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artigos de rené de paula jr.


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Uma só mão não bate palmas

Bom-senso não é matéria escassa, já dizia um xará meu, e é o máximo da divisão equalitária: todos acham que tem bom-senso bastante, e mais do que os outros, inclusive. Um milagre.

Nem tudo é assim, infelizmente. A Economia nos ensinou que tudo o que é raro vale muito, e quanto mais uma coisa se dissemina, menor o seu valor. Faz sentido, eu sei, mas agora vejo que há ventos de mudança soprando. Quem sabe eu até venha a gostar de Economia, pelo menos da Nova Economia.

Uma matéria da Wired deste mês chama a atenção para um novo fenômeno econômico. Eu, que há décadas pulo a seção de Economia do jornal em favor dos quadrinhos, parei para ler. Fiquei tão encantado que aqui estou, tentando passar a semente adiante.

É mais ou menos assim: uma revolução discreta balança as estruturas do pensamento econômico. O seu modelo não é mecânico, cumulativo, predatório, mas sim biológico, distributivo, simbiótico. Quanto mais um recurso se multiplica mais ele vale. Quanto mais disseminado estiver um padrão, mais ele se desenvolve. Tudo o que cria e amplia conexões, sinapses, associações, enriquece o sistema como um todo.

Pense num aparelho de fax: sozinho ele não vale nada. Se houver um outro fax seu valor aumenta. Com dezenas de milhões de aparelhos pelo mundo todo, sua utilidade cresce cada vez mais.

Com a Internet é assim, pelo menos a grosso modo. Uma nova tecnologia, um novo recurso não vale nada se não tiver potencial para aumentar sinapses, se ele mesmo não se difundir pelo cyberglobo.

Descobri por acaso um exemplo singelo desse impulso germinal, semeador, disseminador. É um site que ensina os fundamentos do JavaScript, e o fio condutor da lição é um poema zen. São muitas as citações zen ao longo das páginas, e uma delas originou o título deste texto. Bom, muito bom, e o que é honestíssimo e louvável, o autor reconhece que o que ele está ensinando não é simples, pois requer um aprendizado ativo. É rara essa franqueza.

(Um parêntese: estive por bons anos ligado à língua alemã. Fui aluno, cogitei ser professor, e por fim acabei me afastando desse universo. Uma coisa gravei: alemão não é fácil de se aprender, muito menos de se ensinar. Os cursos tradicionais, sérios, já não têm nenhum encanto no mundo marshmallow em que vivemos, e métodos moderninhos fazem malabarismos estranhos para tornar o aprendizado lúdico e digestivo.

Lembro-me bem: perdia-se um bom tempo tentando convencer o iniciante que alemão não dói. O esforço saía pela culatra, afinal todos sabem desde a infância que quando alguém diz "não vai doer, meu bem", ele tem uma broca de dentista na mão (na hipótese mais inocente) e vai doer sim, mas você vai ter que agüentar de qualquer jeito.

Em suma: aprender alemão requer paciência e dedicação, não dá para ser leviano. Mas é possível. JavaScript também. Fecha parêntese).


Nesse cursinho on-line, o autor pergunta: "-Qual o som de uma só mão batendo palmas?" Eureka. Touché. Voilà. Aí está a essência desse novo fenômeno tecno-social-econômico-filosófico: quanto mais mãos houver, mais alto será o aplauso. Mais alto do que o pampeiro que a mídia convencional faz sobre questões menores da internet, como multimídia, perversões ou terrorismo.

O buraco é mais embaixo, nas estruturas, nas fundações, nas raízes. Uma planta nova se espalha como grama, sem centro, sem caule, rizomática, e com frutos inéditos. Eu a rego diariamente, e espalho todas as sementes que me caem nas mãos. Acabo de passar mais uma.




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