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Interativos: ponham-se no devido lugar

O bebê chora. Pouco adianta você ser Einstein ou Garrincha, bispo ou general: o bebê chora. Não há acordo. Algo dói? Onde? O que fazer? Faltam anos ainda para qualquer diálogo. Enquanto isso, por falta de melhor recurso, o bebê chora. A plenos pulmões.

Claro, a gente cresce e aprende a se expressar melhor. Não muuuuito melhor, justiça seja feita. Vá a um vernissage e veja leigos diante da obra avaliando: "quanto movimento nessa tela!". Ou, frente a uma coreografia mais ousada, dizerem que é conceitual.

(Dica: diante de websites, não hesite: a palavra salvadora é interativo.)

Não crucifiquemos os leigos por isso. Todos nós somos leigos também em alguma coisa. Aprendi outro dia, por exemplo, que um ikebana não é apenas um arranjo floral acrobático. Quando eu dava a volta murmurando "lindo, lindo, lindo" estava cometendo uma gafe básica. Ikebanas são feitos para serem vistos de um ângulo só, e ponto. Só não me pergunte que ângulo é.

Vai ver é por isso que odiei Brasília. Eu devia ter me restrito a contemplar cartões postais, ou então, numa hora mística, me postar num lugar x/y e contemplar "o traço poético do arquiteto". Aquilo não é uma cidade, é uma maquete 1x1, e ali ninguém caminha, roda-se de carro a velocidades ensandecidas.

No nosso ofício as coisas são bem diferentes, ou pelo menos deveriam ser. Nossos usuários pegam o que fazemos e fazem com ele o que bebês fazem: viram do avesso, retorcem, espremem, mordiscam e, com um clique, o jogam pra trás quando se entediam. Ou protestam com a mesma energia e obscuridade do bebê que chora irritado.

Deixemos as metáforas e bebês em paz. Vamos direto ao ponto. Ou melhor, dois pontos.

Primeiro ponto: o que vocês dois, cliente e interativo, pensam e sabem pouco interessa. Se um conhece o organograma da empresa e seu catálogo de cor e salteado, e se o outro é o rei dos disáiners ou das incubadoras, pouco importa. Como diria o Arquivo X, the truth is out there. Quem manda é o freguês.

Um dos maiores desafios para a mídia interativa é mudar justamente de posição, é por-se no seu devido lugar: o lugar do usuário. Ser customer-centric é imperativo.

Falando assim parece fácil, mas não é não. Se você conseguiu criar um site que reflete com perfeição o perfil de uma empresa (branding, serviços, produtos), meus pêsames. Você provavelmente criou um labirinto no qual seu usuário talvez nem entre, e de onde saberá sair com um clique só.

Segundo ponto: ponha-se no lugar do seu consumidor e veja se é de criatividade que ele está sentindo falta. "Criativa" a comunicação brasileira (propaganda, TV, rádio) já é há décadas, e a vida dele não melhorou muito com isso.

Seu consumidor quer serviço. Quer resolver problemas. Quer satisfação imediata. Ou então vai pra Amazon.

Vamos em frente. Como ser consumer-centric?

Um ponto de partida de obviedade ululante é ter bem claro com quem você está falando. Isso vai definir a tua estratégia inteira, do texto à mídia, da interface ao mix de produtos. Não perca isso de vista em momento algum, por mais que seja complicado definir o target em web.

Uma vez definidos os targets, vem a parte complicada: abstrair a empresa e focar nos targets. O que quer cada um deles? Que diabos ele espera fazer no nosso website? Liste todas os possíveis desejos e necessidades.

Mais um ponto chave: barreiras. Quais são os bloqueios e inseguranças que seu target pode ter com relação à web?

Agora sim começa o trabalho: atacar um a um cada desejo, cada intenção, cada necessidade. Criar uma experiência onde o usuário se sinta confortável, seguro, ambientado. Aqui começa o desafio para quem cria, implementa e mantém websites.

Uma dica: não se fie no que o usuário diz. O usuário sabe expressar seus problemas e medos tão mal quanto um bebê expressa sua dor-de-ouvido.

O resultado desse parto pode ser surpreendente. Você pode descobrir, inclusive, que algumas coisas nenhum site resolve sozinho, e que uma boa ligação de telemarketing, por exemplo, pode ser indispensável.

Em suma: gente precisa de colo. Sempre.




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