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Concreto transparente
pelo fim das fachadas
Darwin exultou. Milênios de insularidade pariram em
Galápagos criaturas bizarras, filhas do isolamento e da adaptação inventiva.
Répteis gigantes, pássaros estranhos, uma festa para o naturalista.
Nosso país é, igualmente, habitat de fascinantes espécies endêmicas.
Despachantes, por exemplo, só existem aqui. Cambistas e flanelinhas,
abundantes e saudáveis, desconhecem ameaças naturais e proliferam à
vontade. A selva que eliminamos com tanto afinco se insinua no cotidiano,
e sanguessugas e parasitas voltam à vida sob mil disfarces: engravatadas,
maltrapilhas, fardadas.
Terra que o tempo esqueceu, elo perdido entre o feudo e a urbe, nossa
pátria é berço do carinho e ninho do descaramento. A hipertrofia da
candura amancebada com o egoísmo mais natural. Terra de contrastes e
contratos, de pactos e de patos, do deixa-comigo e do deixa-pra-lá.
Do bandido paternal e do patrono criminoso.
O corpo da nação presta tributo a lombrigas seculares.
Ainda não se sabe o que pôs cabo aos dinossauros, mas antevejo o que
pode nos livrar dos fósseis sociais que infestam esta terra.
Parasitas se instalam nas superfícies, nas membranas, lá onde as trocas
ocorrem. Ali cobram seu dízimo, se nutrem, enfraquecendo o hospedeiro
sem matá-lo.
Onde o cidadão se depara com o labirinto da lei, surge o mago da burocracia.
Na fronteira que separa o consumidor do fabricante, floresce o contrabandista.
Mediando fiéis e deuses pululam profetas.
Atravessadores. Se não existisse o fosso, eles o inventariam. Se o fosso
existe, proclamam-se a única ponte. Estratégia infecunda, empobrecedora,
que prospera sobre corpos fracos, e que tem seus dias contados. Hoje
as pontes se multiplicam, caem muros, e a menor distância entre dois
pontos é uma linha.
Telefônica.
Mouses acuam paquidermes.
No mundo imaterial do cyberspace só prospera o que é concreto. Nesse
campo aberto e sem trincheiras vence a agilidade, a substância, a competência.
Seleção natural numa selva de zeros e uns.
(Comprei recentemente um software importado de um representante nacional.
Paguei mais caro pelo produto que eu poderia ter adquirido online, e
o que é pior, o dito "representante" não se deu ao trabalho
nem de traduzir o manual. Outra armadilha: quase compro online um ingresso
para um espetáculo na cidade. A taxa pelo serviço era de mais de 25%
do valor do bilhete. Se você for comprar online um ingresso para a Broadway
a taxa mal chega a 10%. Provedores
estrangeiros de hosting oferecem serviços excelentes por taxas muito
menores que as nacionais. Aprendi a lição: tendo que optar entre duas
tecnologias similares, driblei fronteiras e esquemas e adotei a que
se impõe pela qualidade. E é gratuita.)
Esse novo mundo que estamos desbravando atrai piratas assim como o Brasil
atraiu séculos atrás. A diferença, agora, é que pernas-de-pau e
caravelas têm carreira curta, e logo naufragam. Não se vive mais
de brisa frente a motores e chips.
Que venga el toro, e que sobrevivam os melhores. Pela evolução da
espécie, e do país.
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