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Tudo que é sólido desmancha em bytes
Quem garante que a sua profissão, hoje tão necessária, amanhã não será
substituída por uma rede neural? Ou por um tamagochi melhorado? Nada
é seguro nessa revolução permanente.
Algumas especializações, porém, continuarão sendo insubstituíveis e
muito rentáveis por um bom tempo, como vêm sendo há milênios. Os nomes
talvez mudem para tradutor/intérprete de borra de café, scanner de palma
de mão, técnico de telecomunicações etéreas e analista sênior de baralhos
exóticos. Mas a teoria e prática serão as mesmas, se é que há teoria.
(essas profissões têm peculiaridades sedutoras: não requerem
diploma, não pagam impostos e, o que é mais fascinante, erros crassos
não desmerecem o adivinho).
O métier divinatório-profético-vidente deve sua glória imorredoura à
um fantasma também imorredouro: o insondável. O outro lado da lua, a
noite, o além-morte, nossos velhos fantasmas, têm agora um companheiro
de mistério, o gosto da massa humana.
Para perscrutar esse novo arcano surgiu um upgrade da bola de cristal,
a telinha do IBOPE. Aqueles números irrequietos e inexpressivos decidem
a sorte de milhões de dólares.
Tudo que é movido por forças desconhecidas desperta em nós comportamentos
mágicos. Para manter o IBOPE auspicioso, editores de jornal banem assuntos,
favorecem outros, diretores de novela matam personagens, esticam romances,
da mesma maneira como se sacrificam galinhas para reaver a esposa fugida.
Fazem como nós, que ameaçamos com tapas inúteis ou palavrões impressoras
indóceis.
Mas apesar da empáfia dos especialistas, a massa continua imprevisível.
Por que a Coca-cola ganhou o mundo? E o blue jeans, quem explica? O
chiclete? A música neo-sertaneja?
O som quadrifônico, por outro lado, caiu do galho, deu dois suspiros
e depois morreu. O vídeo Betamax, o amor livre, as bonecas Dorminhocas,
o comunismo, o Jerry Lewis, todos eles caíram em desgraça sem aviso
prévio. Mistérios impenetráveis.
Pelo sim, pelo não, os grandes pajés do gosto da massa vêm apostando
na infantilização global: consumo de bugigangas, entretenimento descartável,
e todas as variações do egoísmo e irresponsabilidade. Alguns acertos
milionários aqui, fracassos fragorosos ali, e continuam investindo em
gomas de mascar mascaradas.
Aqui e ali na história, salvadores e revolucionários dedicaram suas
vidas a nos redimir, a iluminar a massa e direcioná-la rumo ao que eles
juravam ser muuuuito melhor. O destino desses heróis todos conhecem:
a massa os mastigou, cuspiu a carcaça e engoliu um ou outro bocadinho
mais saboroso.
Ingratidão? Mediocridade? Menos do que isso. A massa humana é mais esperta
do que imaginamos. Quando uma espécie inteira ou mesmo apenas uma cultura
local está em jogo, é loucura apostar o destino de todos na proposta
de um só. É mais seguro acompanhar de longe o que sucede a esse revolucionário,
aprender com ele uma coisinha ou outra, e deixar que o moderninho se
arrebente. Uma espécie sabe o que tem a perder, e mal imagina o que
pode ganhar. Daí a cautela.
Essa prudência misturada à curiosidade gera o vaivém das modas, o fracasso
de reformas, e um aparente comodismo generalizado.
O sucesso e a expansão da Internet me surpreendem, e me enchem de otimismo.
Milhões de pessoas estão apostando nessa mídia precária e nessas máquinas
instáveis, sem que ninguém os force a isso. O que eles vêem de bom na
Internet? O contato humano, a conquista de uma certa soberania, a liberdade
de expressão, a informação imediata? Não sei, e tenho um receio: de
que tentemos mudar os rumos da Internet e que a massa se desencante.
Mas eu ando tão entusiasmado que acho que a humanidade
cansou de ser criança, e não está mais para brincadeira.
Se essa profecia falhar, o azar é nosso.
Minha dica da semana é Playbill Online: ali você pode comprar ingressos
para todas as peças da temporada nos EUA. Funciona.
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