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Cem por cento contrabando
Sou radialista por formação, e ainda guardo um enorme
carinho pelo métier, mesmo o tendo abandonado de vez. Nesses meus poucos
anos em TV acumulei histórias e personagens que me acompanharão pela
vida toda. Tempo rico, esse.
Relembrar televisão, para mim, é lembrar a tela do IBOPE. Em todos os
televisores e monitores da redação o canal 12 mostrava, sob fundo preto,
uma tabela de números miúdos que mal se liam. Aquela salada de dígitos,
contudo, era nosso termômetro, nossa bússola, era o retrato instantâneo
em preto e branco da reação do nosso público.
Um ponto a mais ou a menos representava uma imensidão de lares, e era
perturbador imaginar seu trabalho sendo visto por milhões de brasileiros
ao mesmo tempo. E todas essas pessoas apareciam para nós como pequenos
algarismos numa tela. Quem eram eles?
Um dos encantos da Internet é que do outro lado do meu monitor há pessoas
com nomes e, sobretudo, com voz.
Nesse minha nova profissão, contudo, a incógnita é outra: eu nunca sei
ao certo que máquina está digerindo meu trabalho. A fauna informática
é variada, e o pedigree dos computadores nem sempre é nobre. Muitos
deles são clones mal-feitos, colagem e bricolage de componentes de origens
diversas, uma feira do Acari digital.
E vá você descobrir como funciona uma dessas máquinas. Manual nem pensar,
e se houver não corresponde ao equipamento. Garantia é um substantivo
abstratíssimo nesse universo, impalpável. No mais das vezes é um milagre
que tais Frankensteins mal costurados funcionem: mal falam a mesma língua,
e não pensam do mesmo modo.
Crentes e convictos, um desafio: provem-me que com humanos é diferente.
Digam-me como configurar pessoas, ou convençam-me que uma mentalidade
funciona melhor que outras. Tragam, inclusive, um método inequívoco
de benchmarking. E onde está a garantia do fabricante? Definam um protocolo
cross-plattform de convivência global. Mostrem-me uma interface amigável
e evoluída que mascare o mamífero indócil dentro de nós.
Dentro de chips o silício encarna uma lógica precisa, mas, se funciona,
é graças à manobras quânticas esotéricas, incríveis. Em nós, um milagre
neurológico levou um vertebrado tão longe que mal se adivinha a que
ele veio, ou de onde.
Digo isso porque quando tento julgar seres humanos e suas suas manias,
idiossincrasias, seus vícios recorrentes, eu me perco e não chego a
lugar nenhum.
Mas continuo fã da criatura, e vou sempre aplaudir qualquer conquista,
mesmo que pequena. É sempre um milagre, afinal.
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