internet tête-à-tête
artigos de rené de paula jr.


índice dos textos:

Antes que seja tarde

Não quero ser alarmista, juro, nem azedar o seu dia, mas estamos em julho de 1998.

(Pensei até em usar uma daquelas fontes de gibi de terror ou de capa de disco de rock para essa frase aterradora, mas lembrei-me a tempo de uma anedota: um homem era fascinado por Guimarães Rosa. Leu absolutamente tudo, estudou, debateu, mas uma dúvida o perseguia. Atormentado, procurou o escritor. Guimarães Rosa o recebeu, e ouviu do admirador uma só pergunta: "Sr. Rosa, em toda a sua obra nunca encontrei pontos de exclamação nem reticências. Isso tem razão?" O Mestre teria respondido algo assim: "Homem que é homem não se espanta à toa nem deixa nada em suspenso". Pois bem, que o fato grite e pese por si só. Estamos em julho de 98.)

Não quero relembrar promessas de révéillon ou as conjecturas otimistas de todos nós. Isso dá samba mas não rende artigo. Prefiro me concentrar na mídia interativa. (Aliás, nada rende mais mídia espontânea do que a mídia interativa. Tenho a impressão que falar sobre internet movimenta mais dinheiro do que a internet em si).

OK, esse ano é histórico para o webvertising nacional, e está aí o cyberlion da DM9 DDB para nos inspirar a todos. Essa conquista parecia ser o pontapé inicial e glorioso para o webvertising brasileiro, e torço para que realmente seja.

Se pareço um pouco cético agora é por ter ouvido boatos de que esse seria o primeiro e último ano dos Cyberlions, e que o Festival de Cannes se concentraria apenas em filmes publicitários. Como o boato nasceu e se ele procede não me interessa tanto, o que me incomoda e muito é que ele vinha acompanhado de um certo tom de alívio.

Sete meses desse ano se passaram, e o que falta ainda para a mídia interativa conquistar corações e mentes? Ou ainda: o que provoca tanta rejeição?

Mistério. O que sei é que a defesa dos refratários é sempre a mesma: isso rende quanto?

(Esse rigor contabilista parece lei brasileira, só vale para inimigos. Preste atenção e veja quantas decisões na sua empresa são julgadas assim. Poucas, convenhamos, e não necessariamente as melhores. Se nos limitássemos a esse raciocínio simplista, venderíamos todos os computadores e voltaríamos a fazer lay-outs a lápis. Que tal lhe parece a idéia?)

A rentabilidade imediata da web é nosso calcanhar-de-aquiles, e é aparentemente paradoxal que grandes empreendimentos online ainda tenham situação financeira frágil. A Amazon Books cresce, cresce, mas não gera a fortuna que imaginamos. Mesmo as webagencies têm que conviver com números muito mais modestos que o de uma agência tradicional.

Paradoxos à parte, cresce cada vez mais o vulto e o alcance dos empreendimentos ditos virtuais (se é que milhões de dólares, megacomputadores, satélites e milhares de quilômetros de fibras óticas podem ser considerados virtuais).

Há um movimento irreversível em andamento, e não há como fechar os olhos para isso. A chave desse movimento é a conexão, a interatividade, o compartilhamento. Seu computador já funciona assim, as máquinas do seu escritório estão interligadas mesmo que precariamente, o seu banco hoje é mais ágil por causa disso.

Encarar a mídia interativa como apenas uma oportunidade marginal de negócio é não perceber que a interatividade já  invadiu o nosso cotidiano e o mudou irreversivelmente.

Criar iniciativas isoladas na Internet e cobrar delas retorno instantâneo é condená-las ao fracasso. Incorpore a interatividade ao seu negócio como um todo e você estará no caminho correto.

Insisto: estamos em julho de 1998. Entramos num caminho sem volta. Sobretudo para os que ficarem para trás.




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