internet tête-à-tête
artigos de rené de paula jr.


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Versão brasileira

“A internet é a resposta. Falta só uma boa pergunta”.

Pronto. Aí estava a idéia que eu procurava. Saboreei-a por horas, apreciei o trouvaille de vários ângulos, e fiquei feliz. Faltava apenas o resto desse artigo, meros 3750 toques. Com um começo tão bem sacado, havia de ser moleza.

Ledo engano. O fruto de meio domingo foi meia página rabiscada e nenhum avanço. Não passei do pontapé inicial. Devia ter seguido o conselho do querido Chico de Assis e criado primeiro o final da história.

Talvez o problema fosse justamente esse: não saber onde eu queria chegar. Não ter um fio condutor, uma espinha dorsal para o artigo. Sendo muito honesto, o que eu tinha eram idéias vagas, orbitando capengas uma frase de efeito.

Isso não é original, afinal nada é mais brasileiro do que ter uma sacada genial e achar que isso basta, ou primar pela criatividade e descuidar da realização. Ou acreditar que criar é nobre e que fazer é para os outros. Por essas e outras que continuaremos a ser um país premiadíssimo pela sua criatividade e lanterninha nas questões pública, social, etc.

A nossa brasilidade foi solo fértil para a explosão da web, mas o sucesso em internet depende de fatores que são exóticos na nossa cultura: planejamento, empenho, continuidade, minuciosidade.

Pense num projeto de Customer Relationship Management, por exemplo. O que mais parece seduzir brasileiros nessa história de CRM é a possibilidade de cercar o consumidor por todos os lados (ou pontos de contato) imagináveis e fazer duas coisas: sugar toda informação possível, e persegui-lo com anúncios.

Essa intimidade com o cliente, porém, só vai durar se o que oferecermos for vantajoso, e sobretudo se essa vantagem aumentar com o tempo. Isso parece simples, já que conheceremos cada vez melhor o consumidor, mas envolve um aprendizado perpétuo, um esforço contínuo de aprimoramento do produto, uma otimização constante do negócio.

Esforço? Aprendizado? Otimização? E pra sempre, ainda por cima? Qual o brasileiro que abraça um desafio desses de peito aberto, sorridente? Poucos. Eu tenho a sorte de conhecer alguns, e os valorizo muito.

Qualidade é outro conceito estranho à nossa mentalidade. Qualidade, para um ex-quase-engenheiro-de-produção como eu, significa primeiro estabelecer critérios de avaliação e depois respeitá-los sempre. Se eu me comprometi a entregar mil ovos chocos por semana e respeito esse compromisso, serei o campeão da qualidade, mesmo com ovo choco. 

Já quem é genial uma vez por semana, mas medíocre no resto do tempo, não tem qualidade. Não serve como parceiro, nem como fornecedor.

É comum tentam replicar aqui estratégias que deram certo lá fora, mas algo se perde no processo sempre. Talvez porque seja mais fácil dar copy-paste em design e código do que em maturidade, pragmatismo, lucidez, postura.

Sem isso não adianta pensar em e-business, CRM, ou seja, o que for. Vamos imitar a pantomima sem entender o enredo.

Um parêntese: você já ouviu falar em cargo cult? Durante a Segunda Guerra os americanos espalharam bases militares pelo Pacífico. Os melanésios piraram quando aviões, navios, e milhares de soldados caem literalmente out of the blue naquele paraíso intocado.

Os americanos foram bacanas e distribuíram comida e badulaques, e os nativos adoraram. Um belo dia os gringos se vão. Resultado: surge nas ilhas uma seita religiosa popularíssima (o tal do cargo cult) que prometia a vinda triunfal de containeres cheios de maravilhas, iguais os dos americanos, só que trazidos pelos deuses. Pra apressar esse milagre, nativos fizeram pistas de pouso de bambu, torres de radio de bambu, até aviões de bambu (tenho foto). Tenho foto também de um que estampou USA no peito pra ficar igual as t-shirts dos soldados. Ficou lindo, mas estão esperando até hoje.

Ok, desabafei. E quanto à minha frase de efeito, não a espalhem ainda não. Hei de achar uma utilidade pra ela.




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