internet tête-à-tête
artigos de rené de paula jr.


índice dos textos:

Já disse Millôr: a Música é a única arte que nos ataca pelas costas. E eu modestamente acrescento: fotografia também pode ser traiçoeira, mesmo quando não é arte.

Fui pego desprevenido outro dia por um álbum de viagem ancestral. O bandido ficou na tocaia por bons vinte anos para me dar o bote numa arrumação geral de armários.

A viagem em questão era minha primeira viagem, e a câmera, minha primeira câmera.

Revendo-me em fotos descoradas (ou será que já eram ruins?) entendi claramente por quê certas tribos indígenas mantêm seus adolescentes trancados numa oca: por razões estéticas. Credo cruz, essas minhas fotos o mundo não verá jamais.

Uma delas, porém, trago a público: a pérola ao lado, onde uma máquina de jornal posa desenxabida. Você dirá: e o quico? Pois bem, saiba que há vinte anos essa maquininha singela dava um nó na cabeça de brasileiro.

O chocante não era tanto a modernidade da engenhoca, era a sua fragilidade. O que impedia que o cidadão levasse mais de um jornal, ou arrombasse a dita cuja? A pergunta se auto-responde: o fato de ser cidadão. Essa cidadania era na época mais perturbadora do que qualquer tecnologia.

Uma maquineta dessas no Brasil d'antanho ia virar piada. Em primeiro lugar, quem garantiria que haveria jornais novos sempre? Além disso, ia ser preciso sofisticar muitíssimo o mecanismo, para garantir que um só jornal fosse tirado por vez. A tranca deveria ser reforçada, e um alarme instalado. O jornal ia acabar saindo mais caro, e ao invés de usar moedas, você teria que comprar uma ficha na banca mais próxima. (Quem se lembra das primeiras vending machines daqui sabe que não estou delirando).

Folhear o álbum da Web perturba, também. Algumas donzelas antes fotogênicas e cobiçadas ficaram pra titia, outras que ninguém dava bola hoje batem um bolão. Uns deram o golpe do baú, outros estão enchendo o mundo de filhos, um encalhou e passa a vida a falar mal dos outros. A Web gira e a Lusitana roda.

Crescemos todos? Espero que sim, e digo isso não só pelo engravatamento geral do métier interativo, mas sobretudo pela maturidade dos projetos que estão surgindo. Claro que ainda há Peter Pans por aí se recusando a crescer e fazendo sites pueris, injustificáveis, mas quem quer pagar por isso?

(Talvez um dos problemas da mídia interativa seja esse. Algumas coisas são uma delícia de se fazer: animações rebuscadas, layouts bizarros, tecnologias de ponta. Justamente coisas que não servem pra quase nada.)

O oba-oba passou, a poeira baixou e a Internet não é o Futuro, é o presente e já tem história. Já dá para se fazer um balanço, e ver que nem todos os profetas acertaram. Alguns erraram na mosca.

Quem teve intuição e tino está hoje muito bem, obrigado. Vide Starmedia, Amazon, a própria Microsoft. E o azarão Linux, hoje roubando a cena.

O que distingue os lanterninhas dos campeões da Web? Sorte? Eu acho que não.

É lucidez.

Corro o risco de ser repetitivo, mas assumo o risco: vem tendo sucesso quem explora aquilo que a Internet tem de único, o relacionamento direto, a integração do que é disperso.

Nada é tão inovador e efetivo quanto a possibilidade de se tratar um usuário one-to-one, ou de se integrar numa solução business-to-business colaboradores espalhados geograficamente. Isso é muito mais revolucionário que qualquer pirotecnia. Isso é mensurável, justificável, rentável.

Se antes um projeto de Web prometia tecnologia de ponta, alta interatividade (argh) e olhe lá, hoje inclui E-commerce, e-service, i-service, personalização, formação de comunidades, database marketing, one-to-one marketing, web-centric processes, intranets e assim vai.

Claro que você pode continuar sub-utilizando a Web, tratando-a como um canal a mais de comunicação, como um apêndice do seu negócio. Não é fácil, realmente, integrar a sua empresa à Web e fazer da Internet o eixo central dos seus processos. Isso não é divertido, nem rápido, nem barato, muito menos coisa de moleque. Mas seu concorrente já deve ter começado, e logo pode te tirar do mercado.

Ficar para trás não é fatal, há sempre uma saída. Bancas de jornais, por exemplo, parecem dar um bom dinheiro. Até alguém lançar uma versão digital da maquininha de jornal aí da foto, que você aciona com o telefone celular, pega o seu exemplar, o preço do jornal vai para a sua conta telefônica, que você paga via Web e aproveita para se cadastrar para receber notícias instantâneas desse mesmo jornal no display do seu telefone multi-função. (Essa foto eu ainda não tenho, mas Isso já existe).

Você não está sendo atacado pelas costas. Você está cercado.




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