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Teatro e seu hiperduplo
Acabo de voltar de um restaurante, onde encontramos um
ator famoso misturado a outros mortais. Não nos surpreendemos, afinal
aquele é um reduto antigo da classe teatral.
Atores. Eles costumam ter em alta conta seu ofício, e não é incomum
que alguns, num esforço de redenção e catequese, se lancem pelados ao
colo de algum espectador desavisado ou corram atrás de outros brandindo
moto-serras, tudo em nome de uma experiência ativa da magia teatral.
Mas o que me fascina mesmo, mais do que aquilo que venha a acontecer
no palco ou nas telas, é a massa humana em torno. Eles assistem calados,
riem, choram, e assistem. Saíram de casa dispostos a observar gente
representando, fazendo de conta descaradamente. Voltarão a suas casas
com o coração e a mente ecoando emoções, pequenas sementes que talvez
vinguem, talvez medrem. (Em casos mais radicais, trarão respingos de
sangue de galinha, gosma ou tinta azul, mas isso deixo para lá).
Platéia e atores fazem de conta, é um pacto. O espectador pega o seu
cotidiano, dobra bem dobrado, junta ao seu passado meio amarrotado e
os deixa pendurados na chapelaria. O mundo fica lá fora, suspenso. Cá
dentro, ele vive na pele dos outros, fala por mil bocas, ouve tudo ao
mesmo tempo. Experimenta por empréstimo o que não pode, não quer ou
teme tentar. O espectador se multiplica em corpos diferentes, em passados
outros, em reações possíveis. Volta para casa são e salvo, mas marcado,
maior. A platéia é antropofágica há milênios, não esperou por Oswald
de Andrade.
É uma capacidade misteriosa essa nossa, de podermos ser outros, de vermos
por outros olhos, de aprendermos com ilusões.
A internet é um palco seguro. Podemos ser qualquer coisa, inclusive
a mais difícil de todas: ser bom. Talvez venha daí a generosidade e
o altruísmo reinantes na rede. Talvez esse treino virtual da simpatia
nos faça perder o medo, nos desarme, e nos ensine a ser gregários de
novo. Eu espero que sim.
Tente entrar em um chat do Universo On Line. Você
vai ver de tudo, sobretudo uma coisa: um espetáculo onde os atores estão
em toda a parte e a platéia em lugar nenhum.
É fascinante, isso. E promissor.
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