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internet tête-à-tête artigos de rené de paula jr. |
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Peixes e a Era de Aquários Quem quiser me encontrar aos sábados pela manhã, que me procure na feira. Vai ser fácil me achar, as barracas são poucas, a rua é curta e não tem tanta gente assim. Só peço que não perguntem de mim aos feirantes: não tenho idéia do que eles pensam de mim, e prefiro nem pensar nisso. Eles continuam me tratando normalmente, tão bem quanto à minha esposa, versadíssima na ciência milenar dos hortifrutis, mas que eles devem desconfiar, isso devem. Esse meu interesse profundo pelas formas de repolhos, pelo design de peixes e pelas convoluções de vísceras bovinas deve parecer algum tipo de fiscalização à paisana. Se eles lessem ABOUT, contudo, iam se sentir verdadeiras musas de artigos aleatórios. A barraca dos peixes é para mim fonte de inspiração perpétua, mesmo que inspirar naquela área não seja muito recomendável. Os poucos peixes que conhecia até então viviam em aquários. Um deles, o último que tive, marcou minha memória ao saltar do seu mundinho esférico e amanhecer morto na máquina de escrever de meu pai, sem deixar um bilhete sequer. Entendi enfim Manuel Bandeira e “a paixão dos suicidas que se matam sem explicação”. Outra lembrança literária dessa incomunicabilidade vem de um diário de Érico Veríssimo, onde ele descreve os camponeses mexicanos como tão inacessíveis e distantes como peixes num aquário. Pode ser algum tipo exótico de claustrofobia, mas é assim que as mídias tradicionais me fazem sentir: como um peixe no aquário. Vejo através do vidro um mundo separado de mim, e que me alimenta gratuitamente com uma ração diária de emoções e informação. Para piorar, ainda nos confundem com piranhas, servindo doses cada vez maiores de carne tenra e sangue. Essa sensação de passividade e isolamento desaparece na Internet. Ali caço meu próprio alimento, ali encontro companheiros de espécie, ali tudo é móvel, variado e fecundo. Ok, já se foi o tempo que nós precisávamos de metáforas para descrever a Internet, nós não precisamos mais disso. Nós não, mas eu sim. São tantas e tão complexas as questões que vem envolvendo esse fenômeno que eu precisei parar por um instante e repensar minha posição a respeito. Essa mídia requer lucidez e coerência, e isso se perde com facilidade. Duas idéias básicas: a Internet não é minha nem sua, muito menos dos profissionais de comunicação. Sejamos sinceros e admitamos: ela surgiu e cresceu à nossa completa revelia, e o máximo que alguns de nós conseguiram foi pegar o bonde andando e sentar na janelinha. O que isso implica? Implica humildade e cuidado dobrado, pois estamos lidando com um universo muito particular, onde muito do que sabemos não tem mais valor. Segunda idéia central: embora estejamos conseguindo tornar a Web cada dia mais rica em recursos multimídia, usando Flash, Shockwave, Java e Real, isso não garante a conquista dos corações e mentes online. Se tudo essa pirotecnia realmente fosse fundamental, as pessoas não estariam deixando suas TVs estereo de 29” para sentar frente a um PC. O grande tesão da internet é conectar-se ad libidum (libidinosamente, inclusive), como, quando e com o que você quiser. A internet é relação, não só desejo. Fazer sites que gerem relações férteis não envolve necessariamente a última tecnologia. Com um bom banco de dados e um pouco de CGI você pode ter um site útil, funcional, dinâmico, multi-plataforma e de expansão e manutenção simples. Sites que funcionam propiciam relações fecundas, que geram frutos para todos os envolvidos. O usuário se realiza, o “dono” do site colhe resultados, e o site cresce e se ramifica. Por mais tecnológica que pareça a internet, sua essência é orgânica. Tivemos que digitalizar e cabear o mundo para criar um universo vivo, onde seres humanos não são números nem massa, são agentes e criadores. Não acredito em quem dita regras, mas gosto de semear o que penso. Tenho sete propostas para sua próxima ação na internet: leveza, funcionalidade, coerência, expansibilidade, compatibilidade, gerar relações, coleta de dados. Tenho uma outra proposta, mas deixa pra lá. Nem
todos gostam do barulho e do cheiro de feira. |
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