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artigos de rené de paula jr.


índice dos textos:

Confissão honesta.

Duas ou três coisas despertam em mim uma inveja indigesta. Hoje torno pública uma fraqueza inconfessável: sempre invejei pessoas que estavam na época certa, no lugar certo e vivenciaram plenamente momentos irrepetíveis. Eu era uma criança em maio de 68, um adolescente tímido nos anos setenta, e acabei tendo que engolir a estranha década de oitenta com a certeza de chegar no final de uma festa enlouquecida. E fim de festa é sempre uma lástima, ainda mais se você é o único sóbrio.

Algumas das histórias mais invejavelmente saborosas e coloridas que já ouvi foram contadas (e muito bem contadas) por veteranos do rádio e da televisão. O rádio teve uma expansão brilhante no nosso país, levada adiante por grandes atores, dramaturgos, músicos, artistas circenses e visionários. Ouvir relatos desses pioneiros é arrebatador.

Essa mesma geração abraçou a TV com uma missão impossível: fazer televisão sem nunca ter visto televisão. Um ou outro felizardo ia aos Estados Unidos e voltava contando as maravilhas, mas sem nem uma VHSzinha pra poder mostrar. Acredite se quiser, mas TV era ao vivo. Nada de videotapes, séries enlatadas. Ao vivo.

Nada de undos, CTRL+Z ou back-ups para reverter burradas. Coisa para cabra macho.

Eu morria de inveja dessa safra de aventureiros. Eles traziam nos olhos o brilho de uma primavera da História.

Tenho um certo receio que minhas histórias não venham a encantar gerações vindouras. Vai ser difícil descrever nossa luta diária com máquinas instáveis, softwares trôpegos e uma massacrante falta de tempo. Pensando bem, agruras não interessam a ninguém. O que talvez me garanta um ouvinte aqui e outro ali seja um brilho no olhar, o calor na voz, o gesto apaixonado ao contar uma aventura fascinante, a de ter sido um protagonista modesto da primeira saga sem heróis nem deuses, da única história escrita por milhões de mãos.

Uma inveja a menos na alma. E o que é melhor: ninguém precisa ter inveja disso. É só pôr a mão na massa.




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