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Jogo Limpo.
Como apostar a sua última ficha

(15/10/97)

Falar de cinema é falar de magia. Ao fim da sessão as luzes se acendem, e a platéia desperta preguiçosa do sonho coletivo para a vida de cada um. Aí reside grande parte da mágica dos filmes: eles acabam.

Talvez o que distinga comédias de tragédias, dramas de aventuras seja o ponto em que se colocam o "the end" e os créditos.

Ninguém nunca soube quem pagou as contas dos estragos que Indiana Jones causou, nem quantos anos ele pegou de cadeia pelos homicídios diversos, nem que vendetta macabra foi arquitetada pelos vilões sobreviventes. Ninguém saberá: o "the end" fecha as portas ao tempo, e congela a história.

Fora do celulóide histórias não têm fim. Tente você descartar personagens do seu roteiro e eles escreverão seus próprios roteiros, que um dia se entrelaçarão novamente ao seu script. Cerque-se de figurantes sem falas
e assista ao seu épico se transformar num disaster movie.

No cinema é mais fácil. Não só o diretor é soberano como conta com um recurso imbatível: o extra-quadro. Fora do quadro que a câmera mostra, um pouquinho mais à esquerda, ou ao alto, ou mesmo atrás dele, o que existe? Um nada, mas um nada providencial. Desse nada chega a sétima cavalaria, de lá vem a fortuna inexplicada do herói, para ali vão os bandidos depois de nocauteados. Aquilo que não se vê é fonte infinita de recursos e um imenso depósito de sucata.

A história do mundo não é diferente. Continentes usados como depósito, povos condenados à figuração, e sob flashes e refletores um reduzido elenco milionário. Ao longo dos tempos heróis de opereta deixaram um rastro de almas descartadas e terras estéreis.

Eis onde eu aposto minha última ficha: no jogo limpo, não-poluente, não-extrativo. Sei que ainda é possível jogar sujo, ganhar a curto prazo e explorar o próximo, mas o próximo está cada vez mais próximo, e pensar a curto prazo tem um custo inviável. Não há mais onde jogar o entulho, e os veios de ouro já têm dono.

Não teremos saída, em breve, a não ser a cooperação, o crescimento conjunto e a paz. Ou aprendemos a jogar limpo ou o lixo nos engole. É mera questão de tempo.

No nosso métier, onde distâncias e fronteiras não contam, esse espírito desprendido e visionário vêm ganhando corpo e conquistando apóstolos. Quem é ateu e viu milagres como eu sabe que, ali, deuses sem deus não cessam de brotar. Essa é a minha fé.




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