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Radinhos de Pilha

Eu não poderia ser jornalista jamais. Adoro histórias incompletas, pontos obscuros, detalhes faltando, começos incertos. Se alguém me contar tudo, a magia se vai.

Não sei o nome desse homem, sei apenas que é pai de alguém próximo. Nunca o vi, e jamais o verei. Morreu faz tempo. Da sua vida inteira sei apenas um detalhe, peça solta de um quebra-cabeça perdido: ele torcia com uma paixão destrutiva. Quando o time perdia, destruía o radinho.

Cada derrota era um radinho de pilha que se estraçalhava contra a parede, arremessado com fúria. A parede era sempre a mesma, alvejada a partir da mesma poltrona. Os radinhos é que mudavam, condenados a um ciclo cármico de vida breve e morte matada. Mais desse homem eu nao sei, apenas essa cena em looping perpétuo, como em um disco riscado.

Radinhos me fascinam. Meu sogro não troca seu radinho AM (e a sua estática diabólica) por nada desse mundo. O pai de um amigo meu, quando a luz acabou no meio da corrida de fórmula um, desceu sete andares de escadas (no escuro!) para acompanhar no radio do carro.

Há algo mágico no radinho. As ondas moduladas que mal e mal transportam som transmitem uma energia única que ilumina corações.

Meu sonho é descobrir qual a magia por trás da internet. Tenho algumas pistas, já. Li outro dia uma pesquisa informal feita pela Intel, em que usuários disseram que seu sonho de tecnologia eram máquinas que não travassem, sistemas que fossem fáceis. Ninguém priorizou velocidade, capacidade, recursos extraordinários. Queriam algo confiável, nada mais.

Em outra pesquisa promovida pela Price (acho que vi na DeveloperWorks da IBM) usuários americanos disseram que não se sentiam motivados a migrar para a banda larga. A conexão discada é bastante satisfatória para a troca de emails e transações simples.

Todos os sinais apontam para um caminho que vai na contramão da pirotecnia, das tecnologias espalhafatosas, das animações em flash: o caminho da relevância, da utilidade, do toque humano.

As máquinas e recursos que usamos são tão sedutoras que esquecemos a diferença entre:

  • criar coisas que podem ser vistas com um browser, em um PC
  • criar coisas para a internet
Criar para a internet é mais do que criar uma peça de comunicação. É criar ferramentas, canais, espaços, mundos para pessoas, pessoas que vão com elas solucionar seus problemas, pessoas que querem se sentir autônomas, senhoras de si e dignas. Essa emoção, a de se sentir mais pleno, nenhuma outra mídia dá.

Frustrar essa emoção ou provocar o oposto dela - o vazio, a frustração, o despeito - é assustadoramente fácil, é um risco que nos assombra o tempo todo. Uma promessa que não cumprimos, uma invasão na privacidade, um tratamento inadequado, a frieza inesperada, qualquer deslize desses pode por a perder a confiança tão cuidadosamente conquistada.

Seja qual for a tecnologia, nós a absorvemos ou rejeitamos como um implante no nosso organismo: ou ela nos fortalece, ou a descartamos. Se até hoje somos tão tolerantes com essa parafernália instável que precisamos para nos conectar, é porque isso, de alguma maneira, nos faz mais humanos.

Mesmo que tenhamos vontade de jogar esses PCs na parede de vez em quando.




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rené de paula jr
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