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NUS COM A MÃO NO BOLSO
(fev99)
Uma campanha publicitária na Internet dizia: faça compras
nu. Genial. Nada como a internet pra você comprar pelado, trabalhar
pelado, e inclusive ir a museus pelado. (Não recomendo ir ver a Mona
Lisa nu. O sorrisinho dela acaba com a sua auto-estima.)
Maravilhoso mesmo é ir ao museu nu e voltar com obras-primas no bolso.
Eu já tenho comigo vários Klimt, Schiele, Klee, Mondrian, textos clássicos,
edições fac-símile, cartazes de filmes. Escolho a obra, clico com o
mouse, e gravo num zip disk. Voilà.
Nesta coleção compacta as peças mais desconcertantes, modernas e emocionantes
não surrupiei de museu algum, e nenhum dinheiro as poderia comprar:
são pinturas da gruta de Lascaux. Há dezessete mil anos homens pintaram
no fundo escuro de uma caverna touros esplêndidos, cavalos, cervos.
Obras-primas.
Se do ponto de vista de Criação esses homens das cavernas não ficam
devendo nada a nós, quanto a Mídia eles eram pré-históricos. Por que
cargas d'água esconder aquelas maravilhas numa gruta sem luz? A explicação
clássica dizia que as pinturas tinham finalidade mágica: capturar a
alma dos animais e atraí-los para dentro da gruta, onde viravam janta.
Ao que tudo indica, porém, os animais pintados não faziam parte da dieta
dos pintores. Cai o argumento e fica o mistério.
Por uma ironia histórica, estamos deixando outro belo enigma para os
arqueólogos do futuro. Eles vão encontrar sites brasileiros esplêndidos
e irão se perguntar: "Por que essa pérola do webdesign ficava escondida
nas profundezas da Web? Eles usavam alguma magia para atrair usuários?"
(Vão acabar pensando em alguma seita iniciática, porque são tantos os
plug-ins e recursos necessários que os leigos e não-iniciados acabam
ficando de fora.)
A menos que você queira esconder seu site, são muitas as maneiras de
se garantir visibilidade. A primeira delas é uma boa estratégia de mídia,
se possível combinando a mídia tradicional com banners eficazes e bem
distribuídos. Uma maneira ainda mais eficiente é estar se associando
a portais ou sites de comunidade (Starmedia, Universo On Line, Zaz,
entre outros), que investem pesadamente na conquista e manutenção de
uma platéia cativa e sobretudo ativa.
Despertar interesse, assegurar visibilidade, focar um determinado target,
isso a propaganda já faz (e muito bem) nas outras mídias, mas nada disso
traz resultados na Web se seu site não gerar relações fecundas. Se o
usuário não se envolver com seu site, se não obtiver nada em troca do
seu desejo, vai embora e não volta. Outros milhares podem vir, gerando
números altíssimos de visitação, mas partirão em busca de quem os trate
melhor. (É quase a mesma diferença entre ser um grande sedutor e um
excelente amante e companheiro. Sedutores podem se gabar de seus números,
mas bons amantes marcam para sempre.)
Quer outra diferença entre as mídias? Papel aceita tudo, TV idem: se
você diz que seu cliente é o máximo, não há como desconfiar do contrário.
Na Internet, porém, se você não cumpre o que promete fica muito, mas
muito feio. E isso inclui desde oferecer serviços que não funcionam
até demorar a responder e-mails de usuários.
Para se dar bem nesse campo de nudistas que é a Web, vai aí meu conselho:
não adianta ser lindo e ficar escondido. Não adianta se expor, se você
não seduz. E não adianta seduzir se na hora H você nega fogo.
Esse público é exigente: frustre-o e te jogam no fundo da caverna. Você
vira curiosidade arqueológica.
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