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artigos de rené de paula jr.


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Nu com a mão no mouse

Despir-se não é coisa simples, nem para exibicionistas.

Vi uma reportagem interessante outro dia sobre coelhinhas da Playboy. Modelos experientes confessavam que ser gravada nua em vídeo era, no início, altamente constrangedor, enquanto posar para fotos era moleza.  Pensei: pelada por pelada, que diferença faz?

Tem diferença sim: numa sessão de fotos elas preparam a pose, expõe os melhores ângulos (ou curvas?), e têm noção do que está sendo enquadrado. Já no vídeo não basta ser gostosona, tem que ser jeitosa (o que nenhum silicone resolve), e o que é pior, enquanto fazem seu número, nunca sabem o que o cameraman está explorando. E se ele fecha o zoom naquela dobrinha secreta? Ou naquela marca de vacina? E acabam perdendo o rebolado.

Vou confessar que já me senti assim algumas vezes, e não gostei. O que estava em cena não era minha nudez (que parece ter valor comercial irrisório) mas outras intimidades. Estou me referindo a testes psicotécnicos, daqueles em que um sujeito observa atentamente você desenhando casinhas e árvores, mexendo quadradinhos coloridos e outras puerilidades, e vai anotando tudo. Não sei se isso te incomoda, mas eu me senti estranhíssimo. Que taras e manias secretíssimas ele diagnosticou só porque eu hesitei entre um triângulo rosa e um círculo vermelho? Até que ponto meu destino profissional estaria dependendo de eu colocar peitos maiores ou menores num desenho tosco? Eu, hein... Não gostei. Dançar pelado deve ser mais fácil, ainda mais se bem pago.

Ainda vou preparar um teste indicador de perversões e taras baseado naquilo que é quase um inconsciente coletivo: televisão. Primeira questão: quem te atrai mais, a Jeannie-é-um-gênio ou a Feiticeira? Segunda: você já teve sonhos estranhos com Dr. Smith, com Fitzhagen ou com Spok? Quem você queria como seu amiguinho: Robin, Zorro ou o James West?

(Aliás, o que leva alguém saudável (todo herói parece ser) a vestir roupinhas colantes e coloridas e se envolver com bandidos? Quem é o figurinista perturbado que desenha as máscaras, capas e outros adereços incompatíveis com a performance atlética? Mistério mesmo é que um par de óculos disfarce o superhomem. Eu posso me vestir de Banana de Pijama que todos me reconhecem de longe.)

Heróis mascarados são fascinantes mesmo: na vida cotidiana são taxados de bananas e nem se incomodam, porque sabem que, no fundo, são do balacobaco. Na vida mascarada eles são absolutos, não devem satisfação a ninguém, e podem castigar desafetos sem medo de derrota nem de retaliação. Qual o garoto que não inveja isso?

Se o seu consumidor era até hoje arredio, diluído na massa, uma ficção estatística, agora ele não é mais invisível, está a nus, exposto. Estou falando da Internet, claro, onde as máscaras são tantas e a privacidade tamanha que o usuário não se preocupa com a própria imagem, e age com total naturalidade. Nu com a mão no mouse.

Um site bem planejado é capaz de acompanhar cada passo do visitante, e registrar cada decisão, cada preferência, e ir criando um precioso banco de dados de custo irrisório. Se os seus usuários forem fãs do Pinguim isso vai ficar patente, mesmo que eles jurem adorar a Mulher-Gato.

O que leva um internauta a se expor tanto? Não é só a “máscara”, a certeza de privacidade e segurança. Se a Internet só oferecesse isso não passaria de um espetáculo estranho, como um daqueles bailes de carnaval que passam de madrugada na tv.

O segredo são os superpoderes. Dê ao usuário do seu site poderes concretos, capacidades que ele não tem no seu cotidiano, poderes como o de efetuar transações, encontrar informações, se comunicar diretamente. Isso vale mais que capas voadoras, visão de raio X e telepatia.

Você já comprou livros na Amazon Books (http://www.amazon.com)? Lá você acha o que quiser, escolhe, encomenda, encontra sugestões, e toda decisão sua fica armazenada. Na próxima vez que você visitá-los, ele já arrisca sugerir livros com base no seu comportamento online. É de tirar o chapéu. E o cartão de crédito.

Dê poderes ao seu usuário e você o conhecerá como nunca, sem que ele se sinta invadido.

Se ele insistir em vestir a cueca por cima do collant, isso é problema dele.




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