Fernandes é um, lúcido e vivo. Do primeiro livro dele que tive nas mãos guardo ainda na memória fábulas como a do gato que falou. É mais ou menos assim: a madame adorava seu gatinho. Aquilo era mais que um felino, era quase gente. Só faltava falar. E olha que ela ensinou o bichano por anos a fio, em vão. Por outro lado o papagaio, aquele idiota, falava pelos cotovelos. Ironia da natureza. Um dia veio o estalo. A velha matou o papagaio e deu pro gato comer. Em poucos momentos, um milagre. O gato limpou a garganta, gaguejou e falou: "o prédio vai desabar". Um prodígio. Em lágrimas, a senhora extasiada convocou as vizinhas para, entre bolinhos e chá, ouvir o gato que repetia: "o prédio vai desabar". Que graça! Que mimo! O prédio desabou mesmo. Só o gato escapou. Fábulas à parte, eu pergunto: quem hoje ouve seu consumidor? Demoramos séculos até que o PC engolisse o telefone e o consumidor enfim começasse a falar. Hoje muito prédio caiu e o consumidor continua falando sozinho. A ironia é hoje termos um canal miraculoso com o consumidor e o usarmos quase que em mão-única, como num trote telefônico: você recebe a mensagem, mas antes que possa reagir batem o telefone na tua cara. Ou pense então num caixeiro-viajante. Viaja, vende uma coisa ou outra, e por fim volta. Quando você pergunta que contatos ele fez, quais as oportunidades locais ele diz: "Sei lá eu". OK, claro que houve avanços nesse ano. 2000 passou num susto, mas deu pra aprender uma coisa ou outra. De tanto errarmos, claro. Lá vão algumas pedras desse descaminho:
O décimo desmandamento é do próprio Millor: "Depois que a tecnologia inventou telefone, telégrafo, televisão, todos os meios de comunicação a longa distancia, é que se descobriu que o problema da comunicação era o de perto". E estamos mais perto do que nunca. |
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