|
| |
Confissão honesta.
Duas ou três coisas despertam em
mim uma inveja indigesta. Hoje torno pública uma fraqueza inconfessável:
sempre invejei pessoas que estavam na época certa, no lugar certo e
vivenciaram plenamente momentos irrepetíveis. Eu era uma criança em
maio de 68, um adolescente tímido nos anos setenta, e acabei tendo que
engolir a estranha década de oitenta com a certeza de chegar no final
de uma festa enlouquecida. E fim de festa é sempre uma lástima, ainda
mais se você é o único sóbrio.
Algumas das histórias mais invejavelmente saborosas e coloridas que
já ouvi foram contadas (e muito bem contadas) por veteranos do rádio
e da televisão. O rádio teve uma expansão brilhante no nosso país, levada
adiante por grandes atores, dramaturgos, músicos, artistas circenses
e visionários. Ouvir relatos desses pioneiros é arrebatador.
Essa mesma geração abraçou a TV com uma missão impossível: fazer televisão
sem nunca ter visto televisão. Um ou outro felizardo ia aos Estados
Unidos e voltava contando as maravilhas, mas sem nem uma VHSzinha pra
poder mostrar. Acredite se quiser, mas TV era ao vivo. Nada de videotapes,
séries enlatadas. Ao vivo.
Nada de undos, CTRL+Z ou back-ups para reverter burradas. Coisa para
cabra macho.
Eu morria de inveja dessa safra de aventureiros. Eles traziam nos olhos
o brilho de uma primavera da História.
Tenho um certo receio que minhas histórias não venham a encantar gerações
vindouras. Vai ser difícil descrever nossa luta diária com máquinas
instáveis, softwares trôpegos e uma massacrante falta de tempo. Pensando
bem, agruras não interessam a ninguém. O que talvez me garanta um ouvinte
aqui e outro ali seja um brilho no olhar, o calor na voz, o gesto apaixonado
ao contar uma aventura fascinante, a de ter sido um protagonista modesto
da primeira saga sem heróis nem deuses, da única história escrita por
milhões de mãos.
Uma inveja a menos na alma. E o que é melhor: ninguém precisa ter inveja
disso. É só pôr a mão na massa.
|