internet tête-à-tête
artigos de rené de paula jr.


índice dos textos:

Concreto transparente
pelo fim das fachadas

Darwin exultou. Milênios de insularidade pariram em Galápagos criaturas bizarras, filhas do isolamento e da adaptação inventiva. Répteis gigantes, pássaros estranhos, uma festa para o naturalista.

Nosso país é, igualmente, habitat de fascinantes espécies endêmicas. Despachantes, por exemplo, só existem aqui. Cambistas e flanelinhas, abundantes e saudáveis, desconhecem ameaças naturais e proliferam à vontade. A selva que eliminamos com tanto afinco se insinua no cotidiano, e sanguessugas e parasitas voltam à vida sob mil disfarces: engravatadas, maltrapilhas, fardadas.

Terra que o tempo esqueceu, elo perdido entre o feudo e a urbe, nossa pátria é berço do carinho e ninho do descaramento. A hipertrofia da candura amancebada com o egoísmo mais natural. Terra de contrastes e contratos, de pactos e de patos, do deixa-comigo e do deixa-pra-lá. Do bandido paternal e do patrono criminoso.

O corpo da nação presta tributo a lombrigas seculares.

Ainda não se sabe o que pôs cabo aos dinossauros, mas antevejo o que pode nos livrar dos fósseis sociais que infestam esta terra.

Parasitas se instalam nas superfícies, nas membranas, lá onde as trocas ocorrem. Ali cobram seu dízimo, se nutrem, enfraquecendo o hospedeiro sem matá-lo.

Onde o cidadão se depara com o labirinto da lei, surge o mago da burocracia. Na fronteira que separa o consumidor do fabricante, floresce o contrabandista. Mediando fiéis e deuses pululam profetas.

Atravessadores. Se não existisse o fosso, eles o inventariam. Se o fosso existe, proclamam-se a única ponte. Estratégia infecunda, empobrecedora, que prospera sobre corpos fracos, e que tem seus dias contados. Hoje as pontes se multiplicam, caem muros, e a menor distância entre dois pontos é uma linha.

Telefônica.

Mouses acuam paquidermes.

No mundo imaterial do cyberspace só prospera o que é concreto. Nesse campo aberto e sem trincheiras vence a agilidade, a substância, a competência. Seleção natural numa selva de zeros e uns.

(Comprei recentemente um software importado de um representante nacional. Paguei mais caro pelo produto que eu poderia ter adquirido online, e o que é pior, o dito "representante" não se deu ao trabalho nem de traduzir o manual. Outra armadilha: quase compro online um ingresso para um espetáculo na cidade. A taxa pelo serviço era de mais de 25% do valor do bilhete. Se você for comprar online um ingresso para a Broadway a taxa mal chega a 10%. Provedores estrangeiros de hosting oferecem serviços excelentes por taxas muito menores que as nacionais. Aprendi a lição: tendo que optar entre duas tecnologias similares, driblei fronteiras e esquemas e adotei a que se impõe pela qualidade. E é gratuita.)

Esse novo mundo que estamos desbravando atrai piratas assim como o Brasil atraiu séculos atrás. A diferença, agora, é que pernas-de-pau e caravelas têm carreira curta, e logo naufragam. Não se vive mais de brisa frente a motores e chips.

Que venga el toro, e que sobrevivam os melhores. Pela evolução da espécie, e do país.




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