internet tête-à-tête
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Carta a Michel
(para o site WebInsider, a proposito do artigo tudo ao mesmo tempo agora)

Cá estou eu em Porto Alegre novamente. É domingo, chove. A chuva é tanta e tão constante que levou por água abaixo a caminhada que imaginei para esta manhã. Tomei um táxi (outro prazer profundo meu) e, enquanto conversava, vim sorvendo o fluxo de casas antigas, praças, esquinas, vitrines, esmaecidos sob a chuva e o cinza do céu.

Perambulo sempre que posso, sobretudo em cidades que mal conheço. Vou a esmo, feito cão vadio, me embrenhando, me deixando levar por cores, cheiros, intuições. Acumulei nesse turismo errático (afora bolhas nos pés e canseiras variadas) um quebra-cabeça de fotos sem nexo, por vezes algum texto intimista. Nada, enfim, que interesse a ninguém.

Só de fachadas eu tenho uma coleção. Por quê? Nunca soube ao certo. Foi compulsivo. Agora, refletindo sobre teu artigo, Michel querido, eu talvez tenha alguma pista, um fio que costure esse patchwork de velharias e modernices.

Algumas coisas vingam, outras não. Por quê deixou-se um belo casario art déco se arruinar, enquanto outro perto dali, encantadoramente piegas, foi preservado com carinho? Aquele imenso edifício em international style, filho das mais utópicas esperanças, tornou-se um pardieiro. Em uma vitrine elegante, móveis e design caríssimos que vieram ao mundo, décadas atrás, com a nobre missão de dignificar a vida do operariado.

Tropeçamos a cada instante em utopias arruinadas, em promessas traídas, em ironias históricas, em tiros que saíram pela culatra como flores delicadas. Não estou pensando só em arquitetura, penso em valores, crenças, tecnologias.

A internet, tão anárquica, nasceu militar. Eu só não me perco nas minhas andanças graças ao mesmo GPS que ajuda mísseis letais a não errarem o caminho. A festa do amor livre (que eu perdi por erro de timing) criou zona franca para o nefasto HIV.

Em suma: teorias são encantadoras, mas são teorias. Idéias revolucionárias, modelos e esquemas infalíveis, podem ter pouca sobrevida quando abandonam o papel e se aventuram na selva humana.

Aqui está o que queria te contra-argumentar, Michel: se muitas das promessas da Internet fizeram água não é meramente uma questão de timing.

Velocidade não foi problema. O mundo foi rapidíssimo em assimilar a internet, mais rápido do que podíamos prever. Antes que nós “especialistas” nos déssemos conta, alguns azarões como o ICQ ou o Yahoo haviam crescido como mato. Por outro lado, algumas de nossas apostas mais caras (webvertising, multimídia, a grande colméia humana, VRML) mergulharam na mais profunda irrelevância.

Nossas certezas e verdades perdem o pé pois estamos próximos demais do coração dos homens, Michel, mais próximos do que arquitetos, artistas, políticos, teólogos jamais chegaram.

Estamos tão próximos porque estamos criando não só idéias, mas novas bocas, novos olhos, novos sentidos e órgãos para esse bicho arredio, interesseiro, teimoso e apaixonante que é o ser humano, esse mamífero que incorpora e rejeita com a mesma facilidade, com a mesma imprevisibilidade, esse primata que pela primeira vez pode retribuir nosso trabalho na mesma moeda.

Refinamos ferramentas, aperfeiçoamos máquinas, mas a grande saga é descobrir do que esse bicho é capaz, e do que ele definitivamente não é capaz.

Volto hoje pra São Paulo. Levo alguns discos que comprei, que de tão revolucionários não deram em nada, mais uma edição primorosa do “Cântico dos Cânticos”, tão apaixonado que jamais envelhece, e uma coletânea de um inglês delirante que escreveu:

For Mercy has a human heart
Pity a human face
And Love, the human form divine
And Peace, the human dress

(...)

Cruelty has a human heart
And Jealousy a human face
Terror the human form divine
And Secrecy the human dress

The human heart is forged iron
The human form a fiery forge
The human face a furnace sealed
The human heart its hungry gorge

William Blake, fins do século 18. Depois te empresto. Abraço forte, irmão.




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