internet tête-à-tête
artigos de rené de paula jr.


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O coração da cidade

Eu me conheço: pela janela do avião que pousa vejo a cidade, reconheço meu berço, e num instante esqueço lugares melhores que deixei para trás. Feitiço estranho esse, que nos vincula filialmente a cidade que nos pariu, que nos criou, que nos envenena. Meu-bem-meu-mal é São Paulo, meu e de outros milhões. Qual será o seu?

Caminhando sozinho por ruelas, alamedas, avenidas nessa alvorada fria e luminosa em Porto Alegre, encantado com cada nuance desse lugar encantador, tão diferente, tão perturbadoramente diferente daquilo que chamo de lar, penso por um instante se esse sonho feliz de cidade me vacinará contra o veneno paulistano. Eu me conheço: não.

Nosso bem, nosso mal, cidades são nossa segunda natureza. Onde rotas cruzam rios, onde reis semeiam impérios, onde fluxos de homens, mercadorias, e de sonhos se interpenetram, nascem cidades. Onde nascem cidades, fluxos se recombinam, se fecundam, se enriquecem. Com isso as cidades crescem, e com elas crescem os homens.

A força da internet, seu motor e movimento são os mesmos da cidade: fluxos, trocas, fecundidade. Liberdade, intimidade, anonimato. Um tempo próprio, non-stop, 24h, desumano e embriagante.

Eis minha preocupação: ao criar sua presença interativa, você está contribuindo para uma internet fecunda e sadia, ou pelo contrário, está atravancando o mundo online, engessando seu crescimento?

Penso de novo em cidades: uma metrópole que só é viável para helicópteros, um dia-a-dia que só beneficia despachantes e atravessadores, um lugar onde blindagem de carros é equipamento básico, não é uma cidade, é uma guerra civil disfarçada.

Um website que só é viável para computadores de ponta, que desconsidera usuários leigos, que se baseia em soluções fechadas e despreza preferências e individualidades não é um website, é uma marcha-à-ré quando tudo avança a todo vapor.

Uma cidade, doente ou não, é um organismo imenso, com células compondo tecidos compondo órgãos. Na internet, websites não são criaturas isoladas: são células que deveriam compor tecidos e órgãos de um corpo onipresente, impalpável e fértil.

Faça um website estanque e você estará criando um corpo estranho que a vitalidade da internet acabará por sufocar e expelir.

Ao criar uma estratégia de fidelização, veja bem se você está aprisionando seu consumidor ou tornando a vida dele mais rica. Um caso exemplar é o da Yahoo. Seu email gratuito é, por si só, um grande fator de stickyness, mas eles vão muito além. Você tem outras contas de email? O Yahoo permite consultá-las onde quer que você esteja, com uma funcionalidade admirável. Mais stickyness nesses tempos em que o usuário não usa apenas seu computador pessoal.

O golpe de mestre mesmo é o Yahoo Messenger. Ele não só é mais leve do que o ICQ: ele te dá asas. Ao contrário do concorrente, ele armazena todas as suas informações na internet, e não no seu PC. Isso quer dizer que, voltando pra São Paulo, não terei que levar comigo nada do Yahoo. Bastará eu me conectar e ele estará tal qual o deixei. Lindo.

Mais: ele coordena vários pontos de contato de maneira invejável: você pode mandar mensagens instantâneas, fazer chat de voz, ler conteúdo customizado (ações, notícias), marcar compromissos e to-dos num calendário online personalizado, e mais um monte de funcionalidades em perfeita sintonia. Comunicação com amigos, email, web personalizada, esteja onde você estiver. Não tarda e ele estará integrando WAP e outras tecnologias ainda mais móveis.

Fidelização que liberta, tecnologia que humaniza.

Vamos ver como o YM se dissemina. Para minha alegria, os milhões de seres humanos conectados têm sabido preservar sua saúde ao rejeitar o que é nefasto e alimentar o que é promissor.

Não vou sair de Porto Alegre impune. Tanto ar, tanta luz, tanto calor humano me lavou a alma, e tenho certeza que isso vai gerar frutos. Eu me conheço.




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