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artigos de rené de paula jr.


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Torcendo pela seleção

Foi bom ter feito meu curso de comunicações. Saí da escola com todo o ferramental teórico pra ser... um chato de galocha. Kit completo: ideais, conceitos, convicções, tudo prontinho.

Só faltava por em prática, ou seja, achar alguém pra azucrinar.

Oscar wilde já dizia: nada mais perigoso do que um homem com princípios. O pior é que, mesmo consciente disso tudo, acabei caindo na arapuca. Virei patrulha ideológica.

Oras...Não foi fácil, enfim, achar uma convicção honesta, trabalhadeira, de bom berço (e bonitinha, claro) pra ser mãe da minha prole e criação. Como diria minha avó, muita coisa nesse ofício é “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”.

A cara-metade que encontrei foi o marketing de relacionamento. O entrosamento foi pá-pum, o namoro foi intenso, o noivado breve e o casamento rico, e que vivamos felizes para sempre, amém.

Agora sim eu tinha convicções, agora sim eu tinha um norte. Mas fiquei um chato. Um pentelho. Prêmios? Cannes? Banners fantasmas? Branding? Tudo motivo e alvo do melhor do meu escárnio.

Estou aqui preparando sutilmente uma retratação, uma descarada virada de casaca? Não, continuo fiel ao meu credo.

O que eu quero é pregar (para mim mesmo, inclusive) a tolerância. Pregar tolerância sem apelar pra religiões ou credos, mas pra biologia. É isso aí: biologia. Seleção natural.

O mais forte vence, se multiplica e se perpetua, certo? E o mais fraco acaba sumindo do mapa, certo? Não.

Se fosse assim não haveria mais míopes como eu no mundo.

Ou gente estéril.

Ou homossexuais, que nem passam adiante seus genes.

Gente assim seria lanterninha se o “struggle for life” fosse mano-a-mano.

Gente assim seria um peso morto se a evolução fosse uma maratona.

A chave pra esse paradoxo é a 'evolução parental': o que conta é a evolução do grupo.

Indivíduos fora do padrão podem fortalecer o grupo, mesmo que individualmente sejam não-competitivos, inviáveis ou mesmo estéreis. Pense no quanto o nosso progresso e a nossa cultura devem muitíssimo a pessoas “diferentes”. Se os nazistas tivessem chance de pasteurizar o planeta, a vida ia ser de uma pobreza e chatura insuportáveis. A espécie iria definhar.

Em suma: vou me policiar pra não ser o dono de qualquer verdade. A diversidade é positiva.

Criação descompromissada e narcisista? Troféus e leões? Hype e pirotecnias? Egolatria e marketing pessoal? Vou me esforçar para enxergar nisso não aberrações, mas talvez males necessários, etapas inevitáveis, 'um-passo-atrás-para-dar-dois-adiante' e demais vantagens possíveis. Vou ser mais flexível.

Mas não me iludo: muita coisa no mundo interativo é um gol contra para o métier inteiro, e há todo tipo de parasitas e pragas debilitando nosso mercado. Esses eu pretendo azucrinar sempre.

Posso ser míope, mas não sei fazer vista grossa.




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