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internet tête-à-tête artigos de rené de paula jr. |
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O que fazer? Quero me livrar de um elefante. Há séculos ele me persegue. Torçam por mim. Tudo começou inocentemente. Quando ouvi aquela parábola indiana dos ceguinhos e o elefante, pensei: um dia vou usar isso. Devo ter pensado alto, e como elefantes jamais esquecem, toda vez que me sento para preparar um artigo ou palestra, ele se senta no meu colo com sutileza elefantina e me cobra a promessa antiga. Vamos ver se agora me livro desse peso. A história hindu é boa: um elefante surge numa aldeia. Alvoroço geral, nunca haviam visto um. Chamaram os sábios de plantão, por coincidência todos cegos. O primeiro consultor, digo, ceguinho sábio, apalpou a tromba magnífica e disse: relaxem, é apenas uma mangueira d'água. Um outro honorável companheiro de cegueira e métier apalpou a perna do paquiderme e se pronunciou: é uma árvore. Outro venerável mestre apalpou o rabicho e concluiu: é um belo espanador. (Se a parábola fosse brasileira eles iam acabar apalpando mais coisas, mas vamos ficar com a elegância indiana mesmo). O fim da história? Não tem nenhum. É isso aí, uma alegoria graciosa da nossa incapacidade de apreender o sentido maior das coisas. Ou da inevitável parcialidade dos julgamentos. Ou da arrogância dos especialistas. Quem criou a historinha foi condescendente. Escolheu um bicho grande, mas relativamente estacionário, altamente apalpável. Troque o elefante por um leão e a história terá o título "o massacre dos ceguinhos". Escrever e teorizar sobre internet se parece mais com a versão leonina da parábola. Primeiro que a tal da internet não sossega, segundo porque ela devora rapidinho quem chega perto. Os candidatos a sábios nem teriam tempo de ficar velhinhos nem cegos, quanto mais de ficar mais sábios. Eu me pergunto se estamos ficando mais sábios. Conhecimento e informação todos nós devoramos como leões, eu sei. Mas talvez o timing em que vivamos seja tão feroz que não temos tempo de saborear, de digerir, de refinar nosso paladar. Pense, por exemplo, em webdesign. Quando você finalmente se sente senhor de um software (flash, por exemplo), surge uma nova versão e toca você a destrinchar as novas features. A corrida é sem fim, e você nem tem tempo de se perguntar se o tal do flash realmente vale alguma coisa. Pense em projetos interativos. Mal você acabou um, outros vêm em manadas. Você mal tem tempo de avaliar o que fez, de aprender com os erros, de se estruturar melhor. É um incendio atrás do outro. Nessa correria toda corremos o risco de deixar algo escapar, e meu receio sempre foi de que justamente o essencial se perdesse. Que "essência" é essa eu não sei, mas quando vejo grandes defensores da multimídia, das parafernálias, da tecnologia pela tecnologia, vejo um elefante sendo apalpado por Mr. Magoos. A internet tem algo em comum com elefantes: memória. Seu televisor é uma torneira de imagens, não retém nada, não aprende nada. Mídia interativa aprende sim, retém sim, e ela pode te reconhecer onde você estiver, seja quando for. Falta apenas que nós, profissionais dessa mídia, aprendamos com os erros e acertos, repassemos adiante o aprendizado, e reconheçamos sempre que do outro lado do monitor tem um mamífero com apetite de leão e memória de elefante: gente. Vou cantar pra ver se o elefante que me persegue adormece: um site ruim incomoda muita gente, dois sites ruins incomodam muito mais. Três sites ruins... Funcionou? |
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