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artigos de rené de paula jr.


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O outro lado da ilha

Acredite se quiser, mas eu já estive na Ilha de Caras. Tenho bonezinho e tudo. Fui me encontrar com uma diva do cinema mundial, a francesa mais francesa do mundo.

Falando assim, até eu fico com inveja de mim mesmo. Felizmente para nós, essa é uma revista que vai muito além das legendas e manchetes, e posso contar a história behind the scenes.

Antes de ser "interativo" eu era produtor e editor de TV, e meu último trabalho foi na HBO Brasil. Como meu francês é passável, fui escalado para entrevistar Catherine Deneuve na Ilha de Caras. Já me vi descendo de um iate e ganhando um colar de flores de Ricardo Montalban e Tatoo. Tive que me contentar com penosas horas na Kombi da produção, um barquinho merreca e desembarcar na porta dos fundos da ilha. Ossos do ofício.

Calor africano. Dezenas de repórteres confinados numa sala escura e quente, tentando vislumbrar pelas janelas o paraíso lá fora. Uma parafernália de tripés, câmeras, microfones. Suadouro geral. A grande dama do cinema finalmente chega, uma senhora de lenço e óculos escuros. Uma bela senhora, driblando com classe o peso dos anos, mas padecendo sob o peso dos quarenta graus à sombra, dos quarenta microfones, dos quarenta minutos que tinha para nós todos.

Fiz lá minha perguntinha, ela respondeu, e nos retiramos pelos fundos novamente, para sacolejar nas respectivas kombis serras acima. Zero glamour.

Mais dia menos dia uma de nossas estrelas da Internet vai estar na Ilha de Caras. É só o que falta mesmo, já que a publicidade aprendeu como usar todos os recursos usuais (mass-media, branding, assessorias de imprensa) em favor da Internet.

Felizmente, para nós, essa é uma revista que... (já disse isso) e posso me estender sobre o lado menos glamoroso do mundo interativo, em mais uma modesta contribuição em prol de uma web saudável (vide http://www.usina.com/textos).

Se pensarmos que a web é uma idéia na cabeça e um capitalista na mão, a web nacional vai ficar tão aquém da web americana quanto o cinema tupiniquim está distante da indústria de Holliwood. Poderemos ter um Glauber Rocha aqui, uma Central do Brasil ali, mas indústria que é bom mesmo, necas.

A comparação com uma indústria não foi gratuita. Mesmo que investidores estejam hoje dispostos a apostar muito na web, eles um dia vão querer retorno disso, e não vão sustentar salários astronômicos se o negócio todo não se mostrar viável a médio e longo prazo.

Antes de contagiar um investidor com seu entusiasmo e carisma, prepare-se bem. Frente a um business man, todos somos crianças contando historinha: "aí então eu faço o site aí então eu... eu... aí vem um montããão de gente e compra tudo e aí faço IPO e então eu fico rico, e...". E depois? E antes? E durante?

São vários os caminhos das pedras da web, mas as pedras são sempre as mesmas:

  • logística: como você vai entregar em Belém do Pará? A que custo?
  • integração com o negócio: quando acabar o estoque, o site vai indicar isso? a promoção vai sair do ar a tempo?
  • segurança: não basta ser seguro, o negócio tem que parecer seguro. A recíproca vale.
  • infra-estrutura: conte com o risco de que sua demanda crescer muito mais rápido do que sua capacidade, pois ninguém vai esperar você se reestruturar.
  • viabilidade: Durante quanto tempo você vai depender da mesada do papai, digo, investidor?
  • diferencial: você pode fazer todo o branding do mundo, mas na hora do vamos-ver, o que te distingue dos concorrentes? Serviço? Preço? Qualidade? Personalização?
  • interface: ouça designers e você terá um carro alegórico, ouça o seu programador e você terá um jipe militar. Seu consumidor tem paciência zero e alergia a complicações.
  • nicho: você pode ter um target em mente, mas eles precisam de você? Eles só vão sustentar seu sonho se você realizar os deles.

Voltemos pras ilhas e barquinhos, ou mais, voltemos pra uma metáfora marinha que uso sempre: o que vemos de um iceberg é aquela ilhota reluzente, mas o que a faz flutuar é a massa de gelo embaixo d'água. A mesma massa, aliás, que afunda Titanics incautos.




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