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artigos de rené de paula jr.


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Todo espelho é mágico

Espalhe um banho de prata sobre uma lâmina de vidro. Uma película se forma e, em contato com o ar, oxida sem demora, fica opaca. A outra face dessa fina camada tem outro destino. Contígua ao vidro e separada do mundo, a prata se furta ao tempo, e brilha para sempre. Sua sina agora é refletir fielmente. Eis um espelho. 

Por ironia ou encanto, a imagem que o espelho devolve se recusa a envelhecer. O rosto que vejo é o mesmo de sempre, não acusa mudanças. 

Aprisionada em celulóide ou papel, a prata não brilha mais, enegrece. Como que por vingança, fotografias  denunciam cada ruga no rosto, cada traço do tempo. Denúncia inócua: o olho vê o que quer. 

(Presenteei minha avó com um retrato dela que achei excepcionalmente feliz, superior a qualquer outro que eu já fizera. Ela odiou. Foto boa, mesmo, era a da sua cédula de identidade. Aquela sim era ela. A cédula tinha vinte anos.) 

O olho tem o vício estranho de recorrer primeiro à memória, depois ao que olha. É mais prático, mais rápido, é confortante. Acompanhar o devir do mundo é trabalho sem trégua, é dispersão, e olhos nasceram para focar, para se concentrar num único ponto móvel. 

Isso é vício, limitação, defeito? Não, é invenção. Acompanhar os fluxos e refluxos das coisas, suas paradas e reviravoltas parece impossível, vertiginoso. Mais seguro é se concentrar em um só ponto, e condenar o que sobra ao papel de cenário. Seguro mas arriscado, pois o o cenário e seus figurantes se transformam, crescem à revelia, em todas as direções, e quando menos se espera o mundo ataca pelas costas, foge aos nossos pés, nos escapa entre os dedos. Indiferente ao nosso engano o espelho nos sorri, e, como a lua, nos mostra a mesma face. 

Contra o feitiço de um espelho só outro espelho, ou vários. Colocados em ângulo, multiplicam-se as vistas, e o olho atônito descobre que sua imagem tem verso e reverso. O cubismo é franco, desconcertante, e fiel.

(Seixos, de tanto rolar, perdem asperezas, ficam redondos. Humanos, quanto mais se expõem e se põem à prova, mais se aguçam, mais arestas criam, têm novas faces, outros vértices. Só arredondam se ficarem parados.) 

Nunca senti minha atenção tão disputada. Pager, e-mails, telefones, compromissos, todos clamam por respostas, por ações. Dispersão quase esquizo, mas apaixonante, e irreversível. Como na Química, aumentam a cada dia as superfícies de contato, e as reações se intensificam..

Crie mil olhos, combine espelhos, e abrace tantos fluxos quanto puder. Ou arredonde.




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