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internet tête-à-tête artigos de rené de paula jr. |
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MUITO PESSOAL No mundo todo, a carreira mais lenta é a de filho. Você é obrigado a esperar décadas para ser promovido ao cargo de pai. A piada (da Mafalda, uma personagem lá do século vinte) é ingênua, mas ao saber que minha irmã esperava seu segundo filho, além de deliciosamente comovido, senti-me mais do que tio. Senti-me promovido a uma categoria especial: a tio do século passado. Sensação curiosa, essa. Vou olhar para essa criança e pensar: você é do século 21. Cá estamos nós, pessoas de um outro século bruscamente a bordo do terceiro milênio. Não é o paraíso, muito menos o inferno, mas a novidade é que aqui não há mais luz no fim do túnel. Luz é o que não falta, o que acabou é o túnel. Chegamos do outro lado. Agora tudo é "do ano 2000" mesmo, do supercomputador ao grampo de cabelo. Até que alguém crie uma nova grife para tudo o que é visionário, estamos todos sem um norte, um farol que indique quando começa o futuro. Bem-vindos, temporariamente, ao presente. Os publicitários diziam: no dia que a internet for uma mídia "de massa", aí sim. As produtoras diziam: no dia em que houver dinheiro para a internet, aí sim. Os profissionais de mídia: no dia em que internet for mensurável, aí sim. Os clientes: no dia em que meu concorrente entrar na web, eu entro. Pois bem, o dia chegou. A "revolução digital" vai bem, obrigado. Revoluções têm sempre vítimas, e se fizermos um balanço honesto dos mortos e feridos veremos que muitos dos slogans - como em toda revolução - eram cândidos. Os middle men, por exemplo, perderam terreno em algumas áreas mas souberam reagir. Exemplos: mesmo que seja possível negociar ações online, as dicas de brokers experientes são hoje muito bem pagas. A compra online de carros não necessariamente é mais vantajosa do que a feita num dealer, onde é possível barganhar e fazer negócios menos convencionais. O poder milagroso da abundância de informações mostrou-se quimera. A abundância é fato, mas as informações são tantas e tão dispersas que o usuário fica aliviado quando encontra uma ou duas fontes que concentram tudo o que precisa. Mais um: a facilidade de comparação de preços online iria acirrar a concorrência. Surpresa: muitos dos usuários (eu me incluo) preferem comprar em sites conhecidos, que tenham uma boa política de relacionamento, sem questionar o preço tanto assim. Quanto a tecnologias, nem se fala. Webdesigners apoiados por publicitários e afins alardeavam uma época áurea onde a internet seria multimídia, "emotiva", onde o design voaria solto, sem amarras. A sensatez felizmente imperou e a vanguarda hoje são sites enxutíssimos, funcionais, mais rápidos, com um investimento milionário em tecnologias invisíveis (databases, CRM, segurança). Quem diria, por exemplo, que um sistema operacional gratuito pudesse ameaçar o império Microsoft? Parabéns ao Linux. Parabéns ao Palm Pilot, tão modesto e despretensioso, mas onipresente nos bolsos por aí. O Acaso e a Fortuna poderiam levar o crédito por tantas derrocadas e vitórias, mas eu continuo firme nas minhas apostas. Vejo que por trás de tantas mudanças (ou acima delas, ou abaixo também) algo permanece. O mundo é feito de gente. Slogans à parte, bandeiras, números à parte, o que há são pessoas. Pessoas têm história, têm dignidade, querem se realizar, exigem respeito. O que deu força à Internet foi a ânsia de pessoas insatisfeitas com o blá-blá-blá do falecido século 20. Pessoas que se cansaram das promessas vazias, do desejo frustrado, da indiferenciação, da irrelevância que vêm das metrópoles, da mídia de massa, da publicidade, da política. Só depois que milhões dessas pessoas deram corpo à Internet é que a maioria de nós entrou no barco. Quem tentou fazer online o mesmo que fazia há décadas teve sucessos variados. Outros tentaram descobrir como satisfazer o anseio geral por participação, conveniência e sobretudo respeito. Eu, modestamente, me incluo no segundo time, e acredito cada vez mais no que faço. Nada é mais apaixonante, complexo, dinâmico e "interativo" do que a arte do Relacionamento. Mais instigante do que tecnologias é descobrir como usá-las a favor de uma vida mais digna. OK, estou sendo idealista e sentimental. É que minha irmã está grávida, o mundo não acabou e estou no ano 2000. Dêem um desconto, afinal eu sou gente. Cada vez mais. |
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