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artigos de rené de paula jr.


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Cem por cento contrabando

Sou radialista por formação, e ainda guardo um enorme carinho pelo métier, mesmo o tendo abandonado de vez. Nesses meus poucos anos em TV acumulei histórias e personagens que me acompanharão pela vida toda. Tempo rico, esse.

Relembrar televisão, para mim, é lembrar a tela do IBOPE. Em todos os televisores e monitores da redação o canal 12 mostrava, sob fundo preto, uma tabela de números miúdos que mal se liam. Aquela salada de dígitos, contudo, era nosso termômetro, nossa bússola, era o retrato instantâneo em preto e branco da reação do nosso público.

Um ponto a mais ou a menos representava uma imensidão de lares, e era perturbador imaginar seu trabalho sendo visto por milhões de brasileiros ao mesmo tempo. E todas essas pessoas apareciam para nós como pequenos algarismos numa tela. Quem eram eles?

Um dos encantos da Internet é que do outro lado do meu monitor há pessoas com nomes e, sobretudo, com voz.

Nesse minha nova profissão, contudo, a incógnita é outra: eu nunca sei ao certo que máquina está digerindo meu trabalho. A fauna informática é variada, e o pedigree dos computadores nem sempre é nobre. Muitos deles são clones mal-feitos, colagem e bricolage de componentes de origens diversas, uma feira do Acari digital.

E vá você descobrir como funciona uma dessas máquinas. Manual nem pensar, e se houver não corresponde ao equipamento. Garantia é um substantivo abstratíssimo nesse universo, impalpável. No mais das vezes é um milagre que tais Frankensteins mal costurados funcionem: mal falam a mesma língua, e não pensam do mesmo modo.

Crentes e convictos, um desafio: provem-me que com humanos é diferente. Digam-me como configurar pessoas, ou convençam-me que uma mentalidade funciona melhor que outras. Tragam, inclusive, um método inequívoco de benchmarking. E onde está a garantia do fabricante? Definam um protocolo cross-plattform de convivência global. Mostrem-me uma interface amigável e evoluída que mascare o mamífero indócil dentro de nós.

Dentro de chips o silício encarna uma lógica precisa, mas, se funciona, é graças à manobras quânticas esotéricas, incríveis. Em nós, um milagre neurológico levou um vertebrado tão longe que mal se adivinha a que ele veio, ou de onde.

Digo isso porque quando tento julgar seres humanos e suas suas manias, idiossincrasias, seus vícios recorrentes, eu me perco e não chego a lugar nenhum.

Mas continuo fã da criatura, e vou sempre aplaudir qualquer conquista, mesmo que pequena. É sempre um milagre, afinal.




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