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Todo texto é autoral. Bula de remédio, a previsão do tempo, atas de reunião de condomínio, tudo. Como rotular, então, textos que de peculiar têm apenas sua gratuidade? Ei-los, entao. Textos absolutamente gratuitos.

|| Caríssima | Similia |Rios |Pannonica | Brasília branca | Como si fuera esta noche ||

Caríssima

Tudo vem dali, daquela brancura furiosa, rugindo em bocas imensas, engolindo a si mesma e saltando de novo, incansável. Banhando a cena, um sol inédito. Eu nunca havia visto a espuma do mar.
Meus sentidos de menino conheciam cidades, roupas, luzes, não essa embriaguez. O corpo sem peso, o sal nos olhos, a água engolida e o chão que sumia pediam risadas que eu mal soube dar. E a espuma, jóia que salta, faiscava na esteira das ondas.
Fiz o que sabia e tentei pegá-la: a água fugiu entre os dedos. Tentei retê-la: a festa de bolhas, cativa, durou um segundo.
No raso, a água que ia e vinha animava arabescos minúsculos a perder de vista. E o sol absurdo lavava meus olhos desentendidos.
Tudo que e m mim é sagrado vem dali, dessa revelação solar a um menino míope. Não sei se fui claro.


Similia

Amanhã não, talvez na quinta eu consiga ir até lá. Perderei com certeza metade da manhã, mas tenho que ir mesmo assim. Minha saúde depende disso. Mesmo não estando doente, voltarei com certeza mais são.

A casa simples, simplória ao fim de um caminho longo e intrincado guarda um oásis. É lá que me recomponho. Dali até o laboratório é um pulo: comprarei o remédio, escolherei uma guloseima e retomarei meu caminho cidade adentro. Na bolsa uma dose única do medicamento, na receita a recomendação de retorno em dois meses. No peito, uma alma mais limpa.

Essa casa, esses trechos de rua, tudo tão afastado, faz mais parte de mim do que bairros onde morei por anos. Há outras casas, outras ruas, outras vistas de alturas diversas que compõem uma cidade que é só minha e que levo comigo, colcha de retalhos recheada de carinhos, rostos, risos.

(Uma árvore desavisada brotou há anos no paredão que ladeia a avenida. Está lá ainda, persistente, improvável. Nela ferve uma pulsão antiga que inventou uma semente com a receita secreta de transformar vento em tronco, luz em verde, e de espalhar sementes pelo tempo afora, pequenas partituras de uma música sem fim.)

A cidade que abriga a mim e essa árvore também cresce, e reescreve sem cessar, em caligrafia nervosa, sua profissão de fé, de febre. Apaga trechos, borra outros, escreve sobre si mesma. Lerei entre prédios e tapumes e avenidas as entrelinhas desse mantra, para reconhecer sempre minha cidade fabril, febril.

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Rios

Virou meu vade-mecum o livro do Millôr, um que achei num sebo que é a minha ruína. Carrego-o sempre na mochila, assim como minha câmera. Um fardo extra pra lá de questionável, tanto pelo peso quanto pela utilidade de ambos, no mínimo esporádica. O livro preenche os tempos mortos, poucos, com a câmera fixo flagrantes, raríssimos. Mas uma câmera, mesmo na bolsa, se infiltra no olhar e subverte a visão: o visível se converte num mar de fotos, o movimento do mundo vira rio de onde se pescam cenas fugidias, a luz se saboreia como bebida rara e inebriante. A pessoa querida, então, tem mil caras em sucessão, todas dela mas nem todas ela, qual escolher? E a foto imperdível que se perde a todo instante, escorre entre os dedos, pra nunca mais, e outras que surgem numa enxurrada sem fim. Se consigo aqui e ali belas fotos, isso é o de menos. O olho agora é outro, é bailarino. Meu coração e pensamento, esses bailam com Millôr, é ele que me ensina o gesto claro, a dança alegre, o pensar fecundo, a lucidez. Eu injeto-o nas veias e cresce em mim discernimento.

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Pannonica

Há banhos e banhos. Aquele seria especialmente supérfluo, um capricho de sábado à tarde. Nem seria um banho, propriamente. O que iria acontecer ali era mais básico, simplesmente expor a pele toda a um fluxo fresco de água e espuma, limpar o corpo de vestígios de alma. Era sábado e fazia sol, e ponto. Uma nota musical muito solta e que desfilava em parada com outros sons coloridos e brilhantes achou graça e resolveu ficar. Ficou, brincou e, com toda a naturalidade, abriu aquele coração, pintou as paredes, escancarou janelas e desde então mora comigo. E ponto.

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Brasília branca  

19h15 .
Surpreendido com um tempo extra, pus-me essa tarde a resgatar da entropia que me cerca fotografias dispersas, negativos. As fotos de Brasília apareceram logo, mal dei atenção. Um rosto querido aqui, outro ali, quase todos já meio desbotados na memória. Em todas as fotos o mesmo desleixo meu, a pouca convicção no gesto, movido mais por uma noção de dever do que tesão. Achei-as, não dei bola. Preto e branco, todas, sem a cor que eu devoro lambendo beiços. Mas e Brasília, tem ela cor?

20h15 .
Quando eu era menino e o televisor também, havia válvulas. O aparelho demorava a despertar, o calor rubro dentro das campânulas ressuscitava a máquina pouco a pouco. Elas morriam fulminadas por um enfarte, e uma mancha no vidro era a pústula letal. O cadáver empoeirado, com perninhas de aço, virava nas minhas mãos nave estelar de uma era transparente, com fulgores perenes e brilhos metálicos.

Extinguiram-se as válvulas e com elas a geografia abrupta, vertical e térmica dos colossos eletrônicos. Onde brilhavam tríodos jurássicos, hoje pastam chips nas pradarias das placas.

Do alto de um prédio alto olhei Brasília. Olhei, olhei. A geometria pobre, plantada no verde uniforme, interligada por exageros de pistas, e eu olhando. A mesma opacidade, a mesma aridez das entranhas cibernéticas, as mesmas caixinhas e linhas sobre um fundo verde. A mesma impressão de fluxos entrecruzados e invisíveis, de impulsos incorpóreos sendo ruminados, digeridos, recompostos nas caixinhas herméticas. Pessoas? As poucas que se viam davam pena. (Dias antes bancara o pedestre, de manhã, de noite; desesperante sempre).

Os blocos que eu via eram nós de uma trama móvel e furiosa de telefonemas, de rios de papéis e afluentes, de comércio de reverências e referências. Fluxos e fluxos sobrepostos, cruzados, contraditórios. Mas eficientes. Ali estavam o bucho, os miolos, os órgãos internos do poder operando silenciosos. Adiposidades, tumores, sangrias. Um paquiderme impalpável crescia e engordava voraz. Visíveis só os blocos, os carros pequeninos levando encapsulados sabe-se quem. E o cerrado teimoso, se infiltrando a cada descuido.

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Como si fuera esta noche 


Fizemos hora, cochilamos até, e mesmo assim chegamos cedo demais. O salão estava quase vazio, parecia estar assim vazio há décadas, condenado a se esvaziar ainda mais, lentamente. Espalhados por mesas espalhadas ao redor da pista, pequenos grupos conversavam discretamente. Antigos os móveis, antigo o chão, antigos os portenhos que ali estavam. Todos ali (móveis, piso e portenhos) talhados em madeira nobre, marcados pelo tempo, polidos pelo roçar contínuo e imemorial entre portenhos, móveis e chão.

Cada um ali, homem, mulher, de tanto viver (e por tanto tempo) havia acumulado seu fardo de atributos: bisavó aquela ali de vestido vermelho curto, ex-deputado o senhor galante de bigodes engomados, catedrático aquele outro. Por algum feitiço, contudo, esses títulos e referências e índices da história particular de todos eles ficaram fora do salão, pendurados talvez na chapelaria entre sobretudos e guarda-chuvas. Dentro do salão apenas homens e mulheres, atemporais.

O tango inicia e mobiliza esses anciãos que vieram dos seus lares dispersos pela cidade plana para dar vida e passos e volteios e nuances ao tango que pulsa amplificado nos alto-falantes.

Se um ali conduzia sua parceira por meneios e minúcias de uma gramática complexa, ou se dois velhinhos voavam lépidos pela pista, isso não importava, não para um casal que, no meio dos pares, dançava no centro do mundo. O tango fora composto, o salão fora construído, ele nascera homem e ela mulher unicamente para que naquela noite eles dançassem assim, como numa última vez.

Dançavam no olho do furacão.

O tango acaba, desfaz-se o encanto e os dois gigantes são de novo homem e mulher. Polidamente se separam, galantes, quase embaraçados, e ele volta para a sua mesa sozinho onde estava desde o início, sério e quase hostil. A dama junta-se a uma companheira numa mesa mais distante e retomam a conversa que o tango interrompeu.

O tango iniciará de novo e aquele homem sólido, sanguíneo se levantará, caminhará diretamente à mesa de onde a dama já o fita, e será tango novamente.

Não havíamos chegado cedo. Tudo ali começara muito, muito antes, e tinha muita história dentro de si. O chão, os móveis, os portenhos.

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